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Boas maneiras

Alfredo Enéias Gonçalves d?Abril
| Tempo de leitura: 3 min

O currículo do ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa é invejável. O menino pobre sustentou a mãe e sete irmãos mais novos após a separação dos pais, ainda como adolescente. Mudou-se sozinho para Brasília aos 16 anos de idade e trabalhou em serviços subalternos no jornal "Correio Braziliense" e no Superior Tribunal Eleitoral como faxineiro. Longe de ser apaniguado da política, tomou assento no cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal, levando um currículo senão inédito, mas correlato aos das pessoas vitoriosas frente ao extraordinário ascenso marcado pela determinação pessoal conjugada a uma formidável inteligência.

Sem ajuda de ninguém e lutando contra dificuldade financeira, cursou direito na Universidade de Brasília, tornando-se mestre na mesma escola. Aprovado no concurso público no Ministério das Relações Exteriores serviu na Finlândia. Habilitado no concurso de procurador da República estudou na França deixando aquele país com os títulos de mestre e doutor em direito público. Também por concurso, ingressou na docência na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Na Inglaterra, Estados Unidos, Áustria e Alemanha estudou o vernáculo daqueles países, dominando o idioma com fluência, como também o espanhol. Como estudioso da ciência jurídica lhe faltava o título de ministro para consagrá-lo no mundo do direito o que conquistou ao tomar posse no Supremo Tribunal Federal.

Nas sessões de julgamento transmitidas pela televisão, o grau de cultura jurídica de Joaquim Barbosa e seu temperamento nem sempre controlado por insistir que seus colegas se alinhassem com as teses que defendia, mostrava a personalidade que conquistou a simpatia dos brasileiros. O atributo de celebridade nas hostes jurídicas o atingiu na presidência do processo do mensalão, defendendo com bravura o Estado democrático contra incursões ao seu patrimônio econômico pelos réus condenados, impressionando a combatividade, o notável conhecimento detalhado do processo e o entusiasmo e desprendimento tal como estivesse numa batalha disputando algo de mais precioso. O desfecho do mensalão consagrou o ministro como herói na concepção do povo que torcia pela condenação dos réus, saudando-o entusiasticamente pelo corajoso e dedicado desempenho coroando o rumo de sua atuação, enquanto nos debates constantemente travados com colegas, despontava o estado de espírito mais voltado à bravata do que o de equacionar questões discutidas. Trivial era o destempero na escolha das palavras proferidas como respostas aos seus pares e claramente percebido o mal estar causado pelas dores na coluna, mitigadas com a incessante mudança de posição junto à mesa de trabalhos.

Ganhou, merecidamente, a aclamação popular sendo olhado como celebridade de elevado preparo jurídico e brilhante na exposição das ideias, qualidades que vieram agregar ao estilo simples de vida mesmo já ministro do STF, porém, menos conhecido, ao tempo que participava de rodadas de cerveja com amigos num bar em Brasília.

Temia-se que o conhecido excesso do ministro causasse algum desgaste à instituição que preside, depois que STF conseguiu readquirir sua confiança perante a opinião pública com o julgamento do mensalão, em que poucos acreditavam na condenação e muitos ainda apostam que não haverá efetiva execução das penas como realidade aguardada: cadeia! E não foi em vão o receio porque na última semana o ministro não conseguiu dominar sua irritação e ao invés de responder perguntas do repórter do jornal "O Estado de S. Paulo", como faria com elegância e polidez o seu antecessor, lançou-lhe gratuitamente ofensas em meio à prepotência de autoridade disparatada, da qual é esperado comportamento diverso nas relações com a imprensa, pois foi ela que difundiu sua imagem como modelo de juiz, defensor ferrenho de mudanças para reduzir o tempo de duração de processos e algoz dos corruptos instalados em todos os poderes de Estado. Os constantes arroubos do ministro eram conhecidos antes de sua fama, histórico que garante não terem surgido na claridade dos holofotes, contudo, para arrefecê-los está precisando de sensatez para conter essa face grosseira da personalidade, a qual não se compraz com a grandeza do cargo investido.

O autor, Alfredo Enéias Gonçalves d?Abril, é professor universitário, aposentado

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