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A fórmula do macarrão instantâneo

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Todo ano, o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) é assunto na mídia pelos erros de gestão, tentativas de fraude e equívocos nos problemas a que se submetem os candidatos. O Enem avalia seis milhões de estudantes e já custou R$ 250 milhões ao governo. A bola da vez são as redações com erros de português e com desvio de foco, como no caso dos estudantes que se valeram de receita do macarrão instantâneo ou da letra do Hino do Palmeiras. Mesmo fugindo do tema, os autores receberam nota satisfatória porque a orientação passada aos profissionais encarregados de avaliar as dissertações era "não pegar pesado" na correção. Por isso, nos dois casos citados os candidatos passaram com notas satisfatórias, embora o tema solicitado fosse sobre imigração.

A orientação pedagógica foi correta. Durante 20 anos dei aulas para estudantes de jornalismo e sempre levei por mim os valores explícitos ou subjacentes que todos os textos contêm, por pior que sejam. Uma das correntes literárias de sucesso nos anos 1920 foi a do surrealismo, lançado por André Breton. O conceito dos adeptos era a escrita "num jato", passando-se para o papel aquilo que vem à cabeça, única forma de expressão pura, sem a contaminação de dezenas de correções e modificações para agradar ao público leitor. A técnica de paparicar o leitor cria artificialismos. A intenção do candidato do Enem foi a de fazer uma graça, "avacalhar o Enem", ao explicar fora do contexto a receita do macarrão instantâneo, mata-fome presente na vida de todo estudante pobre, e na de muitos imigrantes. Mesmo assim, vale pela criatividade. A imprensa do País fez inúmeras elucubrações a respeito. O palmeirense, coitado, com o time rebaixado, provavelmente quis também desmistificar o exame, cujos resultados ruins assemelham-se aos do seu time. Enquanto isso, no Rio Grande do Norte, por falta de professores os alunos assistem aulas em rodízio. Três dias na escola e três dias em casa para dar lugar a outra turma.

A Petrobras comprou por 1,8 bilhões de dólares uma refinaria sucateada de Pasadena, EUA, de uma empresa belga chamada Astra Oil, que havia pagado por ela 42,5 milhões de dólares. Com esse prejuízo poderia ser contratado o dobro de professores, com salários melhores e garantidos durante dez anos, no Rio Grande do Norte. O examinador, por sentimento de culpa com essa situação calamitosa, sente-se constrangido em dar "zero" para quem escreve com erros grosseiros de ortografia e concordância, tais como "rasoável" por razoável, "enchergar" por enxergar, e "trousse" por trouxe. No Brasil, as autoridades sequer "enchergam" a fila de vinte quilômetros de carretas para embarcar soja, o nosso principal produto de exportação. Conjugar no plural o verbo haver no sentido de existir é erro comum até entre os que se julgam intelectuais.

A Reforma Ortográfica, que era para entrar em vigor em janeiro, ficou para 2015, porque os países lusofônicos não se entendem, apesar de falarem a mesma língua. Aqui, fico sem saber se é "pára Pedro" ou "Pedro para". O "rasoável" é pensar que essas anomalias significam oportunidades para o aperfeiçoamento do sistema educacional. O Brasil se encontra em 85.ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Muito atrás de países como o Chile (40.º ), Argentina (45.º), Uruguai (51.º ) , Cuba e Panamá (59.º) e México (61.º). O IDH mede os fatores sociais do país. O crescimento em educação, no ano passado, foi igual à nota que querem dar ao aluno brincalhão: "zero". Temos a maior taxa de abandono da escola primária, também no contexto latino-americano (24,3%). Se formos abordar taxas de homicídios e de insatisfação com a saúde, o desastre é maior. A taxa de mortalidade infantil (17 por mil nascidos vivos) perde para o Paraguai.

O foco estreito da política social brasileira em programas de transferência de renda ignora que o desenvolvimento é um fenômeno multidimensional e que para produzir justiça social precisa focar no que é básico na sociedade. O IDH parou porque a cidadania brasileira ainda não tem claro o suficiente que é preciso exigir de seus governantes um compromisso com padrões mínimos e básicos de saúde e educação. Quem sabe a fórmula de preparação do Miojo sirva para despertar a Nação.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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