Geral

De motoneta a caminho de um sonho

Ana Paula Borges (Colaboração para o JC)
| Tempo de leitura: 6 min

“Hoje aqui, amanhã não se sabe”... um trecho de uma música brasileira que se encaixa perfeitamente ao estilo de vida do casal de mochileiros, formado por um colombiano e uma espanhola, um relacionamento que supera os limites geográficos. Vinte e poucos anos e mais de 25 mil quilômetros já percorridos pela América do Sul, essa é a rotina nada habitual do jovem colombiano Brandon Quintero Ramirez, 21 anos. Durante o percurso ele ainda conheceu a jovem espanhola Rosa Maria Sanmartin, 22 anos. Juntos se aventuram pelas estradas em cima de uma antiga motoneta. O roteiro digno de um filme é a forma que os jovens encontraram de difundir uma integração cultural, entre os países que visitam. Com apenas uma mochila nas costas, uma boa dose de coragem e desprendimento, a cada partida o destino é imprevisível para o casal.

 

Aceituno Jr.

Brandon Ramirez e Rosa Sanmartin, o casal de mochileiros

Brandon desde criança já tinha como sonho viajar pelo mundo, a curiosidade em saber mais sobre vários lugares foi o combustível para vivenciar a experiência. A vontade de infância o acompanhou por toda a adolescência e a falta de dinheiro da família era a principal dificuldade que o impedia de arrumar as malas. Aos 20 anos conseguiu comprar uma motoneta, que deu um novo rumo a história. Com o apoio dos pais, o sonho de criança saiu do imaginário há exatamente 15 meses quando a rota teve início. Nesse período, ao todo, já pode passar por sete países. O primeiro destino foi Equador, seguido por Peru.


Foi em solo peruano que o jovem destaca uma das melhores experiências já vividas. “Teve um dia no Peru, que não tinha onde dormir, apesar de ser proibido, passei a noite no Santuário de Machu Picchu sozinho, foi quando pude sentir a maior paz interior da minha vida, apesar da escuridão e do deserto, não senti medo, aquela paisagem me supriu, foi simplesmente fantástico”.


Para cobrir os gastos com combustível e alimentação, os jovens revertem a paixão pela fotografia em dinheiro. A cada boa paisagem, uma parada obrigatória para a foto, que depois são vendidas por eles.


Eles contam que cruzaram a fronteira do Brasil, com apenas R$ 10,00 no bolso. Em relação a hospedagem costumam ficar em hostels, mas a maioria das vezes, é  em casa de conhecidos, muitos deles, apenas conhecidos “virtuais”, o contato se dá através de uma rede social específica para pessoas que querem viajar de forma econômica e precisam de pessoas dispostas a oferecer hospedagem grátis a estrangeiros.


No Brasil, eles tiveram um gasto extra com o conserto da motoneta e precisaram usar todo o dinheiro que restava, quando chegaram em Bauru na casa do fotógrafo Miguel Axcar, há uma semana, o brasileiro resolveu ajudar o jovem casal. Além da hospedagem, cede um espaço no site do seu estúdio fotográfico para uma campanha pedindo ajuda para que os dois sigam viagem. O objetivo deles agora é voltar à Bolívia e conhecer um dos mais belos patrimônios naturais, o “Salar de Uyuni” - o maior deserto de sal do mundo, localizado no sudoeste do país.  Eles que não falam português, apesar da dificuldade na língua, a falta de dinheiro não se sentem inseguros e não pensam ainda em estacionar a motoneta. De forma categórica, afirmam que ainda há muitos sonhos a percorrer pelo caminho. Um deles é chegar ao México, país que nenhum dos dois teve oportunidade de conhecer.


Sobre o Brasil, eles disseram que não tiveram como não se encantar. “A diferença no idioma é o que nos separa, ficamos um pouco preocupados com isso, mas os brasileiros são muito acolhedores, simpáticos, felizes - essa maneira de ser do povo é o que mais me impressiona”, ressalta o jovem.


A namorada explica que viajar para eles é mais que uma simples viagem, já faz parte do estilo de vida que adotaram para se sentirem plenamente realizados.


Para o bauruense, Miguel Axcar, receber pessoas diferentes na sua casa já é normal e classifica como uma troca muito grande de ideologias e, já considera enriquecedora a vinda do casal. “Essa integração não deixa sentir que o Brasil é uma ilha dentro de toda a América do Sul, já que é o único que não é de língua espanhola. E fazer isso, por redes sociais confiáveis como a comunidade Couch Surfing é bem seguro, porque tem um perfil detalhado do hóspede com lugares que ele já passou e depoimentos contando toda a personalidade do viajante por pessoas que já o receberam, o que lhe garante saber tudo previamente, como por exemplo, se a pessoa é confiável para hospedar na sua casa”, esclarece o fotógrafo.


Quem quiser colaborar com o jovem casal de aventureiros, no site  www.miguel.fot.br/mochileiros, tem as informações para efetuar o depósito. Em retribuição, eles enviam pelo correio, uma fotografia de algum lugar que estiveram. Nesse endereço também é possível acessar as fotografias de todos os lugares, já percorridos em cima da motoneta.

 

Carteiros viajantes

Além de se aventurar, o casal aproveita a parada nos países para promover uma ação sociocultural através do intercâmbio de cartas. Eles visitam escolas de educação infantil e pedem aos alunos que escrevam cartas para outras crianças, que são entregues no próximo país a ser visitado. Aleatoriamente as cartas são entregues e a maioria é respondida, segundo o jovem, a ideia é justamente fazer o papel de um “carteiro viajante” e promover a integração de pessoas com culturas distintas e explica que escolheram desenvolver esse projeto com as crianças, porque é a fase, em que a curiosidade é mais aguçada.


Futuramente o sonho do casal é ampliar o projeto e criar o “Autobus”- um ônibus para que mais pessoas possam viver experiências como essa, e com mais espaço para transportar as cartas.


“Daqui a um ano, o nosso objetivo é recolher todo o material fotográfico das viagens e transformar em um livro, contando as peculiaridades de cada lugar, as aventuras, os desafios de forma bem detalhada para que outros jovens possam compreender que é possível conhecer muitos lugares, sem ter muito dinheiro para fazer isso”, ressalta o jovem.

 

Amor: fora de rota

Na Bolívia, os planos fugiram um pouco de rota e foi quando teve início a história do casal, Brandon que tinha o sonho de conhecer lugares e pessoas, não esperava no meio do caminho pudesse ser surpreendido pelo amor. Eles se conheceram em um hostel há seis meses, ela que é de uma cidade próxima a Valência, na Espanha, estava de férias em La Paz, com um grupo de amigos. Uma geografia complicada para um casal, mas em uma semana de convivência, os dois decidiram que não seguiriam mais destinos separados. A europeia resolveu pegar carona no sonho dele e continuar viagem. “Quando liguei para minha família e contei, eles não concordaram e ainda não me apoiam nessa decisão, acham tudo uma grande loucura, mas eu precisava viver isso agora que sou jovem”, relata.  

 

Comentários

Comentários