Quando o Banco Central iniciou, no segundo semestre de 2011, o cuidadoso procedimento de redução dos juros, abriu-se um espaço para a multiplicação de análises interessadas em atacar a política, na expectativa de produzir um nível de descrédito capaz de interromper o processo. Basicamente, os analistas favoráveis à manutenção dos altos juros pretendiam convencer a sociedade que sem eles seria impossível controlar a inflação. O governo insistiu na política para trazer as taxas de juro o mais próximo possível dos níveis internacionais, por entender que elas têm um espectro de influência sobre o sistema econômico que transcende seu papel de estabilizar a inflação. Manter um juro real baixo é fundamental para estimular a retomada dos investimentos privados e um fator decisivo para aumentar a capacidade do investimento público nos empreendimentos vitais para a solução dos gargalos logísticos na infraestrutura.
Está mais do que evidente, hoje, que a estratégia do Banco Central foi correta, ao manter a prioridade da política de queda dos juros. Durante um longo período houve uma espécie de cabo-de-guerra entre o setor financeiro e o governo, finalmente vencido por este, em benefício da sociedade produtiva e da população consumidora. Nas últimas semanas, analistas do mercado e "investidores financeiros" voltaram as suas baterias contra a autoridade monetária, com a conversa que o nível da taxa de juros está muito baixo e isso vai prejudicar o combate à alta de preços e que, portanto, "é urgente elevar a taxa Selic", como único remédio capaz de garantir a meta inflacionária.
Ora, esse é o tipo de argumento que só interessa aos intermediários que vivem da especulação financeira e sentem-se prejudicados porque a baixa dos juros tornou muito complicado manter as transações com os tais derivativos que estão na origem da tragédia mundial que eles causaram. Tentam convencer a sociedade que a taxa Selic precisa retornar ao nível de 9,5% e o juro real subir para 4% e 5% para não se perder o controle da inflação.
O diagnóstico consensual hoje no Brasil é que o crescimento dos preços não é resultado de um excesso de demanda, mas produto de um "travamento" da oferta. Não poderia ser de outro, com o PIB crescendo a 2,5%. Resta perguntar se uma taxa de juro real de 4% a 5% estimula ou reduz a oferta global. Na demanda global, o efeito é mínimo porque as taxas de juros reais ainda são muito altas para o consumidor. Quanto às despesas públicas, o efeito será de transferir renda para os "rentistas", os ganhos da especulação financeira, dos "vendedores de vento" geralmente tóxico, em detrimento dos trabalhadores, pelo aumento do custo da dívida pública. Uma alta dos juros certamente reduzirá os investimentos produtivos. No final, o efeito será negativo, reduzindo o crescimento da economia com resultados desprezíveis sobre a taxa de inflação, como aconteceu em 2012: menos de 1% de crescimento do PIB e inflação próxima de 6%.
O autor, Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC