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Francisco diz que Igreja deve retomar raízes do Evangelho

Agências
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Osservatore Romano/Reuters

Em sua primeira missa, papa falou apenas aos cardeais entre os afrescos da capela Sistina

Em sua primeira missa pública, o papa Francisco pediu ontem à Igreja Católica para que se atenha às suas raízes do Evangelho e rejeite as tentações modernas, alertando que ela vai se tornar apenas mais uma entidade beneficente se abrir mão da sua verdadeira missão.

Numa homilia simples e profunda, o papa argentino definiu claramente um caminho moral para os 1,2 bilhão de seguidores da Igreja, que vive um momento de escândalos, intrigas e conflitos.

Falando aos cardeais entre os afrescos da capela Sistina, onde ele foi eleito em conclave na véspera, Jorge Bergoglio declarou que a Igreja deve ficar mais focada nos Evangelhos de Jesus Cristo.

“Podemos caminhar o quanto quisermos, podemos construir muitas coisas, mas se não proclamarmos Jesus Cristo, algo está errado. Vamos nos tornar uma ONG caridosa, e não uma Igreja que é a noiva de Cristo”, disse ele, falando em italiano e sem anotações.

Primeiro pontífice não-europeu em 1.300 anos, Bergoglio sinaliza até agora que levará um novo estilo ao papado, favorecendo a humildade e a simplicidade em detrimento da pompa, grandiosidade e ambição entre seus principais dirigentes.

“Quando caminhamos sem a cruz, quando construímos sem a cruz e quando proclamamos Cristo sem a cruz, não somos discípulos do Senhor. Somos terrenos”, declarou ele aos cardeais, que trajavam vestes douradas.

“Podemos ser bispos, padres, cardeais, papas, tudo isso, mas não somos discípulos do Senhor”, acrescentou.

Novo Estilo

Ao fim do jantar de festa pela sua eleição, na noite de ontem, o papa Francisco disse aos cardeais que o escolheram: “Deus os perdoe pelo que vocês fizeram.”

A frase, em tom bem-humorado, foi um dos primeiros sinais de mudança de estilo no comando da igreja.

Em suas primeiras horas de pontificado, Bergoglio também chamou a atenção por quebrar o protocolo com gestos de humildade.

Quando o conclave terminou, ele permaneceu de pé para receber os cumprimentos na Capela Sistina, em vez de se sentar no trono de papa. Na saída, recusou a limusine papal e embarcou de volta no ônibus que havia levado os cardeais para a votação.

Mais tarde, na janela da Basílica de São Pedro, Bergoglio apareceu para o povo com uma veste branca simples e sem a capa vermelha dos papas.

Ele também trocou o crucifixo de ouro, símbolo da opulência da Igreja, pela cruz de prata que já usava nos tempos de bispo.

No discurso aos fiéis, apresentou-se como bispo de Roma, e não como pontífice.

Ontem ele fez uma visita surpresa ao hotel religioso onde ficou hospedado.  Buscou suas malas, saudou os funcionários e pagou a conta. Antes, Francisco havia deixado discretamente o Vaticano para rezar por orientação em uma das maiores basílicas romanas, antes de passar por um albergue eclesiástico onde havia deixado suas bagagens antes de entrar no conclave, na terça-feira.

Conhecido pelos hábitos frugais, o novo papa fez questão de pagar a conta. “Ele estava preocupado em dar um bom exemplo sobre o que os padres e bispos devem fazer”, disse um porta-voz do Vaticano.

Boa Forma

Francisco, de 76 anos, é mais velho do que muitos dos cardeais que eram citados como “papáveis” e sua idade foi uma das muitas grandes surpresas causadas por sua eleição no conclave. O Vaticano disse ontem que ele está “em muito boa forma”, apesar de ter tido um pulmão parcialmente removido em uma cirurgia 50 anos atrás.


Bergoglio sempre foi favorito, diz cardeal de Viena

Nenhum vaticanista esperava a eleição do conservador cardeal argentino e ontem  começaram a surgir alguns detalhes sobre essa surpresa.

O arcebispo de Viena, Christoph Schoenborn, confirmou que Bergoglio rapidamente emergiu como um candidato forte, ganhando o título de papa após cinco votações - apenas uma a mais do que no conclave que elegeu Bento XVI.

“Eu não vou dizer como são as conversas, que são internas. Mas uma coisa é certa: o cardeal Bergoglio não teria se tornado papa na quinta votação se não fosse um nome realmente forte para o papado desde o começo”, disse Schoenborn.

Bergoglio foi o segundo mais votado no conclave que elegeu Bento XVI como papa, mas não foi sequer mencionado nas listas de candidatos papáveis divulgadas desta vez.

Manter-se discreto, no mundo dos conclaves, é considerado uma vantagem. Há, um ditado em Roma, que diz como é comum que os cardeais saiam desapontados. “Entrar como um papa e sair como um cardeal.”

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