Obteve fraca repercussão na mídia nativa a divulgação dos níveis de desemprego, que em fevereiro atingiram 12% da população ativa dos países da zona do Euro, com taxas recordes acima de 26% na Espanha e na Grécia e, ainda na faixa de dois dígitos, na Irlanda, França, Itália, Portugal e Chipre. Os números dessa tragédia são espantosos: as estatísticas da Organização Internacional do Trabalho (OIT), com sede em Genebra, mostram um contingente de 30 milhões de pessoas desempregadas no continente europeu desde o início da crise financeira que atingiu o mundo a partir do estouro no sistema bancário americano em 2008/2009. E acrescentam outros 20 milhões de empregos que sumiram do mapa nos países do norte africano, onde são fortes os laços com a economia europeia.
Como honrosa exceção a essa aparente indiferença de nosso noticiário econômico, a página A18 da edição impressa de 3 de abril último da Folha de São Paulo estampou um mapa da tragédia, com a estatísticas do desemprego e os percentuais da Dívida Pública em relação ao PIB de cada uma das nações na antes próspera União Europeia. E acrescentou informações sobre as manifestações de protesto popular nas principais capitais e sobre as quedas dos governos de plantão, em decorrência da crise.
Algumas pessoas podem se perguntar o que esses fatos têm a ver conosco, enquanto o foco das atenções nas últimas duas semanas se concentrou na "alta da inflação" e na urgência de subir os juros para contê-la. Por que seria tão necessário elevar os juros agora "para cortar o consumo" dos brasileiros, reduzir a produção e desestimular os investimentos e, com isso, destruir todo o esforço que manteve nossa economia praticamente em pleno emprego no auge da crise mundial?
A redução dramática da renda e dos níveis de consumo desses milhões de cidadãos que continuam empobrecendo com a recessão na Europa significa uma perda de renda para os brasileiros, pela queda do volume de nossas exportações. Quem pode desconhecer a nossa condição de fornecedores de produtos de alimentação num mercado consumidor da importância da União Europeia?
Há uma grande contradição nas propostas de analistas financeiros que tentam convencer os gestores da política econômica brasileira de que só a alta dos juros poderá "cortar o excesso de consumo" e trazer a inflação de volta à meta. É fato que para os níveis de preços vigentes, hoje, há um excesso de demanda com relação à oferta: por conta dos aumentos de salários, de aumentos acima da produtividade do trabalho e de um desemprego muito baixo, não há mão de obra disponível e existe uma pressão sobre os preços.
Mesmo com a economia crescendo pouco ? um PIB crescendo aí a 2% ou 2,5% - há um excesso de demanda. Logo, o que se pretende é que para controlar a inflação tem que reduzir essa demanda. Nas condições atuais, a queda de demanda será maior que a da oferta e terá como resultado uma redução da produção. Logo, produzirá uma diminuição no nível do emprego, um corte da oferta dos postos do trabalho e a uma queda do crescimento do PIB, com a ideia que no final se levará a uma queda da taxa da inflação. É evidente que há como escolher um caminho mais eficiente para controlar a inflação, atacando o problema via política fiscal, reduzindo a demanda do governo e cortando o déficit nominal, em lugar de se meter a corrigir os juros.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC