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Os excomungados

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O episódio do anátema do padre Beto remeteu-me a um filme francês do tempo do preto & branco. O título original, "Le défroqué", traduz-se por "aquele que abandonou o hábito religioso". Em português arcaico o vocábulo correspondente seria "despadrado" - quem deixou de ser padre. O enredo do filme e as motivações são diferentes do caso bauruense. Mas serviu-me para reavivar cenas antológicas que durante muitos anos impressionaram o meu imaginário de criança religiosa. Rompido com a igreja o ex-padre cai na vida libertina, cheia de mulheres e festas. Seu antigo colega, amigo desde os tempos do seminário permanece fiel ao sacerdócio, com seus ritos e a hierarquia verticalizada. É este padre-anjo que vai atrás do rebelde para convencê-lo a se redimir. Encontra-o num cabaré. Travam uma discussão doutrinária. Segundo o enredo, quem é ordenado padre recebe a missão irrenunciável da administração dos sete sacramentos instituídos por Jesus. O "défroqué", para mostrar seu desprezo à liturgia, na mesa da boate enche um balde de vinho, estende as palmas das mãos sobre o recipiente e consagra o conteúdo com palavras em latim. A bebida servida para alegrar a noitada transforma-se em "sangue de Cristo", vinho de missa, e não pode ser abandonado em meio a tanto pecado e pecadores. Seu lugar é no sacrário da igreja. O padre-anjo, abstêmio, resolve beber todo o volumoso conteúdo alcoólico consagrado, para proteger o sangue de Cristo na própria entranha. Enquanto entorna o vinho os frequentadores da boate cantam o "vira, vira" e batem palmas sincopadas achando que é uma exibição por farra. Quis o padre mostrar com o seu sacrifício que Deus é todo perdão. Bêbado, na rua deserta a procura de transporte para casa, o padre-anjo encontra um caminhão de coleta de lixo. Lamenta que o veículo não leve seres humanos. O gari responde que o lixo humano é pior que o rejeito orgânico malcheiroso. E ainda bem que não fazia parte da sua missão recolhê-lo.

"Mas, ainda que alguém ? nós, ou um anjo baixado do céu ? vos anunciasse um evangelho diferente do que temos anunciado, seja anátema" (Gálatas, 1:8). Jesus, símbolo de contradição foi pelos homens considerado anátema, e crucificado. Com o cristianismo a palavra anátema passou a significar excomungado, aquele que está fora da igreja e destituído dos sacramentos. Durante a Inquisição os processos de excomunhão levavam anos. O de Giordano Bruno, frade dominicano italiano terminou em 1600, depois de nove anos. Era acusado de doutrinas subversivas. Suas ideias avançadas suscitaram suspeitas por parte da hierarquia da igreja. Bruno defendia o heliocentrismo, segundo o qual a Terra e todos os planetas giravam em torno do Sol. A igreja dogmatizava o geocentrismo. A Terra é que era o centro do universo. Pensar diferente era heresia e a sentença, a excomunhão e a fogueira. Giordano Bruno perdoou os seus julgadores: "Talvez sintam maior temor ao pronunciar esta sentença do que eu ao ouvi-la". O padre Beto não é Giordano Bruno, mas a sua anatemização deve ter sido uma tarefa desagradável. O Direito Canônico de 1917 não inclui os rituais de excomunhão. Pelo noticiário, o sinédrio bauruense trabalhou rápido. Não mais que horas. Galileu Galilei (1564-1642), também heliocentrista foi forçado a desdizer tudo o que afirmava para se livrar da fogueira, em 1633. Só foi absolvido três séculos depois, em 1983, pelo papa João Paulo II. A igreja levou 300 anos para liberar as obras de Copérnico do Index Librorum Prohibitorum. Ele foi iniciador da astrofísica na Idade Média. Temos outros excomungados célebres: Espinoza, Trotsky, Fidel Castro, Hitler. A heresia de contrapor o pensamento científico ao pensamento dogmático religioso sempre gerou conflitos. Pascal tem consciência da impossibilidade da fé se fundar na razão. Mas integrou a dúvida e a razão na Fé.

Para um defensor da racionalidade é difícil ver-se obrigado a abdicar das suas verdades. O filósofo Edgar Morin (Meu Demônios) disse que tenta fazê-las dialogar ? a razão e a fé. Padre Beto não é Galileu, mas poderia ter murmurado aos seus julgadores "Eppur si muove!" (contudo ela se move). O Sol e todos os planetas podem até girar em torno da Terra, por uma questão de fé. Mas a terra também se move, pelas regras do Universo. Milhões de homossexuais deixaram os armários e querem amar em liberdade. Eles existem. Além do pecado. Um milhão de abortos clandestinos são feitos no Brasil, por ano. Trezentas mulheres morrem dessa prática por falta de cuidados médicos e assepsia. São jovens, negras, analfabetas, pobres, religiosas e excomungadas pela sociedade. Aborto é um problema de saúde pública e de caridade. Como tal precisa ser tratado. Se rezar também ajuda, então oremos.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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