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Entrevista da Semana: Jade Suhaila

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

A dançarina que tira aplausos e encanta pela leveza e técnica de seus movimentos descobriu a dança do ventre sozinha, ou melhor, teve as suas primeiras aulas escondida da família: “Tudo isso por causa do tabu que ronda a sensualidade dessa modalidade”.

Mas a descoberta da dança do ventre foi também para a então adolescente a sua própria descoberta. E a dança passou a fazer parte integral dos dias, dos planos e dos sonhos de Jade Suhaila. “Hoje a dança é a minha vida”.

Entre as suas apresentações de tirar o fôlego está a conquista do primeiro lugar no Festival Ciad Atenas de Dança, na modalidade dança do ventre estilo tribal americano, em 2008. “Mas gostoso mesmo é vencer em grupo”, afirma.

Dançarina e professora, ela comanda a Companhia de Danças Árabes Jade e integra o CID/Unesco e o Ciad, do qual é jurada. Entretanto, defende que concursos de dança não medem a capacidade dos que se apresentam. “Um dia você pode dançar bem por estar muito bem e, em outro momento, não dançar nada por influência de diversos fatores”. Leia mais, a seguir.

 

Jornal da Cidade - Por que escolheu a dança do ventre?

Jade Suhaila - Eu comecei a dançar aos 10 anos de idade com o balé clássico porque a minha mãe é bailarina e me levou para fazer aulas junto com ela, mas eu tenho um sério problema no joelho e não aguentava a dor. Foi quando eu vi a dança do ventre na TV e comecei a fazer os movimentos em casa. Eu percebi que estava pegando tudo muito rápido e senti vontade de ter aulas, mas minha mãe não permitia. Isso por causa do tabu que ronda a sensualidade da dança, e eu tinha uns 13 ou 14 anos... Só que eu comentava esse meu desejo com minhas amigas e a mãe de uma delas, que eu nunca esquecerei, inscreveu-me escondida em aulas gratuitas no Teatro Municipal. Ela disse que se eu gostasse, ela me ajudaria a convencer a minha mãe. E foi o que aconteceu, porém, minha mãe me acompanhava nas aulas.  

 

JC - Desde então você não parou mais de dançar?

Jade - De dançar, não. Mas eu parei com aulas durante um tempinho porque fui morar nos Estados Unidos, onde terminei o ensino médio. Vivi em algumas cidades de lá e até me apresentei em alguns lugares. Eu fiquei hospedada na casa de uma família evangélica bastante rígida e tinha medo de que eles descobrissem sobre a dança do ventre. Eu levei as roupas e um dia, em casa, eu estava dançando com a minha irmãzinha de lá quando eles chegaram. Eu achei que fosse levar uma bronca, imagine, mas eles viram e começaram a dançar também (risos). Foi muito bom. Depois eu até me apresentei em um restaurante no Texas.

 

JC - Quando você se viu uma dançarina profissional?

Jade - Eu nunca esperei ser uma profissional da dança. Na verdade, eu nunca esperei dar aulas ou trabalhar com isso, ao contrário. A partir de 2008, eu passei a fazer parte da Confederação Interamericana de Danças (Ciad) e do Conselho Internacional da Dança (CID), reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o CID/Unesco. Em Bauru, fui a segunda bailarina a ter esse tipo de registro. A entrada no CID/Unesco é por indicação, já no Ciad você precisa comprovar que é profissional por meio de documentação.

 

JC - Que caminho seguiria se a dança não a tivesse “capturado”?

Jade - Eu sou formada em administração de empresas e estou na segunda faculdade, tranquei agora, mas faço estética e cosmética. Sou apaixonada por tudo o que é relacionado à estética. Esse ano eu dei uma parada porque estou viajando muito com a dança. Mas eu imaginei mesmo que eu fosse trabalhar na empresa da família, que é de línguas, informática e intercâmbio, por isso eu fiz administração financeira.

 

JC - Você é uma dançarina premiada. Quais são os prêmios de maior destaque em sua carreira?

Jade - Eu acho que até hoje a minha ficha não caiu em relação ao lugar que eu conquistei na Grécia. Em 2008, participei do Festival Ciad Atenas de Dança e consegui o primeiro lugar na modalidade dança do ventre estilo tribal americano. O que me marcou mesmo foi a minha nota, 9,97, quase 10, e praticamente ninguém recebe uma nota 10 nesse tipo de concurso, principalmente internacional. Mas gostoso mesmo é vencer em grupo, porque é muito difícil você dançar em grupo por causa da harmonia... Pegamos o primeiro lugar em espada no Mercado Persa, com o Grupo Folclórico Nuriah, onde eu dancei por muito tempo. O engraçado é que eu sou jurada do Ciad, mas não dou muito valor a concursos.

 

JC - Por que você diz isso?

Jade - Porque eu acho que um dia você pode dançar bem por estar muito bem e, em outro momento, não dançar nada por influência de diversos fatores, como uma cólica, por exemplo, que é do corpo feminino. Na Grécia, o palco era muito gostoso e o clima era amigável, o que me favoreceu. Então um concurso não avalia, necessariamente, se você dança bem ou não.

 

JC - Uma apresentação marcante.

Jade - Há uma apresentação que me emocionou muito, acho que foi em 2009. Minha família mora longe e a gente foi para Campo Grande, onde há um restaurante árabe muito tradicional. Eles ainda não tinham me visto dançar, achavam que eu fazia umas aulinhas de dança do ventre e pronto. Havia música ao vivo no lugar e é difícil acompanhar porque a banda pode não te respeita, mas eles me respeitaram e me deram muitas músicas de presente. Os músicos não me deixavam sair da dança e eu continuava dançando. Um dos árabes dançou comigo e minha família me viu. Percebi que eles realmente viram que eu dançava de verdade e me respeitaram como dançarina. Vi meu pai com lágrimas nos olhos... Foi bem emocionante mesmo.    

 

JC - O que você fez antes de ser professora de dança?

Jade - Eu fazia faculdade e trabalhava em uma clínica de estética. Hoje minha vida é totalmente voltada para a dança. Já me apresentei nos Estados Unidos, Holanda, Grécia, Argentina e em vários Estados do Brasil, como Rio de Janeiro, Paraná, Mato Grosso e Amazonas. Engraçado é que eu nunca imaginei trabalhar com a dança, e hoje ela é a minha vida.

 

JC - Tem histórias marcantes sobre os palcos?

Jade - Foi muito bom estar em Manaus. Quando cheguei, eu fiquei um pouco assustada com as diferenças do clima, principalmente. A umidade do ar é diferente, você a sente na pele. E o calor é muito grande mesmo. Mas o povo também é diferente. Eles me trataram muito bem, absurdamente bem. Eu gostei muito da força de vontade das dançarinas de lá, que ensaiavam de madrugada. O povo respeita muito as apresentações. Quando eu desci do palco havia uma fila enorme de gente querendo tirar fotos.

 

JC - Hoje o grupo Jade Suhaila reúne quantas dançarinas?

Jade - Estamos com um grupo grande. São cerca de 10 meninas que fazem shows e ao menos 60 alunas, de várias faixas etárias. 

 

JC - De onde vem o nome artístico Jade Suhaila?

Jade - A gente faz batismo nas alunas de dança do ventre e eu já era batizada com outro nome: Cristal. Mas, no colegial, os colegas só me chamavam de Jade, por causa de uma personagem de novela. Não teve jeito, pegou (risos).

 

JC - Um sonho.

Jade - Eu tenho muita vontade de trabalhar a dança com mulheres carentes, inclusive já assumi um compromisso comigo mesma de fazer isso quando eu estiver bem na dança. A dança é instável, há períodos em que eu tenho uma boa quantidade de alunas e outros em que o número cai consideravelmente. A dança trabalha a autoestima feminina e resgata a sensualidade natural de cada mulher. Outra vontade minha é trabalhar com senhoras, mas eu preciso de parceiros para conseguir um espaço apropriado para isso. 

 

Perfil

Nome: Mariana Piccirilli de Oliveira (Jade Suhaila)

Idade: 26 anos

Cidade: Bauru

Signo: Leão

Hobby: Estudar maquiagem

Livro de cabeceira: “Você pode curar a sua vida”, de Louise Hay 

Filme preferido: Gosto de suspense e de comédia romântica

Estilo musical predileto: Rock pop e música alternativa

Para quem dá nota 10: Para a dançarina Rachel Brice 

Para quem dá nota 0: Para a mania de julgar 

E-mail: jadesuhaila@hotmail.com 

 

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