Como o jovem vê a Páscoa hoje? Para critérios de definição, vamos entender por jovens a geração Y (nascidos dos anos 80 até meados dos anos 90), que também é denominada de geração Internet. A constatação que fica para estes próprios jovens é de que, de momento de celebração da ressurreição de Jesus Cristo, mas também instante de reflexão, de autoanálise, de reavaliação e de renovação para os católicos, a Páscoa sofre indiscutivelmente uma deturpação de seu verdadeiro significado, transformando-se para a maioria das pessoas em um mais feriado prolongado no ano e em uma festa comercial para ganhar e presentear chocolate. O fenômeno envolve todas as gerações, não é exclusividade da geração Y, que usa suas próprias armas para recuperar ou propagar o verdadeiro sentido da data.
Joao Rosan |
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“O jovem está na Igreja, é um evangelizador e vai até a rede social passar para outros jovens”, diz Diego Rodrigues |
Como a expressão sociológica “geração Internet” já define, a geração Y é aficionada em tecnologia e já nasceu com os genes para dominar e usar em larga escala tudo o que se refere a informática, como em uma evolução natural. Com um arsenal tecnológico à mão e disposição para usá-lo, os jovens religiosos começam a mudar o conceito de evangelização, ampliando ou derrubando fronteiras e aproximando a Igreja de “não praticantes” ou de pessoas de outras religiões através, principalmente, da Internet e, sobretudo, das redes sociais. O resumo desta filosofia seria: muitos podem até não ir à igreja, mas praticamente todos estão na Internet. E aqui vale uma adaptação da velha máxima: se o fiel não vai ao templo, o templo vai ao fiel.
Integrantes do Setor Juventude da Diocese de Bauru têm na ponta da língua o verdadeiro significado da Páscoa. Os valores que deveriam ser celebrados e respeitados por todos os católicos nesta época do ano. “A Páscoa é um momento de reflexão. É muito mais do que ter um feriado na sexta-feira ou ser uma semana simples. É de pensar no próximo e em como estamos agindo com Deus, com Jesus. Será que estamos agindo de forma correta? É uma das semanas mais importantes do ano, a última semana da Quaresma e temos que refletir sobre tudo que fizemos desde o ano passado até agora”, aponta Diego Pires Rodrigues, de 18 anos.
A opinião é compartilhada por companheiros de Juventude Carismática, que salientam o caráter de meditação da data. “A Páscoa para o cristão jovem também vai ser momento de renovação. Hoje, a juventude reviver a Páscoa é uma oportunidade de repensar os pontos fracos que cada um tem dentro de si, de reavaliar sua postura enquanto pessoa e enquanto cristão. É um momento de reflexão muito grande, uma oportunidade que a gente tem por conta de todos os fatos que marcam a Semana Santa, o sacrifício, o desprendimento”, observa Daniela Coneglian, de 29 anos.
Camila Moraes, 24 anos, destaca ainda o momento de recolhimento, buscando uma proximidade maior com Deus na data simbólica, reiterando a busca pelo aprimoramento. “A Páscoa é uma época de renovação. A gente para e pensa em tudo que fez desde a Páscoa passada, neste um ano, e o que pode melhorar. É um tempo de oração e de mudar aquilo que a gente vê que tem necessidade. Tempo de maior intimidade com Deus, de deserto, silêncio. É o intuito de renovar para começar o ano, depois da Páscoa, mais fortalecido”, complementa.
No entanto, os três admitem que o verdadeiro sentido da Páscoa escapa à imensa maioria menos religiosa e que enxerga a data mais como uma oportunidade de lazer ou sobrepõe-se o apelo comercial. “Existe um distanciamento. A sexta-feira é feriado, mas é Sexta-Feira Santa. Porém, todos pensam mesmo em viajar, ir para a praia. Mas é justamente o contrário, temos que pensar diferente. E quando a gente fala que precisa refletir sobre a morte e a ressurreição de Jesus, todos pensam que é zoeira. Todos querem sair e nem querem saber o que é o significado da Igreja Católica nesta semana”, constata Rodrigues.
Coneglian identifica o mesmo distanciamento dos valores reais celebrados na Páscoa. “Infelizmente, a postura de parar para refletir é mais restrita. Tem este apelo comercial, este lado bastante deturpado por conta da cultura e das pessoas, que simplesmente não acreditam e não acham necessário parar para refletir. O volume de pessoas que param para pensar é pouco tendo em vista a quantidade de coisas que precisam ser melhoradas na sociedade”, lamenta. “Mas, atuante ou não, todo jovem cristão é convidado a fazer esta reflexão, mesmo se não estiver participando de um movimento ativamente”, argumenta.
Padre mais jovem de Bauru com 30 anos, Rodrigo Pereira Sena, da Paróquia Senhor Bom Jesus, na Vila Independência, recorda a própria experiência, na adolescência, sobre a visão que tinha da Páscoa. “Antes de seu ser ordenado, a Páscoa para mim era de um feriado mais infantil. No sentido da questão do coelhinho da Páscoa, que vinha trazer os ovos, que trazia chocolate. Era um feriado para as crianças. Até os meus 15 anos, a Páscoa tinha um significado infantil”, explica. “É lógico que depois eu comecei a participar da Igreja, entrei para o seminário com 17 anos. Eu fui ver que o coelho é símbolo da fertilidade, que o ovo é símbolo da vida, que tudo isso é um primeiro chamado para que as crianças um dia possam pensar que a vida eterna surgiu com a ressurreição de Cristo”, complementa.
Padre Rodrigo opina que, hoje, para uma boa parte dos jovens, a Páscoa perdeu o seu caráter infantil e também o significado real, religioso, da ressurreição de Cristo. “Hoje, encaro que alguns jovens, não vou falar todos, mas alguns jovens veem a Páscoa como um feriado prolongado. A minha visão, não de todos os jovens mas de uma boa parte, é que dá para você ir para a praia, ir para uma chácara, descansar. Não tem nem a conotação infantil e nem a conotação religiosa”, diagnostica. “É claro que os jovens religiosos têm a questão da ressurreição de Cristo, os jovens que são pais de família tem a conotação de dar um feriado infantil para as crianças. Mas para os jovens que não são religiosos e não são pais de família, acredito que a Páscoa significa mais um feriado prologado para se divertir”, considera.
Rede religiosa
Tanto para lembrar o verdadeiro significado da Páscoa quanto para atingir maior público, divulgando valores que a Igreja Católica prega, falar a “língua jovem” e estar antenado no que está rolando é simples para quem também está inserido na própria cena jovem. Assim, quebrar a barreira Igreja/juventude torna-se simples. E as redes sociais são ferramentas poderosas e óbvias para a geração Y. O Setor Juventude da Diocese de Bauru aposta alto na aproximação dos jovens com a Igreja via Internet.
O grupo tem um site e um Facebook, atualizados por oito pessoas para ganhar agilidade maior. A ideia é levar a Igreja até as pessoas, como em uma ação de marketing, para chamar a atenção sobre o que o grupo faz, atraindo nova audiência. “Nossa página no Facebook e o nosso site são ferramentas essenciais para o jovem de hoje. Todos são internautas e têm acesso diário e constante. É na Internet que vamos conseguir passar o que a Igreja é e o que a juventude passa dentro da Igreja”, salienta Rodrigues. “Queremos passar isso: que o jovem está na Igreja, é um evangelizador e vai até a rede social passar para outros jovens”, acrescenta.
Mais que simplesmente atrair atenções, de acordo com Rodrigues, o objetivo é transmitir a mensagem de valorização do próximo. “No grupo de amizades sempre vai ter alguém que está dentro da Igreja. Se este que está na Igreja transportar o que vive na Igreja para a Internet, os amigos que estão na Internet vão ver que a Igreja não é apenas uma missa, é se interessar pelo próximo. Este grupo de jovens vai estar em todos os lugares. A rede social serve para transmitir o que o jovem passa dentro da Igreja de uma forma que todos possam participar”, acredita. O site do Setor Juventude é www.setorjuventudebauru.com e o Facebook: www.facebook.com/groups/juventudebauru/?fref=ts.
Fenômeno recente
Como a condução de um transatlântico, mudanças de rotas na direção da Igreja Católica, com seu gigantismo de 1,2 bilhão de seguidores, por menores que sejam, exigem manobras suaves e cautelosas. Nada de alterações bruscas. Assim vem sendo com a aceitação e valorização por parte do Vaticano de novas mídias e, inseridas neste contexto, das redes sociais. O fato do Papa Francisco ter um Twitter já é um sinal claro dos novos rumos que o catolicismo deve tomar nos próximos anos, diminuindo seu conservadorismo.
“No começo, eu sinto que eles tiveram um pouco de receio. Como tudo na vida, principalmente a Igreja, por ter esta postura mais conservadora. Mas, a partir do momento em que o Papa tem um Twitter, a gente está resguardado de que é um caminho que a Igreja entende que pode ser usado para coisas boas no sentido da evangelização de jovens e outras pessoas. A própria Igreja está estimulando isso, acredito eu, por ter vislumbrado que nas redes sociais a comunicação de fato acontece. A questão da evangelização pelos meios de comunicação tem acontecido cada vez mais”, diagnostica Daniela Coneglian.
@partilha
O Setor Juventude trabalha basicamente o conceito de partilha entre os diversos grupos de jovens que o compõem e dividem vivências entre seus integrantes, que têm diferentes realidades e se ajudam a viver o que a Igreja pede em seus preceitos. “Todos conversando, chegam a um lugar comum. Para quem está de fora é difícil entender o propósito da Igreja. Mas, mesmo estando dentro, também é difícil viver o que a Igreja nos pede. Todo mundo erra. Então, quando todos se juntam e compartilham, é mais fácil você crescer”, pontua Camila Moraes. “Mas a gente encontra várias vezes nos grupos de jovens, juventude, pessoas que não entendem o verdadeiro sentido da Páscoa. Que entendem que a Sexta-Feira da Paixão é um feriado e não um dia de deserto e pensar no que pode ser feito em termos de intimidade com Deus”, reconhece.
Dentro do conceito de partilhar para facilitar uma postura mais próxima do que pede a Igreja, o Setor Juventude procura levar a quem não frequenta os templos a mensagem que identifica como a ideal. O trabalho na Semana Santa inclui ações como peças de teatro e a Internet permite ampliar a audiência destes eventos, estendendo, por consequência, a partilha. “É uma missão evangelizadora. Os jovens vivem aquilo dentro dos grupos e tentam levar para fora de uma forma que seja menos burocrática, menos catequética para que as pessoas conheçam o verdadeiro sentido da Páscoa”, acentua Moraes.
O resultado é um alcance e agilidade multiplicados. “A Internet chega muito mais rápido para quem não participa destas atividades. Você vê um, outro comentando e acaba, até por intuição, querendo ver o que todo mundo está comentando. A Internet contribui muito para que as pessoas que não participam conheçam o que os jovens estão fazendo dentro da Igreja”, conclui Moraes.
Confissões já são feitas por via online
Padre mais jovem de Bauru, Rodrigo Sena, tem nas redes sociais canal de comunicação para aproximar Igreja dos fiéis
Rodrigo Pereira Sena tem 30 anos e é o padre mais novo de Bauru - foi ordenado há quatro anos. À frente da paróquia Senhor Bom Jesus, na Vila Independência, o sacerdote ampliou indefinidamente o alcance de sua mensagem, tornando a Igreja sem fronteiras e sem a limitação das paredes do templo. Digno representante da geração Y, padre Rodrigo abusa da Internet como ferramenta para estreitar relações com as pessoas e tem nas redes sociais instrumento fundamental de seu trabalho pastoral. Jovem, sabe como se aproximar, falar o “idioma” de outros jovens e quebrar uma barreira, humanizando a figura do padre, muitas vezes sentida como distante para quem não frequenta a igreja.
“Acredito que a juventude, hoje, está na Internet. Por isso que eu tenho Facebook, blog, Twitter. A paróquia tem um site e estamos reformulando. As minhas homilias eu posto no Facebook. Converso com os jovens que me adicionam pelo Facebook e tento dar esta evangelização através do Facebook. Às vezes, dentro da minha paróquia, existem jovens com os quais eu não converso aqui e que começo a conversar no Facebook. Eles me adicionam, a gente vai conversando e vai estabelecendo um relacionamento”, relata padre Rodrigo.
O sacerdote revela que até mesmo confissões já surgiram por intermédio de conversas online. “Já marquei confissão. Por exemplo, caso de pessoas de Piratininga que estão conversando comigo e falam que ainda bem que estão conversando comigo e precisam de uma confissão. Já marquei confissão, orientação, através do bate-papo do Facebook”, comenta o “e-padre”, ressaltando, porém, que as confissões não podem ser feitas pela Internet.
A rede social serve, também neste caso, para quebrar o distanciamento em relação à Igreja. “Confissão online não existe. Peço que a pessoa venha até mim. A Internet serve para fazer uma ligação, é uma ponte para a pessoa ver que padre não é uma coisa do outro mundo, que dá para conversar numa boa”, expõe. Padre Rodrigo explica que o fato de estar nas redes sociais o torna alguém comum, o insere na realidade das outras pessoas. “A Igreja, hoje, busca muito isso, quebrar esta questão de que padre é intocável, que não pode conversar, de que padre não se encontra em Internet. O próprio Papa tem Twitter e todos os dias deixa uma mensagem. Eu também deixo, meu Twitter é ligado no Facebook e automaticamente o que posto está nos dois”, comenta.
Páscoa
Além de utilizar a Internet para o contato direto, Padre Rodrigo tem nas redes sociais um instrumento para divulgação de cultos e eventos da paróquia e suas mensagens. “No meu Facebook eu coloquei a homilia do Domingo de Ramos e uma imagem de Jesus. Todas as reflexões que eu preparo eu posto no Facebook e ponho uma imagem. Mesmo a pessoa que vai a outras paróquias tem o contato com a mensagem que eu deixei aqui em minha paróquia também”, aponta.
Passagem
Páscoa significa passagem e vem do hebraico Pessach. Para a Igreja Católica, a Páscoa tem o significado da passagem do estado de morte de Jesus Cristo para o estado de vida novamente, após morrer na cruz. “Ao terceiro dia Jesus Cristo ressuscitou, é a passagem de Jesus quando ele vence a morte. A Páscoa, para nós, tem uma verdade e uma consequência muito grande para a humanidade. Quando Jesus Cristo destruiu a morte, venceu a morte, mostrou que ele é Deus. Porque um ser humano não consegue ressuscitar. Somente alguém que é mais forte do que um ser humano consegue ressuscitar. Se a gente fala que Jesus Cristo ressuscitou, significa que estamos falando que Jesus Cristo é Deus. Outro ponto que temos é que, se Jesus Cristo venceu a morte, ele venceu para todos nós. São Paulo tem uma frase que diz: ‘se com Cristo morremos, com Cristo ressuscitamos’. Todos ganharão a vida eterna”, explica padre Rodrigo Pereira Sena.
O conceito de Páscoa (passagem) vem do Antigo Testamento, com a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito. Em dois momentos a palavra passagem tem um significado especial. Primeiro, com a passagem do anjo do Senhor, na última das dez pragas lançadas sobre o Egito, que vitimaria todos os primogênitos egípcios. Os hebreus deveriam imolar um cordeiro e passar o sangue sobre suas portas para não serem afetados. A morte dos primogênitos fez com que o faraó egípcio libertasse o povo hebreu que, em um segundo momento, tem a passagem para a Terra de Canaã, atual Israel, liderados por Moisés e com a abertura das águas do Mar Vermelho no momento em que eram perseguidos pelos egípcios, arrependidos de terem concordado com a libertação.
Internet é usada para mobilizar fiéis para Jornada Mundial da Juventude
O ano de 2013 marca a realização da Jornada Mundial da Juventude no Brasil (JMJ). O evento ocorre no Rio de Janeiro de 23 a 28 de julho e contará com a presença do Papa Francisco, que fará sua primeira viagem internacional como pontífice. O Setor Juventude da Diocese de Bauru se mobiliza para comparecer e a Internet tem sido fundamental na organização logística e comunicação para a viagem.
“A rede social está sendo de muito agrado para todo mundo. Porque quem não é do Rio de Janeiro, não está lá, consegue ver como está sendo a estruturação, quem está fazendo parte. No próprio site tem material disponível. E o Setor Juventude (da Diocese de Bauru), com nosso site e Facebook, também está divulgando o que vai ser a Jornada Mundial da Juventude para os jovens”, declara Diego Pires Rodrigues.
Criada pelo Papa João Paulo II em 1985, a JMJ atrai milhões de católicos, a maioria jovens, de todo o mundo, que passam a semana celebrando e aprendendo em catequeses, adorações, missas, momentos de oração, palestras, partilhas e shows sobre a fé e valores católicos. O evento permite intercâmbio entre diferentes culturas unidas sob a Igreja Católica.
Evangélicos celebram Ceia do Senhor
Os evangélicos não comemoram a Páscoa, pois interpretam que é uma data referente ao judaísmo e ligada somente à libertação do povo hebreu da escravidão no Egito, como retrata o Antigo Testamento. A celebração evangélica refere-se, sim, à ressurreição de Jesus Cristo, mas o ponto fundamental é a Ceia do Senhor, que representa o corpo e sangue de Jesus.
“A Páscoa é considerada a saída do povo judeu do Egito. Para nós evangélicos, Jesus ensinou na introdução da Igreja Cristã a instituição da ceia. Nós celebramos que o pão simboliza o corpo e suco da videira o sangue de Jesus. A Páscoa se refere à velha aliança e a ceia se revela como a nova aliança. Nós focamos apenas a ressurreição de Jesus”, explica o pastor Eli Parreira, da Igreja Cristã Renovada.
