O processo da globalização da economia tem como efeito negativo a extinção de muitas empresas que não conseguiram assimilar o novo momento dos mercados abertos. Quem não fechou as portas foi obrigado a se adaptar. Também os empregos migram de um país que passa a importar para outro que exporta.
Em Bauru, o segmento de confecção de sombrinhas e guarda-chuvas teve fases de declínio até a extinção, como a da fábrica de guarda-chuvas e sombrinhas Iara. O processo foi em etapas. De unidade fabril, a empresa passou a oficina de consertos e depois a concorrência do produto chinês definiu o fechamento das portas.
A fábrica dos irmãos Nava, Wilson e Aldroaldo, resistiu bem à primeira investida dos importados ainda no primeiro avanço da globalização. Sentiu o peso da concorrência internacional no mandato de Itamar Franco, quando o ministro da Economia era Fernando Henrique Cardoso e houve a implantação do Plano Real.
Wilson Nava, 75 anos, comenta que se falava em estabilidade e a economia ficou boa ainda na primeira metade dos anos 90. “Depois virou. O FHC (eleito presidente da República em 1994 e reeleito em 1998) achava que mesmo que o salário fosse baixo, mas se as coisas custassem mais barato, compensava. Tinha essa filosofia e abriu a porteira para a entrada de mercadoria da China”, contextualiza.
Wilson relembra a avalanche de sapatos, guarda-chuvas, sombrinhas, chinelos, roupas, entre outros manufaturados. Ele comenta que o produto chinês custava metade do preço em relação ao similar brasileiro. A indústria nacional sentiu o baque com a chegada de importados em grande escala.
Wilson estranha a economia atual ao comparar com a fábrica que ajudou a criar junto com o irmão em 1959. “Aquela época era diferente. Hoje, estamos vivendo uma época danada. Meio bagunçada”, define.
Ele comenta que nos anos 50 do século passado, o consumidor tinha o produto de boa qualidade e o inferior. “Hoje só vem da China e o Brasil não faz mais nada. Se você falar para mim que tem uma fábrica de guarda-chuva que fabrica armação, eu vou duvidar. Acabou!”, avalia.
Trabalho
A fábrica dos irmãos Nava propiciava trabalho para pelo menos 20 pessoas. Muitos trabalhavam por empreitada, montando as armações em casa. No auge da fábrica bauruense, a produção chegou a 8 mil peças produzidas por mês entre guarda-sóis, sombrinhas e guarda-chuvas, de modelos para crianças e adultos. Em um mês de baixa, a produção era de no mínimo 3 mil peças.
‘É preciso fazer a mesma coisa de outro jeito’, ensina Ciesp
O diretor regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Domingos Malandrino, define que a empresa que não atentar para a inovação do produto, processo ou serviço caminha para a extinção nos próximos cinco anos. “Quem não tiver filosofia de inovação no setor industrial corre sérios riscos de não estar mais em atividade. Eu não tenho dúvida nenhuma disso”, salienta. O Ciesp, Senai e a Fiesp estão focados em implementar o projeto de inovação nas empresas.
Ele alerta que o conceito de inovar não representa somente colocar um produto novo no mercado. Contudo, segundo o diretor regional, deve-se estar sensível à implementação de novos processos de produção e venda. Para Malandrino, inovação pode ser produzir o mesmo produto, só que de maneira diferente, melhorando produtividade, qualidade, apresentação, embalagem, entre outras possibilidades.
O diretor regional do Ciesp comenta que o parque industrial brasileiro compete com igualdade em termos de equipamentos, mão-de-obra qualificada e desenvolvimento com o internacional. Mas ele explica que o empresário nacional “passeia” pouco em feiras nacionais e internacionais. Não busca conhecer novos mercados. Malandrino acrescenta que essa cultura é reforçada porque a cada dia lançam-se legislações, portarias, resoluções e normativas que se somam à insegurança do câmbio. De acordo com Malandrino, existe estudo que demonstra que esses problemas geram de 30% a 35% de improdutividade para a indústria nacional.
Aprender com outros
Outro nó para o setor industrial brasileiro, segundo Malandrino, é a falta de uma bancada parlamentar que defenda os interesses do segmento produtivo. Neste sentido, o diretor regional do Ciesp em Bauru salienta que o setor ruralista soube alinhavar seus interesses graças a uma bancada parlamentar atuante. Sustentados em uma intervenção política, os ruralistas garantiram junto ao governo federal benefícios e pesquisa agrícola, com a criação do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
“Foram exigências dos próprios ruralistas para que aumentasse a produtividade. Um hectare de terra hoje produz quatro a cinco vezes mais do que dava há 10 anos”, frisa.
Ele define como “desastroso” o que acontece no setor industrial devido à falta de uma política do governo brasileiro. Malandrino pontua que a economia fechada, no período anterior aos anos 90, não foi satisfatória pelo alto nível de protecionismo. Pior ainda para a indústria nacional foi, conforme o diretor regional do Ciesp, a maneira drástica da abertura sem um planejamento interno. Malandrino argumenta que isso provou a extinção de inúmeras empresas nos últimos 20 anos. No seu entendimento, essas grandes indústrias não estavam com gestão habilitada para a abertura de mercado. “Abriu, mas tinha que fazer um planejamento”. Ele elenca prejuízos de gerenciamento, aprofundados pela disputa contra produtos da economia europeia, norte-americana e asiática preparados para concorrer.
‘Janelas abertas ao mundo’
O termo globalização deriva, de maneira ampla, das relações entre os países. Porém o termo situa-se com maior propriedade no jargão econômico. Gerson Mori, da Mori Consulting Exportação e Importação, comenta que a década de 90 foi um marco na história do desenvolvimento econômico do Brasil, pela “intensa abertura do mercado”, denominada globalização. Dessa reorganização mundial ainda nos anos 80 do século passado surgiu o Mercosul, Nafta, Alca e União Europeia.
Ele pontua que, “com as janelas abertas para o mundo”, a indústria nacional se esforça em um ambiente de acirrada competição mundial. Cita que o governo também se move para inserir o produto nacional em mercados internacionais e mantém olhar fixo nas medidas regulatórias protecionistas à economia nacional.
Especialista em comércio exterior, Mori define que o cenário tem exigido grandes mudanças normativas, inclusive e essencialmente na seara tributária. Ele ressalta que o mercado internacional não é mais um alvo somente de grandes empresas. “As micro e pequenas empresas têm experimentado cada vez mais os ‘sabores’ das vendas externas”, acrescenta.
Mori considera que, em termos absolutos, o volume das exportações brasileiras ainda é muito pequeno. Entretanto, frisa os esforços realizados pelo governo federal para a criação de meios que facilitem e desburocratizem os processos necessários para o acesso das empresas brasileiras.
“Nas importações, nossa indústria é dependente de um alto índice de insumos importados utilizados em seus processos produtivos. Com isso, ainda que o Brasil caminhe a largos passos nas relações internacionais, há muito que trilhar”, explica.
Mori usa sua expertise em comércio exterior para auxiliar o empresariado de Bauru e região a “navegar” seguro no mundo globalizado. Para tanto, ele coordena o Grupo de Comércio Exterior do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), regional Bauru, em uma articulação para fomentar comércio que envolve o empresariado de 16 municípios e mais a sede Bauru.