O desabafo do empresário Jorge Gerdau, em entrevista à Folha, no dia 15/3, dizendo que a burrice está no limite, foi uma reação espontânea de quem vê pessoas fazerem coisas injustificáveis perante um mínimo de inteligência e sensatez. Presidindo a Câmara de Políticas de Gestão, para prestar assessoramento à Presidência da Republica na formulação e implementação de mecanismos de controle e avaliação da qualidade do gasto público, foi a forma mais natural de mostrar-se inconformado com a criação irrefreável de ministérios. No governo de FHC eram 24, Lula aumentou para 37 e Dilma, para 39. Os objetivos do órgão que ele preside são: I - otimizar o desempenho geral do Poder Executivo na prestação de serviços públicos à sociedade; II - reduzir custos; III - racionalizar processos; e IV - tornar mais eficazes e efetivos os programas e as ações prioritárias. E criar novos ministérios, como vem sendo feito, é exatamente o oposto a essa proposta.
A definição da estrutura administrativa das organizações, com a criação, eliminação ou reformulação de órgãos, deve seguir as diretrizes de suas estratégias, daquilo que elas pretendem ser - sua visão de futuro - e de como farão para realizá-la - sua missão. Essa é a forma racional. Bem intencionada, a presidente Dilma teve a visão de um Brasil cada vez mais perto das maiores potências e sem miséria. Para chegar lá sua missão seria realizar um governo que aplicasse melhor o dinheiro retirado do povo e oferecesse a ele melhor serviço de saúde, educação, segurança, moradia e oportunidade de trabalho e dotasse o país de infraestrutura compatível com o seu crescimento. E foi essa missão que o Gerdau traduziu nos objetivos da Câmara de Políticas de Gestão, que ela oficializou através do Decreto nº 7.478, de 12 de maio de 2011. Só não avaliou o quanto a estupidez política pudesse forçar o governo no sentido contrário.
Para Gerdau o conceito de política, dentro da estrutura brasileira, atrapalha bastante a gestão. Bastaria trabalhar com meia dúzia de ministérios. Diz assim, porque a criação de ministérios e secretarias, em vez de melhorar os serviços, torna-os menos produtivos e aumenta a burocracia e os gastos. Da forma como vem sendo feito, não é a necessidade de atender melhor a população que tem justificado a sua criação. Se assim fosse seriam aumentados os cargos diretamente produtivos, de atendimento das necessidades do povo, e não os cargos destinados a abrigar apaniguados políticos. Dizem os sábios que o amor à riqueza é insaciável e o desejo de honrarias nunca se satisfaz. O desejo de se manter no poder e de usufruir as benesses do governo, com sinecuras e oportunidades de desvios de dinheiro público, é o que motiva as alianças políticas, sob o pretexto de garantir governabilidade. A presidente Dilma poderia estar bem intencionada ao aceitar e oficializar a colaboração voluntária do empresário, mas não pode escapar do envolvimento nessa trama. Hoje são trinta os partidos, muitos pendurados no governo e outros esperando a sua vez.
As consequências estão aí: o país não está crescendo e a inflação está sendo artificialmente contida. Embora a presidente continue bem avaliada nas pesquisas, a situação real do país não endossa esses resultados. Houve crescimento do consumo e do setor de serviços, devido à facilidade de crédito, o que manteve uma certa estabilidade no emprego, mas o setor industrial, que é o definidor do desenvolvimento, está estagnado. Os projetos do governo, segundo a unanimidade das análises, não atingem mais que um terço de sua implementação. O governo não está conseguindo completar os projetos do PAC, a infraestrutura continua sendo o gargalo estrangulador da economia, os hospitais públicos estão em estado lastimável, a prevenção das catástrofes provocadas pelas chuvas ficou nas promessas. Enquanto isso, o nosso dinheiro vai alimentando o inchaço da estrutura administrativa do governo e a irresponsabilidade dos políticos. Gerdau termina dizendo: "Quando a burrice, ou a loucura, ou a irresponsabilidade vai muito longe, de repente, sai um saneamento." É o que faz tempo continuamos esperando.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras