Era domingo, na missa das 10h da manhã, no Santuário de Nossa Senhora Aparecida. A Igreja estava lotada. Padre Beto já havia iniciado a homilia e, como de costume, ficava mais próximo do povo, no corredor central. A passos lentos veio entrando em direção do padre, um mendigo, quase despido. A magreza mostrava as costelas de seu corpo mulato. No ombro, enrolada, estava uma camiseta vermelha e suas calças grandes demais para seu quadril, deixavam a mostra parte de suas nádegas. Silenciosamente, ele se aproximou do padre Beto e estendeu-lhe a mão. Passando o microfone para a mão esquerda, o jovem padre estendeu a ele a mão direita e por alguns minutos aquelas mãos ficaram unidas. A homilia continuou. A cena era comovente.
Como era frequente em suas homilias, aliás sempre muito bem preparadas, padre Beto continuou falando da "partilha" e dizia: Nosso povo se diz cristão e nosso País é um país rico... Se aqueles que se dizem cristãos vivessem o Evangelho, nosso irmão não estaria nesta situação. Não haveria excluídos em nossa sociedade... Não haveria essa miséria extrema. Não resisti e meus olhos se encheram de lágrimas. Ao meu lado havia um jovem casal de negros. Olhei para o lado e vi que eles também choravam... De repente me dei conta que quase todas as pessoas na Igreja estavam enxugando os olhos... O homem pobre beijou a mão do padre Beto e lentamente caminhou em direção ao altar. Virou para a esquerda e foi orar diante do altar da Padroeira, negra como ele... Ali permaneceu por alguns minutos e, silenciosamente, a passos lentos, saiu da Igreja. Ninguém sabe seu nome e ele nada falou. Quem seria esse homem?
Domingo passado, 28 de abril, às 10h30 da manhã, a Igreja Santo Antonio, na Bela Vista, igualmente lotada... O padre Beto mais uma vez fala do amor ao próximo, qualquer que seja sua condição social, cor, raça, credo, opção sexual, da partilha, etc, e informa que se "afastaria" do sacerdócio por um período, por questões pessoais de divergências dentro do clero... Novamente, o povo que buscava "transcender espiritualmente" e crescer na fé; a assembleia foi aos prantos! O sacerdote foi aplaudido de pé por alguns minutos... Dia 29 de abril a Igreja Católica de Bauru recebe, "perplexa", a notícia da "excomunhão" daquele que reunia o maior número de fiéis em nossa cidade e, quiçá, na região.
Agora, esse rebanho, cuja maioria passa dos 60, 70 anos de idade, perdeu seu pregador preferido... Jesus, tu que és o caminho, a verdade e a vida, acompanha-nos na passagem deste momento difícil e doloroso! Peçamos ao Divino Espírito Santo que ilumine nosso querido novo Papa Francisco para que faça, com amor e caridade, a reavaliação que o caso requer.
Benedita Ondina Raphaele Silveira