Bairros

?Invasão? sobre duas rodas

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

Basta dar uma volta pelas principais vias da cidade para notar a grande quantidade de motos que Bauru abriga, realidade que tende a aumentar e que, diante da nova onde de acidentes fatais envolvendo esse tipo de veículo (e nada indica que isso vá retroceder), faz refletir sobre a relação diária entre pedestres, motoristas e motociclistas.

Segundo dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), a frota de motocicletas em Bauru teve crescimento de 167% em dez anos, chegando a quase 50 mil em 2013. O número é quase o triplo de 2003 e representa, segundo a Polícia Militar, 22% da quantidade total de veículos registrados no município até março deste ano: 239.218, de acordo com dados enviados pelo Departamento de Trânsito (Detran) do Estado de São Paulo.

A concentração de motos é dispersa em todo o município, mas o maior trânsito e, consequentemente, o maior número de acidentes, está no Centro, seguido da zona sul e dos grandes corredores viários das periferias, como a avenida Doutor Marcos de Paula Raphael e a Nações Norte, por exemplo”, observa o capitão da Polícia Militar Alan Terra.

E somado à imprudência e ao excesso de velocidade, uma das consequências deste crescimento no número de motos é também o aumento no número de acidentes. Ao menos 45% dos choques envolvendo vítimas ocorre com motociclistas, o que é muito, na visão do capitão. 

“Na prática, a gente observa que a correria do dia a dia é o grande problema, porque pede velocidade e, com a velocidade, a imprudência aumenta, tanto de motociclistas quanto de motoristas. Prova disso são as autuações de trânsito por excesso de velocidade, falta de respeito à sinalização, ultrapassagem em sinal vermelho...”, enumera.

Considerando que a motocicleta é um veículo extremamente frágil à segurança do condutor, o motociclista deve, em primeiro lugar, priorizar a sua segurança, de acordo com Terra. Atentar para o vestuário adequado com calça comprida, jaqueta reforçada (jeans, couro ou material sintético), luvas e calçados adequados são  fundamentais. Nada de chinelos ou salto alto. Deve-se usar, preferencialmente, botas. 

O capacete precisa estar dentro do prazo de validade, justo na cabeça e afivelado. “Respeitar os limites de velocidade e sinalização também são ações que salvam vidas”, completa o capitão.  

 

Atenção, pedestres! 

Os pedestres atravessam a rua onde querem e, quando usam a faixa, desrespeitam o semáforo de pedestre, aproveitando uma brecha entre um carro e outro. A constatação é do consultor automobilístico Marcos Camerini, que afirma ver abusos como estes diariamente pelas ruas de Bauru.

Entre os pontos mais críticos, ele aponta os cruzamentos do Calçadão da Batista onde, mesmo com o sinal aberto para eles, os automóveis sentem dificuldade para atravessar porque sempre tem gente cruzando a rua a qualquer tempo. “Falar ao celular e ao mesmo tempo atravessar a rua sem olhar é acidente na certa. Mesmo que um veículo esteja a 40 km/h, o choque será inevitável. A educação no trânsito deve contemplar também os pedestres. Todos somos. E um pedestre sempre será a parte mais fraca se bater contra um veículo”, aponta.

 

 

Preferidas por praticidade e economia

 

Com o corre-corre e as inúmeras responsabilidades do cotidiano, parece faltar tempo para o trabalho, para os estudos, para o lazer, para os afazeres de casa e para os compromissos sociais. E as motos entram em cena para os que querem “ganhar” tempo nesse turbilhão de tarefas diárias, segundo os próprios motociclistas e instrutores de autoescola.

“Hoje, praticamente todos os que chegam até as autoescolas também optam por tirar a sua CNH de moto, principalmente por causa do trabalho e faculdade. Normalmente são pessoas jovens em busca de um meio de locomoção que permita encurtar tempo no trânsito”, aponta Marcus Paulo de Oliveira, instrutor há 12 anos.

A facilidade financeira em adquirir as motos também atrai os motoristas, ao lado da economia de combustível que esses veículos proporcionam. É possível rodar até 30 quilômetros no meio urbano com um único litro de gasolina, e as parcelas mensais de uma moto nova podem não chegar a R$ 200.

 

Perfil


Ainda de acordo com os profissionais do ramo, os jovens representam maioria sobre duas rodas. Pessoas com idade entre 20 e 25 anos são as que mais tiram CNH para esse tipo de veículo.


“Também é essa faixa etária que engrossa as estatísticas de acidentes com mortes. E o alarmante é que uma quantidade considerável desses jovens que morrem ou provocam acidentes não têm habilitação”, segundo observa a instrutora de autoescola e condutora do Samu Josiane Plana.

O que também aumenta os riscos de acidentes, segundo Josiane, é a autoconfiança dos motoristas recém-habilitados que chegam às aulas dizendo já saber dirigir moto. “Isso é muito comum. Quando entrei na profissão, há 7 anos, os alunos aprendiam tudo nas aulas. Hoje, muitos chegam e acreditam já dominar a direção. O excesso de autoconfiança pode deixar a atenção de lado”, preocupa-se.

Outra mudança notada pelos instrutores quando o assunto são as motocicletas é a procura feminina por esses veículos. Marcus, por exemplo, lembra que há uma década não era raro mulher tirar habilitação de moto, mas hoje se tornou tão comum quanto para os homens.

A observação de Marcus é positiva para Josiane, que defende que elas são mais calmas, prudentes e atenciosas nas aulas e no trânsito. “A mulher ouve mais o instrutor e dirige com mais cautela”.

A bombeiro civil Graziele da Silva Correa, 32 anos, por exemplo, prepara-se para tirar a CNH de moto por necessidade e por acreditar que está preparada para enfrentar o trânsito. “Eu preferi esperar e amadurecer um pouco mais para pegar uma moto. Tive medo quando comecei as aulas, mas vi que, se você tiver responsabilidade e consciência, dirigir moto não é nenhum bicho de sete cabeças”. 

 

 

Imprudência, negligência e imperícia 

 

Se existe fórmula para os acidentes de trânsito, a condutora do Samu Josiane Plana afirma que os ingredientes são: imprudência, negligência e imperícia.

“As pessoas têm muita pressa e parece que querem chegar ao seu destino custe o que custar. Está no Código de Trânsito que o maior deve cuidar do menor, mas não vemos isso. É fato que muitos motoristas de carro não respeitam os motoqueiros, mas também é fato que muitos motoqueiros não conduzem os seus veículos com responsabilidade. Vejo isso diariamente no trabalho pelo Samu e pela autoescola”, afirma a instrutora.

‘No olho do furacão’

Tanto Josiane quanto o instrutor Marcus Paulo de Oliveira já sofreram acidentes com motocicleta. Em ambos os casos, a imprudência alheia ocasionou os choques, segundo eles.

Com ela, a falta de seta de um carro foi responsável por sua queda. “Infelizmente, isso é muito comum em Bauru. As pessoas simplesmente não sinalizam a conversão, não pensam no outro e causam acidentes. Eu não me machuquei muito, por sorte”.

Já Marcus foi “fechado” por um automóvel na Ezequiel Ramos. “Já vi muitos acidentes em decorrência da falta de respeito dos veículos grandes com as motos. O bauruense não dá seta, não olha no retrovisor”, lamenta.

 

 

Antes de ir para a rua

 

Antes de enfrentar o trânsito e disputar as ruas e avenidas cada dia mais concorridas, a dica do instrutor Marcus Paulo de Oliveira para os recém-habilitados são simples, mas podem evitar acidentes leves ou mesmo fatais.

Com a habilitação em mãos, o primeiro passo não é se aventurar pelo trânsito com avidez, como boa parte dos jovens faz, de acordo com Marcus. Antes de tudo deve-se conhecer o veículo e praticar a direção em lugares tranquilos.

“É preciso verificar os freios, saber como cada parte da moto funciona, sentir o veículo e, aos poucos, inserir-se no trânsito”, aconselha.

 

 

A tragédia na pele 

 

Cerca de um ano e meio se passou desde que o filho João Vitor Borba de Siqueira Lima, de 15 anos, morreu após ser atropelado por um motociclista, mas o luto ainda se faz presente na vida de Rejane Siqueira e sua família. “Morri no momento em que o vi entubado. Morri quando perdi o amor da minha vida”, diz a mãe.

O atropelamento acorreu no dia 26 de novembro de 2011, quando João saía do Bauru Shopping em direção ao Walmart, pela faixa de pedestres. “Ele estava feliz. Me pediu ‘pra’ levá-lo ao shopping, tomou banho, almoçou e se vestiu. Ele estava muito lindo. Peguei o carro, passamos na casa de um amigo dele e fomos ao shooping. Isso por volta das 14h”, narra a mãe.

Como sempre fez, Rejane recomendou que o filho tivesse cuidado e, também como ele sempre fazia, João pediu que a mãe relaxasse. “Então eu disse: Fica com Deus, e fui para casa”.

Conforme o combinado entre mãe e filho, Rejane ligou para João Vitor por volta das 17h para buscá-lo, mas ele não atendeu o celular. Nesse mesmo instante, o telefone da mãe de Rejane tocou. A ligação trazia a notícia de que o adolescente havia sido atropelado.  

“Naquela hora o mundo parou ‘pra’ mim. Corri para o Pronto-Socorro e cheguei antes do Resgate. Quando a ambulância chegou, pude ver o meu filho entubado. Só consegui pedir a Deus que o protegesse, mas infelizmente perdi o amor da minha vida por causa de um irresponsável sobre uma moto”. 

João Vitor ficou quatro dias internado em estado de coma em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mas não resistiu aos ferimentos provocados pelo choque com a motocicleta e faleceu no dia 30 de novembro de 2011. Recentemente, a família se mudou para Recife.

 

‘Foi uma fatalidade’

Fatalidade. Assim o instrutor Aparecido de Oliveira Dorta define o acidente sofrido por ele na manhã do último dia 19 de abril, na altura da quadra 21 da avenida Duque de Caxias, após sua moto colidir com outra. Fatalidade porque não foi a imprudência que provocou o acidente, mas sim um cachorro que atravessou a via quando ele e outro motociclista passavam pelo local.

“Um outro rapaz transitava pela Duque no mesmo sentido quando foi surpreendido pelo animal na pista. Ele perdeu o controle da moto, caiu e a moto dele bateu na minha, causando a minha queda”, recorda.

Apesar do susto e da queda, nenhum dos dois motociclistas ficaram gravemente feridos, entretanto, Aparecido teve várias partes do corpo machucadas e ainda se recupera de uma cirurgia que precisou fazer no punho. “Não estou podendo dirigir por causa disso. Foi um susto muito grande, sabe. Na hora, a gente não vê nada, apenas acha que vai morrer”, relata.

O instrutor tem 40 anos de idade e este foi o primeiro acidente sofrido por ele, que dirige moto desde os 18 anos. “Sempre fui muito atencioso no trânsito, mas não estamos livres de uma fatalidade. A vida é assim. Um cachorro solto na rua poderia ter até tirado a minha vida e a do outro motociclista”, pensa. 

 

 

 

 

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