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Com o ?perdão? da palavra

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

Na última semana, a prisão de Welington Santos, 24 anos, assustou Bauru. Com frieza, ele confessou à Polícia Civil ter estuprado e degolado uma grávida, estuprado uma jovem de 20 anos e tentado matar um taxista. Tudo em menos de 25 dias. Quando questionado se queria pedir perdão, ele apenas disse que "já tinha feito mesmo, ué..." A partir daí, discutiu-se a validade, sinceridade e capacidade do que seria "perdoar". No dia 29, meu colega em dois trabalhos, professor Alberto Consolaro, fez, aqui mesmo na coluna "Opinião" do JC, uma excelente reflexão sobre o perdão e de como ele passou a ser empregado com modismo na mídia. No texto, o professor afirma que o repórter ? no caso, eu - que conversou com o assassino confesso não acreditaria se ele pedisse perdão. Infelizmente, não acreditaria mesmo. Mas, então para que fiz tal pergunta? Perdoe-me, professor, porém, acredito que o "perdão" precisa estar na moda na mídia. Mesmo que seja só um esboço do que o familiar da vítima quer ouvir ou só uma tentativa do agressor limpar a barra. Porém, vejo como mais do necessário destacar o perdão.

Mesmo que o pedido de desculpa seja fraudulento, acredito que ele deva ser pedido. Sei que a validade não é a mesma. Não sei sequer se há alguma validade para aquele que pede e aquele que recebe aquelas palavras vazias de verdade. Contudo, no caso, penso em um validade bem adiante somente dos envolvidos.

Explico. Há pouco, percorria algumas notícias em um daqueles portais famosos. Nela, um duplo homicídio ocorrido em março na Capital (uma das vítimas tinha 14 anos) e imagens mostram que policiais foram omissos para evitar o crime. Mais importante do que a notícia, são os comentários dos leitores.

"Parabéns aos policiais por terem feito mais uma limpeza"; "Parabéns aos policiais por terem preservado sua integridade e deixado dois suspeitos morrerem"; "Bandido bom é bandido morto"; "Mais uma vez, marginais ganhando holofote". Apenas alguns exemplos de como o perdão precisa entrar mais na moda. Apenas alguns exemplos de como, na verdade, é a intolerância que dita as tendências deste outono, inverno, verão e primavera. Em manchete também na semana passada no JC, polícia e especialistas apontavam a preocupação com o aumento de descontrole emocional. Números comprovam isso: no primeiro bimestre deste ano, foram cerca de 20% de lesões corporais a mais do que o mesmo período de 2012.

A necessidade de se fazer justiça com as próprias mãos, o descontrole emocional, a cultura do "bateu, levou" mostram que, na mídia, o perdão pode tentar se fazer moda. Contudo, na sociedade, a balança pende ainda muito por uma Lei de Talião (olho por olho, dente por dente), que alimenta uma bola de neve de mais e mais intolerância. O perdão do marido da grávida estuprada e degolada (vale lembrar que ali foram tiradas duas vidas) e o perdão do ciclista atropelado na Capital, cujo braço foi desovado em um rio são exceções a essa regra. Sinceros? Não sabemos. Porém, com o perdão da ingenuidade, creio que são exemplos desse que nos criam alguma esperança.

O autor, Vitor Oshiro, é repórter do JC e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia

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