Perambulando pelas ruas da cidade, dirigiu-se ao grande bosque fronteiro da rua principal. Era um final de tarde e ele resolveu sentar-se em um dos bancos e assuntar conversas com colegas aposentados. Dos presentes, alguém falava de imortalidade. Como não entendia disso, preferiu ouvir os mais doutos e a conversa jogada fora dizia tratar-se dos "imortais" das Academias, das pessoas inesquecíveis e das obras dos mais famosos autores ou artistas. Resvalando para a filosofia, um outro falou do imortalismo, explicando tratar-se, em doutrina, da imortalidade da alma que, segundo seus conhecimentos, era uma qualidade atribuída à alma humana, pela qual esta sobrevive indefinidamente à morte, conservando suas características individuais. Após bom tempo ouvindo as perorações e até um pouco atordoado, despediu-se levando na memória os discursos sobre imortalidade.
O passar de uma para outra vida não era um pensamento capaz de torná-lo preocupado! O tempo estava completando sua obra e ele, por certo, iria caminhar sozinho levando na modesta bagagem de mão apenas a possível riqueza do coração e do amor, tendo por símbolo das amizades conquistadas uma pétala de rosa de inebriante e agradável aroma. Apenas o amor já seria o bastante... Havia confessado à sua amada como seria saboreada a saudade, saudade amenizada pelo infinito na extensão da alma e o infinito na duração do Universo, uma vez que a existência humana tem o seu termo para dar lugar a outra vida. Preocupado ele não estava ! A palavra imortalidade, muito comentada na reunião com seus amigos, significava para ele uma ponte, e quando feita a sua transposição, teria a oportunidade de contemplar a imensidão do céu, o reencontro de todos os entes queridos e apreciar, sob a proteção dos bons espíritos o sol de todas as auroras...
Em sua biblioteca, ele meditava sobre o significado vulgar das pontes como construção destinada a estabelecer ligação entre margens opostas, entretanto, para ele, outras pontes eram estabelecidas ao simples estender das mãos entre pessoas conhecidas ou não para cumprimentos ou estender as mãos para retirar da estante livros de Allan Kardec e Léon Denis, estes, sim, ao lado de outros tantos imortais literatos da doutrina espírita e da filosofia espiritualista. Estabelecida a ponte entre o autor/ leitor e estimulado pelas conversas ouvidas no jardim, ele despertou para as mazelas da vida atual e para as belezas da vida futura quando amparado pelos bons espíritos, "espíritos que jamais foram instigadores do mal; jamais aconselharam ou legitimaram o homicídio e a violência; jamais excitaram os ódios dos partidos nem a sede de riquezas e de honras, nem a avidez dos bens da Terra", no dizer de Santo Agostinho.
Roque Roberto Pires de Carvalho