João Rosan |
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Família inteira sofre com a doença na Vila Independência. |
Uma herança nada benéfica. Assim é a dengue para uma família moradora do Parque Fortaleza, em Bauru. A doença, que ultrapassou ontem os mil casos em 2013, já atingiu quatro gerações da família. Enquanto Romilda de Oliveira, 63 anos, relembra os fortes sintomas que teve, a vítima mais nova, um bebê de apenas 3 meses, sente a enfermidade na pele.
Ontem, por meio da assessoria de comunicação, a Secretaria Municipal de Saúde confirmou outros 92 novos casos de dengue em Bauru, totalizando 1.091. Desses, 1.083 são autóctones e oito importados.
Caroline Oliveira, 21 anos, é quem relata a sina da família, que vive na quadra 2 da rua Ernesto Quaggio. Há cerca de cinco dias, seu filho, de 3 meses, começou a apresentar febre forte e manchas vermelhas pelo corpo. “Fiquei desesperada”.
O desespero veio por conta da idade da criança, uma vez que Caroline já é quase uma “especialista” em lidar com familiares vítimas da dengue. Há cerca de duas semanas, o pai da criança, de 19 anos, e a mãe de Caroline, de 35 anos, também contraíram a doença.
Atualmente, só a criança ainda não se curou. Mas o problema já fez com que a família começasse a se cuidar. “Comprei repelente hoje (ontem)”, afirma Caroline Oliveira.
Porém, outros hábitos precisam mudar de forma urgente. Na varanda da casa, havia vasos de plantas. Em um deles, com um pouco de água acumulada, era possível ver larvas do Aedes aegypti. “Vou falar para minha mãe jogar isso fora”.
Foi exatamente isso que fez a “matriarca” da família, que mora na residência ao lado. Romilda de Oliveira contraiu a dengue há 15 anos e, depois de sentir os fortes efeitos da doença, livrou-se de tudo que pudesse propagar a doença. “Foi algo horrível. Tinha muita febre e dor de cabeça. Aquela dor no olho. Depois disso, passei a me cuidar. Faço a prevenção até hoje”, aponta.
Praça municipal
Mas, enquanto Romilda tenta se prevenir, os entornos de sua casa não ajudam. Na quadra 1 da rua Ernesto Quaggio, há um terreno baldio com bastante lixo. “Esses dias, eu peguei vários potinhos de vidro cheios de água que estavam jogados aqui”, conta Romilda.
O pior é que o terreno se trata, na verdade, da praça municipal Antonieta Fernandes Nogueira. Por meio da assessoria de comunicação, a prefeitura afirma que a limpeza do local será realizada nos próximos dias.
“Tem gente que vem de caminhonete aqui e despeja todo o lixo. E tem um punhado de pernilongos nessa região“, reclama a moradora.
Em meio a esse contexto, vale destacar as medidas preventivas divulgadas pela Secretaria de Saúde: evitar vasos de plantas com pratos de plásticos; manter ralos internos e externos tampados, bem como vasos sanitários; manter as piscinas limpas, tampadas ou desmontadas, quando possível; descartar todo material inservível com potencial para criadouro de larvas do mosquito Aedes aegypti (garrafas, latas, embalagens vazias, pneus e outros) e manter a limpeza das calhas antes de sair de casa por vários dias.
E também leishmaniose...
Se já não bastassem as quatro gerações com dengue, a família Oliveira ainda teve outro registro de doença transmitida por mosquito. “Em setembro do ano passado, meu outro filho, de 2 anos, teve leishmaniose”, conta a copeira Caroline Oliveira.
Este ano, a enfermidade já matou um homem de 76 anos na cidade. A doença também preocupa, pois, segundo dados da Vigilância Epidemiológica, entre 2003 e 2012, foram registrados 430 casos, com 37 mortes.
Pior ano
Os cuidados com a dengue realmente precisam ser redobrados. O número de casos em 2013 já é 31 vezes maior do que todos os registrados no ano passado. Isso sem contar as subnotificações. Conforme o JC apontou na semana passada, elas equivalem a, pelo menos, 50% do montante de casos confirmados. Em 2011, Bauru teve a pior epidemia da história. Na ocasião, seis pessoas morreram e 4.366 pessoas foram contaminadas. Até março daquele ano, a cidade tinha pouco mais de 500 registros da doença, ou seja, menos metade do número já apresentado em 2013.
População reclama da morosidade do poder público em controlar a doença
Caroline Oliveira afirma que, mesmo com os quatro casos registrados em sua família, nunca viu a nebulização ser feita no Parque Fortaleza, bairro localizado nas proximidades da Vila Independência. A sua avó vai mais longe: “Moro aqui há 12 anos e nunca vi essa nebulização”, critica Romilda de Oliveira.
E não são só elas que reclamam do poder público. Após reportagem veiculada pelo JC apontando que nem a epidemia conscientizava a população, muitos leitores questionaram as ações da prefeitura para conter a doença.
Até o começo da noite de ontem, a reportagem tentou contato com o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, para repercutir as críticas. O titular da pasta, contudo, não foi encontrado.
Já por meio da assessoria de comunicação, a Secretaria de Estado da Saúde esclareceu que o trabalho de campo para o combate e o controle da dengue cabe às prefeituras.
Entretanto, a secretaria aponta que, por intermédio da Superintendência do Controle de Endemias (Sucen), apoia os municípios no combate à dengue, mediante a capacitação de pessoal e suporte em ações.
A secretaria afirmou também que convocou secretários de Saúde de 13 municípios acima de 60 mil habitantes, entre eles o responsável pela cidade de Bauru, para alinhar ações de prevenção e controle da dengue.
