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A elite que se acha popular

Ney Vilela
| Tempo de leitura: 3 min

Há intelectuais, da pequena burguesia, que se rebelam contra a "indústria cultural". Assumem essa atitude de juvenil rebeldia porque pensam que a indústria cultural mata a cultura popular. Mas, no fundo, esses jovens reprovam a união da ideia de cultura (que levaria a um privado e sutil contato de almas) com a de indústria (conceito associado a linhas de montagem, produção em série, circulação globalizada e comércio concreto de objetos transformados em mercadorias).

Voltemos ao século XVI, quando surgem os impressos populares: a produção em série das primeiras brochuras e o acréscimo do número de leitores (com a consequente ampliação dos grupos sociais que têm acesso à leitura) impunham as condições que caracterizariam o conteúdo dessas publicações, a ponto de fazer delas um gênero em si, com seu próprio senso do que é trágico, heroico, moral, sagrado ou ridículo, adaptando-se ao gosto e ao jeito de ser do "consumidor médio" ? na verdade, consumidor medíocre. Difundindo, entre seus consumidores, as bases de uma moralidade oficial, esses livros realizavam a ação de pacificação e controle do povo. Certamente isso favorecia a exploração de humores bizarros e fornecia material de fuga da realidade. Mas também propiciou a existência de uma categoria popular de "escritores" e contribuiu para a alfabetização de seu público.

Afinal, alguém imprime os primeiros "jornais de tostão". E com o nascimento do jornal contemporâneo, a relação entre condicionamentos externos e o fato cultural torna-se ainda mais estreita: o que é o jornal além de uma mercadoria formada por um número fixo de páginas e obrigada a sair uma vez por dia? Nos jornais, as coisas ditas não serão mais unicamente determinadas pelas coisas a dizer (segundo uma necessidade absolutamente interior), mas pelo fato de que, uma vez por dia, se deverá dizer o tanto necessário para preencher tantas páginas.

Estamos, nesse momento, em plena indústria cultural. Ela surge como um sistema de condicionamentos, ao qual todo produtor de cultura deverá prestar contas, se quiser comunicar-se com seus semelhantes. Isto é, se quiser comunicar-se com os homens. Toda a humanidade está preparada para receber produção cultural e o produtor de cultura deixou de ser o funcionário de um cliente rico para ser o "funcionário da humanidade". Colocar-se em relação ativa e consciente com os condicionamentos da indústria cultural tornou-se, para o produtor de cultura, o único caminho para cumprir sua função.

Não por acaso, existe sincronismo entre a civilização do jornal e a civilização democrática (que caminha junto com a conscientização das classes subalternas e o nascimento do igualitarismo político e civil). E também não é por acaso que a juvenil intelectualidade pequeno-burguesa, que lidera a polêmica contra a indústria cultural, esteja em oposição às emissões de TV e até contra a liberdade de imprensa. Na verdade, essa militância pequeno-burguesa luta contra as ideologias do igualitarismo e da soberania popular, embora viva gritando que representa o povo e a sociedade civil.

No mundo real, a juvenil intelectualidade pequeno-burguesa, ao usar indiscriminadamente o conceito de "indústria cultural", está, no fundo, mostrando sua incapacidade de aceitar os eventos históricos, e ? com eles ? a perspectiva de uma humanidade que saiba operar sobre seus destinos. Em suma, essa intelectualidade pequeno-burguesa é reacionária.

O autor, Ney Vilela, é historiador, colaborador de Opinião

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