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Salário e produtividade

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

A inflação brasileira não é simplesmente produto de um excesso de demanda. Basta ver que o nosso Produto Interno Bruto cresce bem abaixo de sua capacidade, menos de 2% em 2012, iniciando uma reação apenas moderada neste primeiro trimestre de 2013. Mesmo assim, criou-se uma expectativa de aumento da inflação que é muito prejudicial, levando o governo a reagir aumentando a Selic e projetando certamente outras medidas para reduzi-la.

É fato que nos últimos quinze anos a inflação se manteve muito próxima do número de hoje, com uma taxa média de 6,3%, próxima portanto do limite superior da meta; e é certo que nunca ficou nos 4.5%, que é o seu núcleo. Curioso é que inflação tão alta durante tanto tempo foi bem suportada pelo setor financeiro enquanto a taxa de juro real anual era de 7% ou 8%. A redução da taxa de juro real a 2% ao ano (Selic de 7.25%) pareceu tornar-se insuportável para o mercado financeiro.

Outra verdade é que o magnífico Plano de Estabilização que criou o Real nunca entregou o que prometeu: uma inflação civilizada e estável entre 2% a 3% ao ano e a recuperação de um crescimento mais robusto de 5% a 6%. O culpado, obviamente, não foi o Plano real. Foi a indisposição dos sucessivos governos de prosseguirem a sua execução. A estabilização foi vítima do seu imenso sucesso inicial...

Não é razoável continuar a aceitar pacificamente aquela inflação ainda mais quando acompanhada de um crescimento médio do PIB da ordem de 2,97%. A inflação hoje, no Brasil, é produzida basicamente por um aumento do salário nominal muito acima do aumento da produtividade do trabalho. É importante que tenhamos despertado para isso e que se aprofunde a discussão de como reduzi-la ao mesmo tempo em que se aumenta o crescimento. Isto está longe de ser conseguido apenas pela manipulação da taxa de juros real e o governo reconhece isso. Os seus programas - que no curto prazo têm produzido algum ruído - quando maturarem em dois ou três anos produzirão importante efeitos estruturais e um aumento da competitividade.

A consciência da autoridade monetária sobre a complexidade do nosso problema inflacionário é claramente revelada num apêndice ao Relatório de Inflação do Banco Central de março de 2013, onde se exploram "evidências sobre a relação entre salário e inflação no Brasil". O trabalho oferece conclusões muito interessantes, dentre as quais as duas que se seguem: a) os aumentos salariais incompatíveis com a reposição da inflação e com o crescimento do PIB per capita têm impacto significativo e persistente nas medidas de inflação, particularmente no setor de serviços; b) a propagação das pressões inflacionárias oriundas do mercado de trabalho depende da postura da política monetária. Em outros termos, esta deve impedir, pelo aumento da taxa de juro real, a criação de um viés inflacionário.

É tempo de flexibilizarmos o mercado de trabalho sem violar os direitos constitucionais dos trabalhadores se quisermos, realmente, ter no longo prazo, uma taxa de inflação civilizada e um crescimento mais robusto.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC

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