Tribuna do Leitor

Levanta, sacode a batina e dá a volta por cima!


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A saída de padre Beto da Igreja Católica repercutiu na imprensa nacional. Cheguei na madrugada desta segunda-feira para apresentar o Jornal da CBN e os amigos de redação me cobraram - Juliano você conhecia esse padre de Bauru que largou a batina? Sim, conhecia, trabalhei com ele na rádio 96 FM, onde comecei minha carreira. E vieram mais perguntas de amigos -Você sabia que ele pensava assim? O que acha? Viu a matéria da Veja?

Sim, sempre soube que Beto pensava assim, diferente da doutrina católica. Sempre me identifiquei com essa forma que ele tinha e tem de ver o mundo.

Quando Beto estreou na 96 FM ouvi o primeiro programa por curiosidade, virei fã. Ia para rádio nas minhas folgas de domingo para, não só ouvir, mas ver o programa ao vivo. Ali Beto promoveu encontros inusitados e reuniu pessoas que, normalmente, não ouvíamos no rádio juntas e, principalmente, falando de diversos assuntos, política, esportes, comportamento, e de suas preferências na música e literatura.

Na mesa do estúdio, que na verdade era um perfeito bar com direito a garçom(o querido Gérson), vi encontros inesquecíveis como o de Toninho Garms, então presidente da câmara, e o então prefeito Tuga Angerami. Vi e ouvi um mergulho na história do rádio bauruense, quando Beto recebeu os grandes locutores Mário Moraes e Pedro Norberto. Mais do que os convidados, o mais interessante do programa era ver aquele padre tão próximo de nós, homens comuns. Algo inédito para mim até então.

Nos corredores da 96 FM Beto um dia me surpreendeu quando, sempre perspicaz, se aproveitou de uma pergunta mal feita por mim para mostrar que era um homem moderno, a frente de seu tempo. Perguntei:

Beto você é a favor de casamento entre padres? E ele respondeu: Se os dois padres se amarem, qual o problema?

Eu me referia ao casamento de padres com mulheres, esperava que ele respondesse positivamente, confirmando o que eu pensava, que ele era um padre diferente, contra o celibato, avesso a alguns dogmas, para mim, inexplicáveis. Mas não, Beto foi além, mostrou para mim que era realmente diferente, mas muito mais diferente do que eu imaginava. Beto era um padre com pensamento livre, moderno, evoluído. Não combinava em nada com a batina que vestia. Mas eu, como já não frequentava a igreja nessa época, não o via de batina e até esquecia que ele era Padre.

Meu contato com Beto sempre foi mais profissional do que religioso. Na TV Preve participamos juntos do Câmera Livre, ele com um quadro sobre cinema, onde trazia dicas sobre filmes clássicos e eu com entrevistas com músicos e artistas. Depois que sai de Bauru não o vi mais.

A única coisa que nunca entendi em Beto era o título de Padre. Não cabia para mim que um homem tão moderno, inteligente e vanguardista fizesse parte de uma instituição conservadora e, na minha opinião, machista.

Beto não me surpreendeu com sua decisão, apenas confirmou o que esperava, fez um acerto de contas com suas ideias. E se isso, de alguma forma, o abalou, eu presto aqui uma homenagem ao compositor Paulo Vanzolini, que nos deixou no domingo, e te digo, Beto: "Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima". Parabéns pela atitude!

Juliano Dip é repórter e apresentador da Rádio CBN de São Paulo

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