Ultimamente temos visto, na mídia, várias manchetes aterrorizantes sobre o trânsito. Procurei pinçar algumas como referência. "Funcionário da CET bêbado (sic) se envolve em acidente de trânsito". O agente de trânsito que é responsável pela ordenação e fiscalização do tráfego em São Paulo estava sem documentos pessoais e visivelmente embriagado. "Bêbada ao volante, mulher causa acidente de trânsito" em Marília. As mulheres, que sempre foram mais comportadas e cientes de seus deveres e obrigações, já não apresentam os mesmos exemplos. "Motorista que atropelou ciclista em SP jogou braço da vítima em córrego". Além de fugir do local, não prestar atendimento, este motorista, que arrancara o braço do ciclista, jogou o membro no córrego.
"PM flagra deputado dirigindo embriagado em Brasília". Aquele que é escolhido pelo povo para representá-lo, e de quem se espera um comportamento ímpar, age de forma irresponsável. E mais: "Agente de trânsito é agredido em fiscalização", "Cinegrafista é agredido enquanto cobria acidente de trânsito", "Desrespeito com vagas para deficientes continua", "Bauru: jovem sem habilitação se envolve em acidente de trânsito". O que se constata é que o trânsito brasileiro está um caos total. O número de mortes e feridos está aumentando, a imprudência parece não ter fim e a intolerância prevalece no dia a dia. Mas, este fato é somente reflexo fiel do que ocorre com a nossa sociedade.
Mas, de que sociedade estamos falando? A que coloca fogo em uma pessoa viva pelo fato dela só ter na conta corrente R$30 e frustrar um assalto. A que mata um jovem estudante que entregou o celular sem reação. Daquela onde o aluno bate em professor; que joga lixo no terreno do vizinho e contribui para o aumento da dengue. Daquela que elege e mantém políticos corruptos, em todos os níveis. Crianças são estupradas e agredidas justamente pelas pessoas que tem a responsabilidade de protegê-las. Pai mata filho; filho mata a mãe. Lamentavelmente, o amor ao próximo parece ser coisa do passado. O relativismo com que se encara os problemas faz com que tudo seja permitido, seja aceito, e que os fins, nem sempre válidos, justificam os meios. Enfim, a situação caótica retratada pelas estatísticas e matérias diárias na mídia sobre o trânsito brasileiro, nada mais é do que o retrato fiel da sociedade. Não dá para melhorar o trânsito sem antes melhorar as pessoas. Está faltando Deus em seus corações. É preciso urgentemente reacender a chama do amor no coração de cada brasileiro. Só assim teremos uma sociedade mais humanizada e justa.
O autor, Archimedes A. Raia Jr., é engenheiro, especialista em Engenharia e Segurança Viária, professor da UFSCar, coautor dos livros Segurança no Trânsito e Segurança Viária. Diretor de Engenharia da Assenag. E-mail: raiajr@ufscar.br