Tenho pouco mais de meio século de vida, e já vi este filme várias vezes. Nos anos 80, fiz uma pesquisa séria e publiquei um livro enfocando esta situação. Por coincidência, chamei meu trabalho de "Padres Rebeldes". Eram 30, muito inteligentes, bem preparados, falavam até 4 línguas, haviam servido em Roma durante o Concílio Vaticano II, e evangelizavam na Diocese de Botucatu. Foram chamados de rebeldes porque praticavam, por volta de 1968, tudo o que a Igreja pratica hoje. Até menos um pouco, por conta da atual abertura da Igreja para as mulheres, impossível naquele tempo.
Aos 16 anos, normalista, após um curso ministrado por Charboneau e Me. Cristina Maria, em São Paulo, para onde fui enviada por um de meus padres rebeldes, fui chamada para repetir minha aprendizagem numa homilia. Não houve escândalos. A sociedade aceitou a novidade e buscou mais informações com a garota que havia feito a homilia!!!! Hoje as mulheres fazem casamentos...
Em Botucatu, aqueles padres já não usavam batina, ajudavam as pessoas que necessitavam de moradia, lideravam os jovens, inclusive os da Faculdade de Medicina de Botucatu que clamavam por melhorias no seu curso, rezavam a missa em português e eram amados pela sociedade! Ao mesmo tempo, em Bauru, há 100 km, d. Zioni (Deus o tenha) ainda exigia a batina em seus padres e a missa era rezada em latim.
Por causa destas "rebeldias" deles, hoje encaixadas em pastorais da família, dos jovens, dos descasados e outras, e a não aceitação do fim destas práticas, na troca exigida por Roma, por um bispo tradicional, os trinta padres afastaram-se da Diocese e não de seu ministérios. Apenas dois ou três trocou a Igreja pela formação de uma família. Apenas um deles ficou bispo. A querela durou um ano: abril de 1968 a 1969 e rendeu-me 300 páginas bem fundamentadas. Depois, o Brasil todo assistiu à questão com o Leonardo Boff e posteriormente com a Ivone Gebara (teóloga). Mas o que me preocupou mesmo e, principalmente, foi a renúncia do papa Bento XIV, por conta deste tipo de enfrentamento existente no seio da Igreja.
Sabemos como os profetas acabam, justamente porque eles vivem no presente, um tempo futuro. Na Idade Média eles iam, literalmente, para a fogueira. Lutero só não morreu na fogueira porque foi inteligente: opôs o poder político e financeiro dos príncipes alemães ao poder de Roma. Salvou-se. O maior equívoco de d. Zioni (in memoriam) em relação aos 30 "padres rebeldes" foi não ter dialogado com eles, diretamente, nem por uma única vez. Aliás, a maior lição do Mestre Jesus, o diálogo, não foi sequer considerado.
Desta vez, a cristandade esperava uma ação diferente, criativa, inovadora, porque o pastor é diferente em seu pastoreio e o carneiro é diferente em sua evangelização.
A autora, Terezinha Zanlochi, é professora de história