Aceituno Jr. |
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Basta passar por estabelecimentos noturnos ou grandes eventos para encontrar os guardadores |
A reclamação é de que as ruas não são deles. Mas é delas que eles tiram o ganha-pão. Esses são os guardadores de carro. Poucos sabem, porém, “dar uma olhadinha” em um veículo é uma profissão regulamentada desde 1975 por lei federal. Na informalidade, sem diretriz municipal e sem fiscalização, contudo, os guardadores estão no centro de uma polêmica quase infindável: eles, de um lado; do outro, os motoristas.
Conforme o JC divulgou ontem, Bauru teve mais um capítulo nessa polêmica. Um autônomo, de 62 anos, teve um Fiat Uno furtado no Bela Vista após ficar pouco mais de uma hora longe do carro.
O que chamou a atenção foi que um guardador de carro havia oferecido o serviço. “Ele pediu R$ 5,00. Eu disse que não sabia se ia ficar por ali, mas até falei que, se ele estivesse depois, eu dava”, lamenta a vítima.
A Polícia Civil investiga o caso e vale deixar claro que não há qualquer prova de que o guardador tenha alguma participação no ocorrido. “A rua parece que é deles”, critica o autônomo.
O fato traz à tona um antigo “duelo” em Bauru. Basta encostar seu veículo nas proximidades de áreas comerciais, casas noturnas, ou grandes eventos, que, logo, vem alguém oferecendo vigilância em seu veículo. Os motoristas reclamam por se sentirem coagidos e obrigados a darem o dinheiro.
“Nós não obrigamos ninguém. Temos uma ética. O guardador de carro correto não fica falando de um valor já definido e, na maioria das vezes, não pede o dinheiro antes. Só perguntamos se podemos olhar o carro da pessoa”, conta um guardador, que pediu para não ter a identidade revelada.
O que quase ninguém sabe é que guardar carro é uma profissão. E bem antiga. A lei federal 6.242, de 23 de setembro de 1945, “dispõe sobre o exercício da profissão de guardador e lavador autônomo de veículos automotores”.
A legislação prevê que, para conseguir o registro, o profissional precisa atender uma série de requisitos. Entre eles, está, inclusive, não ter antecedentes criminais.
Mas a regulamentação é algo raro em Bauru – e no Brasil. De acordo com o que a reportagem apurou, há menos de uma dezena de profissionais na cidade com registro na carteira de trabalho.
Entretanto, a pendência também passa pela inexistência de uma lei municipal que dê diretrizes a esses profissionais. Mesmo aos regulamentados, Bauru precisaria dessa lei. Sem ela, não há nem o que fiscalizar. Pronto: essa é receita do problema.
Na polícia
Tendo em vista essas deficiências, antigamente, a Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes) e as polícias Civil e Militar mantinham um cadastro de quem oferecia esse serviço. Hoje, nem isso existe mais.
Os policiais afirmam estar de “mãos atadas” na questão. “Não podemos fazer nada até que exista um crime”, explica o delegado seccional de Bauru, Marcos Mourão. “Em alguns casos, o guardador faz uma extorsão. Neste ponto, podemos agir. O mesmo se aplica a uma ameaça e até a um dano no carro”, complementa.
A falta de dispositivos para resolver o problema é tão grande que o delegado aconselha: “o diálogo é sempre o mais útil mesmo. O motorista deve conversar com o cobrador e pode até combinar um valor. Mas ele deve avisar que, na volta, dará o dinheiro”.
Sebes aponta que saída são empregos alternativos
Darlene Tendolo, a titular da Sebes, enxerga que a solução para a complexa questão é um pouco diferente. Para ela, é preciso trazer os guardadores de carros para outras profissões. “Por isso, oferecemos uma série de programas, como o de inclusão produtiva ou capacitação, por exemplo”.
Ela afirma que Bauru conta com ampla oferta de empregos atualmente. “Não queremos incentivar ainda mais essa prática. Em relação à falta de uma lei municipal, sentimos que não houve procura de guardadores. Abrimos cadastro na Sebes e só dois nos procuraram. Então, entendemos que não houve necessidade da lei”, complementa.
Já sobre cadastrar esses guardadores, ela argumenta que a Sebes identifica as pessoas que trabalham na rua. “Porém, identificamos para tentar cadastrar em programas sociais. Nosso objetivo não é ter um banco específico de guardadores. Pedimos também que as pessoas venham até a Sebes para participar dos programas sociais”, finaliza Tendolo.
A Sebes fica na rua Alfredo Maia, quadra 1, Vila Falcão.
‘Guardar carros me deu tudo que tenho hoje’
Como em qualquer profissão, é indiscutível que existem aqueles que seguem a ética e aqueles que criam uma ética própria. A própria Polícia Militar (PM) aponta que a maioria dos guardadores são pessoas honestas. “Não tenho vergonha de dizer que minha profissão é ser guardadora de carros”, afirma Silvia Moraes, 48 anos.
Ela conta que olha carros há 26 anos e é uma das poucas com carteira assinada em Bauru. Hoje, tem até uma empresa de valet. “Em 97, tirei meu registro profissional. Guardar carros me deu tudo que tenho hoje”.
Silvia, mais conhecida como “Loira”, afirma que segue uma ética. “O guardador correto não pede um dinheiro já fixo. Na maior parte dos casos, pegamos (o dinheiro) depois mesmo. Se ele faz diferente disso e coage, o motorista deve ligar no 190”.
A profissão já se espalhou para a família toda. Apesar disso, ela relata que já passou muita humilhação. “Mas a gente aprende a lidar com isso. Tem uma pessoa que é sem educação. Sabe o que faz passar a raiva? O próximo motorista ser educado com a gente”.
Questionada sobre o que faz quando alguém recusa sua oferta de vigiar o veículo, ela afirma não fazer “nada”. Literalmente. “Eu respeito. Nunca tive isso de ameaçar ou algo do tipo. Mas não vou arrumar confusão se algo acontecer com aquele veículo. Ele não quis o serviço. Eu tenho meus carros para olhar e me preocupar”, explica.
Mesmo ostentando orgulho do que faz, ela sabe que existem os maus profissionais. Para resolver o problema, “só fiscalização resolveria”. “Um cadastro iria ser muito útil. Assim como é ter a carteira assinada. Mas o problema é que precisaria haver fiscalização. E acho que isso é muito difícil”, finaliza Silvia Moraes.
Conseg pede cadastro
Há nove anos, o Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) Centro Sul de Bauru já discutia a questão dos guardadores de carro na cidade. “Desde então, o problema continua. Ou melhor, só se agravou”, aponta Primo Mangialardo, diretor do órgão.
Segundo ele, a prefeitura precisa realizar um cadastro para poder fiscalizar. “Em 2004, fizemos um estudo sobre isso. Visitamos algumas cidades e vimos como funciona”.
Mangialardo destaca ainda que, além da fiscalização, um cadastro poderia funcionar para identificar, por meio de características físicas e fotos, aqueles que cometessem alguma irregularidade.
Preconceito e vergonha
“Em oito anos que estou por aqui, nunca vi alguém pedir para ter o registro como guardador de carros”. Quem faz a afirmação é o gerente regional do Trabalho em Bauru, José Eduardo Rubo.
“As pessoas não querem ter o registro de guardador de carros. Acham que vai atrapalhar seu currículo. Elas precisam entender que é uma profissão tão digna quanto qualquer outra”, aponta.
José Eduardo Rubo afirma que o registro é fácil e rápido. “É tudo feito em Bauru”. O MTE fica no cruzamento das ruas Araújo Leite e Neder Issa, Jardim Dona Sarah (próximo ao Bosque da Comunidade).
De novo, o crack
Como em quase todos os prismas da sociedade, o crack também lança seus tentáculos na questão dos guardadores de carro. É comum ver usuários da droga pedindo para vigiar os veículos na tentativa de alimentar o vício.
“A população deve ficar atenta a isso. Muitos deixam o veículo, dão o dinheiro antes a esse usuário e vão curtir seu passeio. É uma falsa sensação de tranquilidade. Muitas vezes, essa pessoa pegou o dinheiro e foi embora”, explica o oficial de relações públicas do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), capitão Alan Terra.
