Entre as denúncias reais e uma boa quantidade de trotes, o Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) de Bauru recebeu uma ligação diferente e assustadora. Uma criança de apenas 11 anos procurou ajuda da polícia após cerca de um ano e meio de abusos sexuais. O autor do estupro, o próprio padrasto, confessou o crime. Só em março, foram 11 denúncias de crianças abusadas em Bauru.
“Ele estragou a vida dela”, afirma a mãe da menina, uma dona de casa, de 39 anos (os nomes foram preservados pela reportagem). Inconformada, a mulher que vivia há dois anos com o porteiro Edson Aparecido Virginio de Souza, 29, em um bairro na zona rural de Bauru, conta que a filha nunca deu qualquer sinal de sofrer abusos.
Mas ela sofria. No começo da noite de anteontem, a menina foi para a escola e pediu o celular de uma amiga. Conforme registrado no boletim de ocorrência (BO), ela ligou para o 190 e relatou o crime.
A polícia foi até o local e a vítima confirmou os abusos. Ainda de acordo com o registro, ela teria sido abusada pela última vez naquele mesmo dia, por volta das 9h. Contudo, o crime se repetia há pelo menos 1 ano e meio.
“Eu fiquei desesperada e liguei para ele. No telefone, ele confessou que realmente fazia isso. Só chorava e dizia estar arrependido”, conta a mãe da vítima. O arrependimento demonstrado, porém, não foi o bastante para convencê-la. “Quando a situação se complica, eles falam que estão arrependidos”.
Edson Aparecido Virginio de Souza foi conduzido ao Plantão da Polícia Civil, onde confessou o estupro às autoridades e foi autuado em flagrante. O porteiro foi conduzido para a Cadeia Pública de Barra Bonita, onde ficam os acusados de crimes sexuais.
Segundo a mãe, a criança passou por exames na Maternidade Santa Isabel que comprovaram a conjunção carnal. “Eu ficava fora durante o dia e ele ficava com as crianças o tempo todo. Não tenho nem palavras para descrever o que estou sentindo. Não consigo nem falar o que minha filha disse que ele fazia com ela”, desabafou.
A mulher convive ainda com outra preocupação. Além da vítima, tem outros dois filhos pequenos que moram na casa, com idades de 5 e 7 anos. Todos são frutos do primeiro casamento da dona de casa. “Eles falaram que não sofreram nada.”
Outro caso
Também nesta segunda-feira, uma manicure, de 23 anos, procurou a polícia para relatar que seu filho, de apenas 4 anos, foi abusado sexualmente na creche municipal onde estuda. De acordo com o BO, o menino se recusa a ir para a escola desde a semana passada. Ao chegar ao portão, ele começa a chorar e diz estar com medo do zelador.
Após conversar bastante com o menino, ele revelou que, na semana passada, o funcionário o teria levado para o banheiro e mandado que ele beijasse o órgão genital do homem.
A manicure relata ainda, no BO, que procurou a direção da escola, mas que nenhuma providência foi tomada. O JC procurou a mãe, mas ela disse que, no momento, não iria conversar com a imprensa. O nome da creche foi preservado pela reportagem, uma vez que o caso está ainda sob investigação.
Em nota, a Secretaria Municipal de Educação informa que já está averiguando todos os fatos referentes à ocorrência para tomar as devidas providências. A pasta promete ainda que a criança envolvida deverá ser encaminhada a atendimento psicológico, independentemente do resultado do trabalho de averiguação dos fatos.
Um inquérito foi aberto na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) para apurar a denúncia. “Como já há um suspeito informado pela própria criança, iremos começar ouvindo esse homem”, explica a titular da unidade especializada, Priscila Alferes. Até agora, ninguém foi preso.
Março tem registro de 11 casos de crianças abusadas em Bauru
Os dados evidenciam uma realidade preocupante em Bauru. Somente em março, foram 11 denúncias de estupro a vulnerável que chegaram à Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) da cidade. E esses dois casos comunicados na segunda-feira não entram na conta, uma vez que foram registrados já em abril.
O mês realmente foi violento na questão. Para se ter uma ideia, janeiro e fevereiro tiveram, cada um, sete estupros registrados. E essa estatística da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) é referente a todos os casos de estupro, incluindo os adultos.
Apesar dos números, a delegada da DDM, Priscila Alferes, afirma que não é possível fazer uma análise de que seja uma tendência. “Analisando anualmente, podemos fazer algumas análises mais pontuais, Contudo, é um período muito breve ainda”, complementa.
A recomendação da polícia é para que a população denuncie. O sigilo é totalmente mantido e a comunicação, seja pela vítima, familiares ou conhecidos, pode ser feita pelo Disque Denúncia no telefone 100; na DDM, por meio do (14) 3226-3088; ou na Polícia Militar, pelo 190.