Polícia

Estupro: violência à luz do dia

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 4 min

Não é novidade que os criminosos aproveitam a calada da noite para agir. Porém, a Polícia Civil de Bauru investiga dois casos registrados esta semana de estupros que teriam ocorrido durante o dia. Eles fazem parte de um contexto de violência sexual que preocupa. Para se ter uma ideia, somente no primeiro trimestre deste ano, já são 26 estupros registrados na cidade. Os crimes acendem um alerta na sociedade.

No registro mais recente, na última terça-feira, uma estudante de 18 anos (os nomes foram preservados pela reportagem) foi abordada na quadra 20 da avenida Nações Unidas. Era por volta das 13h50, quando um homem, em um Vectra escuro, a abordou com o pretexto de estar perdido e a ameaçou com uma faca.

A vítima foi obrigada a entrar no carro e depois foi levada a uma estrada de terra próxima ao Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet). Lá, ela alega ter sido estuprada e abandonada. Exames na Maternidade Santa Isabel comprovaram a conjunção carnal.

O outro caso foi registrado esta semana, contudo, teria ocorrido no último dia 20. Uma adolescente de 15 anos denunciou que aceitou o convite para almoçar com um conhecido e ele a teria levado ao motel e cometido o estupro.

Ambos os crimes seguem em investigação, sendo que a polícia apura desde a suposta autoria até mesmo a veracidade das denúncias. Para não atrapalhar o andamento, as investigações seguem em silêncio. Entretanto, os casos já servem para acender o alerta na população.

A delegada Priscila Alferes, titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), afirma que a prevenção primária é a melhor maneira de evitar tantos os crimes diurnos quanto noturnos. E essa prevenção significa atenção. “O estuprador procura uma presa fácil. Assim, a pessoa que fica muito desatenta pode se tornar uma vítima”, explica.

Quando a pessoa fica atenta, ela amplia sua percepção e pode notar pontos suspeitos, como pessoas seguindo ou carros se aproximando. “Hoje, muitos andam falando ao celular. Com isso, não conseguem ter essa percepção, facilitando a aproximação de um criminoso”.

Em casos contrários, quando algo suspeito é notado, a recomendação é acionar a Polícia Militar (PM), por meio do 190, ou mesmo simular uma situação para despistar um provável agressor. “A pessoa pode entrar em um estabelecimento ou mesmo tocar a campainha de uma casa, por exemplo. Isso dificulta a vida do criminoso”.

Atalho perigoso

Em vários casos de estupros, os predadores encontram suas presas em locais ermos. Esses trajetos são comumente usados para encurtar distâncias, contudo, geralmente têm características que facilitam uma emboscada. “Muitas vezes são locais em que não passa muita gente, pouco iluminados e com bastante mato”, alerta Priscila Alferes.

E quando a vítima já foi abordada? O que fazer? No último dia 18, próximo à rodoviária, uma universitária conseguiu se desvencilhar e fugir de um homem que dizia estar armado.

“É algo que tem que ser avaliado. A reação não é considerada a melhor saída. O criminoso pode realmente matar a vítima”, conclui a titular da DDM.


26 casos

Segundo os dados mais recentes da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, Bauru já teve 26 casos de estupro no primeiro trimestre de 2013. O preocupante é que, de fevereiro para março, o número de casos praticamente dobrou.

Janeiro e fevereiro tiveram sete registros cada, enquanto, em março, foram 12 estupros.

Se comparado com o ano passado, houve um caso a menos no primeiro trimestre. Janeiro e fevereiro de 2012 tiveram oito registros. Já março do ano passado teve 11. Assim, o primeiro trimestre daquele ano foi fechado em 27 casos.


Vítimas recebem medicamentos para evitar doenças transmissíveis

A titular da DDM, Priscila Alferes, explica que a vítima de estupro deve comunicar o fato imediatamente à polícia. De lá, ela é encaminhada para o hospital, onde são realizados exames e até ministrados medicamentos para evitar doenças. Em Bauru, as vítimas são conduzidas até a Maternidade Santa Isabel.

“Elas são levadas até o hospital, onde recebem o ‘coquetel’ para se prevenir de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Além disso, fazem exames que são importantes para a investigação”, pontua.

Entre esses exames, a delegada explica que há a retirada de um possível restante de líquido seminal do agressor. “Isso serve de prova para uma possível confrontação posterior”, complementa Alferes.

Além desse tratamento inicial na unidade hospitalar, o poder público oferece atendimento a essas vítimas. A secretária municipal do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo, explica que há ampla capacitação dos profissionais que atuam na tratativa desse tema.

“O estupro é algo que viola a alma. Há casos em que as vítimas não possuem condições para qualquer tratamento. Nós oferecemos, inclusive, um serviço psicológico”, completa Tendolo. A Sebes fica na rua Alfredo Maia, quadra 1, e pode ser contatada pelo telefone 3227-8624.


Confirmação preocupa

O capitão Ézio Carlos Vieira de Melo, coordenador operacional interino do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), afirma que, caso sejam confirmados, os estupros à luz do dia realmente são uma novidade.

“É algo preocupante. Foge ao modo de operação que comumente vemos. Geralmente, a vítima é recolhida em horários tardios e em locais de menor movimento. Por isso, nossa recomendação é de que elas evitem, durante a noite, locais ermos e também andar sozinhas”, aponta.

Ele, contudo, alerta que a PM está atenta a esses casos que teriam ocorrido durante o dia. “Estamos acompanhando com atenção e verificando até para podermos realizar nossos estudos e subsidiar o planejamento do nosso patrulhamento”, complementa o capitão.

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