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Deputada tetraplégica participa de workshop em Bauru

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 4 min

Aceituno Jr.

No Café com Política, no JC, Mara Gabrilli e o vereador Fábio Manfrinato conversaram sobre a luta por inclusão

Em 1994, Mara Gabrilli quebrou o pescoço em um acidente de carro. Tetraplégica, ela passou meses com um respirador artificial e teve que lutar pela vida. Vida que, desde então, mudou. “O que mudou na minha vida? Mudou só que passei a usar saia mais comprida”, brinca, revelando o bom humor. Mas, na verdade, mais do que o comprimento da vestimenta, Gabrilli se tornou a primeira deputada federal tetraplégica do Brasil.

Hoje, ela é um dos maiores nomes na luta pela inclusão e por políticas públicas. Para participar de um evento em Bauru (leia mais abaixo), a parlamentar esteve no Café com Política, do JC, e falou sobre a situação da pessoa com deficiência no Brasil. Mesmo com evidente evolução, há pontos em que o país ainda “engatinha”.

Sentada, durante a entrevista, em uma almofada especial que custa R$ 1,5 mil e não forma escaras, Gabrilli sabe que é uma privilegiada. Ela teve todas as condições de ter “tudo do bom e de melhor” após seu acidente. Hoje, tem um instituto que, além de estimular pesquisas científicas, dá a mesma almofada para deficientes de bairros carentes na Capital.

“Só eu posso sentar em uma almofada dessas? Só o rico? Não pode ser assim. Por isso, criamos o ‘Cadê Você?’, que vai até áreas menos privilegiadas e encontra essas pessoas. Por meio de patrocínio, conseguimos melhorar as vidas delas”.

O “Cadê Você”, do instituto batizado com o mesmo nome da parlamentar, é um dos vários projetos e conquistas da deputada e da sua equipe. Contudo, ela sabe que a luta é diária e permanente.

A própria Gabrilli sentiu e sente isso na pele. Em 2010, ela só conseguiu tomar posse como deputada federal na quarta vez que tentou. “Não havia acessibilidade para a tribuna. Falaram que eu precisaria discursar do chão. Eu me recusei. Lutei até conseguir. Foi emocionante”, relembra, revelando que começou agora a luta por acessibilidade na mesa diretora.

Ela, assim como os outros 45 milhões que vivem com deficiência no Brasil, sabe que a “briga” pelos seus direitos é longa. Por isso, defende que é preciso ampla modificação na infraestrutura das cidades.

“As calçadas são os dispositivos mais simples que existem. Elas ligam um lugar ao outro. Precisam passar a ser responsabilidade da prefeitura”, afirma a parlamentar.

Em simultâneo, defende a acessibilidade em edificações. “O prazo da legislação para que as edificações tenham acessibilidade expirou em 2008. Até hoje, não foi cumprida. E há municípios que emitem novos alvarás sem que esteja prevista a acessibilidade”, lamenta.

Mara Gabrilli relata que faltam políticas públicas para inúmeras questões. Assim, vê no terceiro setor grande aliado para a causa das pessoas com deficiência. Tanto que passou a profissionalizá-lo. “As pessoas criam uma ONG após um problema na família. Não sabem como lidar com isso. Nosso trabalho é profissionalizá-los. Ensinar como captar recursos em editais, por exemplo”.

Preconceito

Contudo, mesmo com as inúmeras carências do poder público, o maior desafio parece sempre ser mesmo o preconceito. Preconceito que perpassa pelo despreparo de inúmeros setores em lidar com os deficientes.

“Há a história de uma amiga minha que parece até mentira. Ela é cadeirante e estava grávida. A bolsa estourou e ela foi ao hospital. Chegando lá, disseram que não podiam fazer o parto de cadeirante”, conta.

Por isso, a deputada demonstra que as limitações não são inerentes aos deficientes, mas sim aquelas que são impostas a eles. “Desde que tive o acidente, mudei meu modo de ver o mundo. Mudou minha sensibilidade. É o que ainda falta às pessoas”, finaliza Mara Gabrilli.


‘Tive a sorte de quebrar o pescoço após duas faculdades’, afirma a parlamentar

Formada em psicologia e publicidade antes do acidente, a deputada federal Mara Gabrilli revela que a educação é um dos pontos mais preocupantes quando se fala em inclusão. “Tive a sorte de quebrar o pescoço depois de ter feito duas faculdades. O acesso à educação por parte do deficiente ainda é muito difícil”.

Ela afirma que não há nem mesmo infraestrutura adequada nas escolas para acolher os deficientes. “Só 12% das escolas possuem acessibilidade no Brasil. E desse montante, 80% está na região Sudeste”.

Outro obstáculo é o próprio despreparo dos profissionais para aceitar e lidar com o aluno com deficiência. “Fala-se muito em inclusão no mercado de trabalho. Mas, para isso, é preciso haver uma boa educação antes. É algo que estamos lutando”, complementa.


Deputada participa hoje de workshop em Bauru

Quem quiser ouvir mais sobre políticas públicas, a deputada Mara Gabrilli falará hoje em um workshop promovido na Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru e Região (Assenag). O evento começou na quinta-feira e, além do apoio da parlamentar, foi uma iniciativa do vereador Fábio Manfrinato (PR). “Nossa ideia foi proporcionar esse encontro para somar todas as forças na luta pelos direitos da pessoa com deficiência”, afirmou o vereador.

Hoje, Mara Gabrilli irá fechar o workshop falando sobre “Políticas Públicas para Acessibilidade”. O evento é gratuito e mais informações podem ser obtidas pelo telefone (14) 3235-0641. A Assenag fica na rua Fuas de Mattos Sabino, 10-15, no Jardim América.

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