O médico interrompeu quase bruscamente a mulher entrevistada que procurava justificar seu câncer de mama com base em tragédias familiares, e disse: ... eu não gosto desta abordagem para explicar o câncer. Deu uma vontade de falar: calma doutor!
Nos ratos, experimentalmente, a fratura da perna eleva até 20 vezes o nível de corticosteroides além do normal. Sobre cada rim tem um chapeuzinho: a glândula suprarrenal. Na sua parte mais externa ou cortical, as células produzem substâncias a partir do colesterol que atuam em lugares distantes e por isto chamadas de hormônios, no caso, conhecidos como corticoides ou corticosteroides.
Qualquer estresse agudo, rápido e intenso, aumenta muito a produção de corticosteroides. Os hormônios suprarrenais controlam e aumentam a gliconeogenese ou formação de glicose a partir de outras substâncias como proteínas e lipídeos. A glicose é o combustível das células: sem ela não tem ATP e sem ele, não tem atividade celular. Tudo fica lento e funcionando mal.
No estresse agudo o organismo prioriza a sobrevivência: glicose quase que apenas nos músculos e cérebro, para lutar ou fugir! O corpo deve pensar e agir rapidamente e outras funções ficam negligenciadas; como o período é curto, não tem problemas. Logo tudo volta ao normal.
Agentes “killers”
Células sanguíneas são produzidas na medula óssea, um tecido mole que nos pratos representa o tutano: cheio de células-tronco, gorduras e sangue. Ao chupar ossos, suga-se medula óssea. Células sanguíneas também são chamadas de inflamatórias, imunológicas ou de defesa.
Entre as células do sangue está um tipo especial que circulam também nos tecidos ou “nossas carnes”: as células “Natural Killer” ou NK. Parecem personagens de filmes policiais e são um tipo especial de linfócitos, um subgrupo muito importante. As células NK são “autorizadas a matar outras células sem perguntar porquê”, sem pedir autorização para superiores.
Os 10 trilhões de células do corpo proliferam todos os dias, algumas saem defeituosas, afinal ninguém é perfeito. As defeituosas são identificadas e mortas “impiedosamente” pelas células NK para não se transformarem em células cancerosas e malignas.
Se as NK falharem, temos outra chance para eliminar estas células defeituosas e atípicas. Outras células sanguíneas, os linfócitos e macrófagos, muito competentes e sinérgicas reconhecem a estranheza das células defeituosas e as eliminam: esta resposta arquitetada é dita imunológica.
Células atípicas e bizarras podem escapar das NK, dos linfócitos e macrófagos, mas ainda tem que se livrarem de muitas proteínas e enzimas inimigas. Tem momentos que ficam acuadas, sem saída, atacadas a ponto de ouvirem substâncias “falarem” bioquimicamente: vamos perfurá-las a não ser que se suicidem, explodam, ou seja, entrem em apoptose! Blummm, assim acontece na grande maioria dos nossos dias. Um filme de ação e aventura.
Viver bem
O agitado, reclamão e triste fica como se estivesse em estresse agudo todos os dias, semanas ou até anos. No estressado, o resto do corpo, inclusive as células NK e imunológicas e as substâncias indutoras da apoptose ficam em segundo plano. O estresse agudo gera intensa atividade e explosão metabólica para sobrevivermos a ataques externos intensos e rápidos! Os corticosteroides elevados diminuem a produção e a circulação das células NK e imunológicas.
Todos os dias temos células atípicas e defeituosas e, se houver estresse crônico, tem-se uma chance muito maior de que sobrevivam aos ataques das células NK, imunológicas e à indução da apoptose, já que esses mecanismos estão diminuídos em sua eficiência pela ação constante dos hormônios do estresse: os corticosteroides.
Para estas células não rejeitarem os órgãos transplantados e “estranhos”, um dos medicamentos usados são os corticosteroides pois são anti-inflamatórios e imunodepressores. O estresse desregula o sistema imunológico por aumentar a produção de corticosteroides. Isto ajuda explicar a origem de muitas doenças autoimunes e infecciosas que afetam menos e mais tarde os mansos e os sábios!
Tragédias crônicas, mágoas persistentes e chatúrias estão associados ao início do câncer. Sejamos inteligentes! Os felizes e otimistas, ainda por cima, escolhem melhor as companhias, alimentos e ambientes; assim evitam vírus oncogênicos, químicos cancerígenos e ingerem produtos que nutrem apenas os mecanismos de defesa.
- Calma, doutor!