Cultura

Menina que (não) passa

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 4 min

Divisor de águas do gênero, a gravação que ficaria mundialmente conhecida chega aos 50 anos sem rugas ou reparos. Nova em folha.

Entre 18 e 19 de março 1963, num estúdio de Nova York, a antológica versão em inglês foi registrada e finalizada. Só sairia em disco, contudo, um ano depois pelo selo Verve (LP “Getz/Gilberto”).

Como se sabe, a versão original (“Menina que Passa”) tinha letra diferente de Vinicius de Moraes composta em 1962, em Petrópolis - cinco anos após “Chega de Saudade”, de João Gilberto. 

Vinicius mudou a letra que, finalmente, casou-se perfeitamente com a melodia envolvente que Tom Jobim compusera para uma comédia de sua autoria que nunca sairia do papel. 

A alteração dos versos contou com a precisa ajuda involuntária de Helô Pinheiro, musa da canção na flor de seus 20 anos.

Era ela que vivia desfilando seu charme na calçada do então Bar Veloso (hoje “Garota de Ipanema”) - na atual rua Vinicius de Moraes (na época, Montenegro) - onde a família de Helô residia. 

Só feras

A gravação de 1963 conta com Tom ao piano, João Gilberto (violão e voz) e Astrud (então mulher de João) no vocal – ela era a única que falava inglês entre os brasileiros ali presentes.

O saxofonista Stan Getz e os músicos Tião Neto (baixo) e Milton Banana (bateria) completam o elenco.

A adaptação da letra ao inglês coube a Norman Gimbel. 

A música tinha originalmente 5:55 – reduzidos a 3:55 para ser mais facilmente encaixada na programação das rádios. A voz de João (vejam só) acabou cortada da versão final, mas quase ninguém destaca isso porque o sucesso foi avassalador.

Tom e Vinicius nos anos 60 e Helô em foto recente (acima): unidos pela arte

O álbum “Getz/Gilberto” não só faturou a sétima edição do Grammy de 1965 como “The Girl From Ipanema” venceu “I Wanna Hold Your Hand”, dos Beatles, como melhor gravação.

Frank Sinatra deixou seu registro em 1967 - e as regravações nunca cessaram de lá para cá num total que deve superar 200 versões até hoje.

Ninguém tem um controle exato, mas tornou-se comum afirmar que a tal “garota” é a segunda música mais regravada de todos os tempos - só atrás de “Yesterday”, dos Beatles (1965). 

“Garota de Ipanema” é de todos, sem ser volúvel. Brasileira universal. Não é à toa que “o mundo inteirinho se enche de graça”. Tudo por causa do amor.

Jogral de gênios


Em 1962, “Garota de Ipanema” já era tocada nos palcos do Rio por Tom Jobim e João Gilberto na companhia do “poetinha” Vinicius.

O público sempre aguardava o momento em que eles conversavam como que num improviso festivo:


“Tom, e se você fizesse agora uma canção / Que possa nos dizer / Contar o que é o amor?”

Ao que Tom respondia:

“Olha Joãozinho, eu não saberia / Sem Vinicius pra fazer a poesia...”

O poeta (Vinicius) pegava o mote e dizia:

“Para essa canção se realizar / Quem dera o João para cantar...”

E João Gilberto completava:

“Ah, mas quem sou eu? / Eu sou mais vocês / Melhor se nós cantássemos os três...”

E os três:

“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça...”

 

‘Letra para viver’

Magia: esse é poder de “Garota de Ipanema” para a cantora e amante de MPB Neusa Maria. “Nos meus shows, quando a gente tem repertório de bossa, essa música não pode faltar. E se a gente não canta, sempre tem alguém da plateia que pede”, diz. A cantora de Bauru acrescenta: “Quando você ouve ou canta, consegue se transportar, viver a letra, sentir. E a melodia é linda”. (Mariana Cerigatto)

Sensível e  complexa

“Garota de Ipanema” é cantada facilmente. Mas, pra quem arrisca tocar essa canção, tem que estudar bastante. Na época em que surgiu, foi considerada uma música complexa por muitos. É o que diz a cantora Audren Victório, que já interpretou várias vezes a famosa composição. “É raro não cantar essa música”, disse. “Quando ela foi composta, não imaginavam que iria ter toda essa dimensão”, avalia. “Era uma música diferente pra época. Parece fácil, todo mundo canta, mas na hora de tocar tem que estudar muito”, afirma. (MC)

Início de nova era

A cantora e compositora bauruense Luciana Pires diz que “Garota de Ipanema” tem um espaço reservado nos shows que sempre faz em parceria com o músico Adilson Godoy. “É sempre uma das primeiras que a gente toca”, salienta. Para Luciana, a canção marcou o início de uma nova “era” da música. “Foi uma das primeiras músicas no estilo bossa nova. Também marcou a parceria entre Tom e Vinicius, assim como a época em que eles estavam vivendo. Acho que ela é especial por isso, por projetar a identidade do Brasil”, comenta. (MC)

Caminho e poema

A jovem cantora e compositora de MPB ainda diz que “Garota de Ipanema” conseguiu transformar um simples caminhar de uma mulher em um poema que tocou o coração do mundo todo. “Acho que a bossa nova veio para trazer o assunto ‘amor’ à tona, deixando aquela coisa tão sofrida do samba. É uma música bem romântica... A letra é poética, pois conseguiu transformar um simples caminhar em um poema”, ressalta. “E com isso, os autores da música conseguiram tocar nosso coração... Uma situação tão simples (um caminhar) acabou virando uma das canções mais regravadas no mundo”. (MC)

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