Bairros

Profissão salva-vidas

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 10 min

João Rosan

Somente em abril, viaturas do Samu atenderam a 3.555 chamados

Resgate, urgência e emergência. Facilmente estas três palavras remetem ao Corpo de Bombeiros e ao Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), ou melhor, ao socorro acionado pela população junto a esses serviços públicos fundamentais para salvar vidas. Mas como trabalham os profissionais do socorro?

Como é a rotina desde a chamada telefônica até o atendimento da viatura? A equipe do JC nos Bairros foi conferir de perto um pouco da rotina do Resgate dos Bombeiros e do Samu (confira nas próximas páginas).

Em Bauru, três quartéis de bombeiros são responsáveis por oferecer suporte aos bairros nos mais diferentes casos, como urgências envolvendo traumas, acidentes com vítimas, quedas de motociclistas, de pessoas, crianças, incêndios, afogamentos e ocasiões em que animais ofereçam risco ou precisam de socorro.

Quanto ao Samu, além da sede na avenida Engenheiro Luiz Edmundo Carrijo Coube, outras quatro bases oferecem suporte à urgência e emergência (veja quadro ao lado). Apesar de trabalharem separados, quando necessário, um serviço apoia o outro.

 

Trotes

A brincadeira de mau gosto, feita muitas vezes por crianças, pode custar caro e até mesmo impedir que os profissionais dos Bombeiros e do Samu salvem vidas. Atualmente, a maior parte dessas chamadas é identificada pela experiência e treinamento dos próprios atendentes. Mas quando chegam até as viaturas, os danos vão desde o desperdício de tempo dos profissionais ao desgaste das viaturas. Além disso, o socorro às chamadas reais pode atrasar devido a ocorrências falsas.

“Campanhas ajudaram a conscientizar as pessoas e os atendentes hoje estão mais preparados para identificar as chamadas, por isso os trotes caíram, mas ainda atrapalham”, acrescenta o tenente do Corpo de Bombeiros Cláudio Augusto Antunes Silva.

De acordo com o médico e coordenador do Samu de Bauru, Carlos Eduardo Sacomandi, cerca de 10% das chamadas recebidas pela urgência e emergência são trotes.

 

 

 

Bombeiros (193)

 

- Rua Marcondes Salgado, 2-32, Centro. Telefone: (14) 3222-5553.

- Avenida Joaquim Marques de Figueiredo, 1-90, Distrito Industrial. Telefone: (14) 3231-2359.

- Rua Carlos de Campos, 5-56, Vila Falcão. Telefone: (14) 3218-0276.

 

 

Samu (192)

- Avenida Engenheiro Luiz Edmundo Carrijo Coube, 10-60, Geisel. Telefone: (14) 3203-1630.

- UPA da Bela Vista: Rua Marçal de Arruda Campos, 4-45. Telefone: (14) 3102-1234.

- UPA Mary Dota: Rua Pedro Salvador, quadra 2. Telefone: (14) 3109-2460.

- UPA Ipiranga: Rua José Miguel, 21-500. Telefone: (14) 3106-1121.

- Base Nações Unidas: rua Joaquim Fidélis, quadra 1. Telefone: (14) 3214-3830.

 

Entre urgências e emergências 

Orientações, atendimentos clínicos adultos, pediátricos, obstétricos, psiquiátricos, queimaduras, intoxicações, além de pacientes vítimas de traumas, colisões, capotamentos, atropelamentos e agressão física. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) atende de tudo, segundo o médico e coordenador do Samu de Bauru, Carlos Eduardo Sacomandi. Entretanto, os casos clínicos representam a maior demanda. Em abril, o total de saídas com viaturas foi de 3.555, ao menos 2.850 foram chamadas de casos clínicos.

Na luta contra o tempo, cada segundo pode valer uma vida. Além de enfrentar o trânsito, os socorristas precisam vencer a distância que separa a base do local do chamado. E nem todos colaboram. De acordo com o relato dos profissionais, muitos motoristas dão passagem para as viaturas, mas sempre há os que não colaboram.

E tal distância é reduzida pela velocidade das duas motos que seguem na frente das ambulâncias para agilizar o serviço de atendimento.

 

192

Entre os bairros que mais acionam a urgência e emergência do Samu estão o Parque Jaraguá, a Pousada da Esperança, o Jardim Solange e o Mary Dota por serem regiões populosas. “O Bela Vista também está entre os bairros que mais acionam o 192 por ser uma região grande e com um percentual elevado de idosos”.

E basta tocar o telefone para que uma equipe ganhe as ruas em busca de salvar vidas. Normalmente, a equipe é formada por um motorista com treinamento de urgência, um médico, uma enfermeira e um auxiliar. Há as Unidades de Serviço Básico (USB) e Unidades de Suporte Avançado (USA), viaturas que funcionam como uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) móvel. 


 

 

 

Entre a vida e a morte

 

“Nossa rotina é feita de sucessos, mas às vezes de insucessos. Sou médico há 30 anos, estou no Samu desde que o serviço foi implantado e estamos acostumados a lidar diariamente com a vida e com morte em atendimentos de urgência e emergência. Mas quando há óbito, vem aquele sentimento de não ter conseguido. É muito gostoso quando você consegue reverter o quadro e fazer o coração da pessoa voltar a bater, e por muitas vezes isso já aconteceu”, relata o médico Carlos Augusto Cameschi. 

Entre as ocorrências que o emocionaram, ele destaca o atendimento feito a um esfaqueado no tórax com perfuração no coração. Para salvar a vítima, ele penetrou o dedo em seu coração. “Naquele momento, a pressão arterial que estava a zero foi a 16 por 10”.

E Cameschi permaneceu com o dedo no coração do paciente até entrar no centro cirúrgico, esperar o cirurgião abrir o tórax e conseguir fechar a abertura feita pela faca no coração da vítima. “E ele sobreviveu. Isso sem mencionar os partos que realizamos com certa frequência e as pessoas que atendemos diariamente em acidentes.”

 

 

Juntos por um único objetivo: salvar 

 

Na tarde do último dia 14, a equipe do JC acompanhou o Samu a um chamado de caso clínico e pôde sentir, mesmo de longe, um pouco da adrenalina que permeia a rotina desses profissionais.

O telefone toca na central de atendimento e mais uma equipe se prepara rapidamente para a luta contra o tempo. A ligação pedia socorro para um homem que apresentava sinais de infarto. Poucos minutos depois, a equipe que saiu da sede do Samu chega ao local do chamado, quadra 1 da rua José Valério Filho, no José Regino. Com agilidade e precisão, os socorristas conduzem o paciente à ambulância.

Aparentando sintomas de infarto agudo do miocárdio, o coração do paciente deixou de bater e passou a contrair sem efetividade de mandar sangue para os órgãos, principalmente para o cérebro, de acordo com o médico do Samu Carlos Augusto Cameschi. 

Imediatamente teve início a ressuscitação cardiopulmonar, com massagem cardíaca, oxigenação, acesso venoso e a intubação, além de todo o procedimento necessário, de acordo com o médico. Mas, apesar de todos os esforços da experiente equipe, o paciente não respondeu aos estímulos. “Nesses casos, o protocolo pede 20 minutos de tentativa de ressuscitação, e a equipe investiu quase 45 minutos porque o cérebro ainda reagia. Possivelmente ele teve um infarto muito extenso de uma artéria coronária bastante importante.”

 

 

Uma surpresa a cada chamado

 

“Trabalho no Samu há oito anos e posso dizer com certeza que gosto de trabalhar com urgências e emergências. Lidar com a população é um trabalho que eu faço com prazer, principalmente porque temos a oportunidade de salvar vidas. Este é um trabalho que pede bastante atenção e que precisa ser feito com amor para dar certo. A gente até perde as contas de quantas ocorrências nos emocionam, seja porque tivemos bons resultados ou porque não foi possível salvar a vítima. E cada chamado é uma surpresa. Às vezes vem um chamado para um tipo de atendimento, você chega até o local e a situação é outra, por isso precisamos estar preparados para tudo quando entramos em uma ambulância. É muito comum recebermos chamados de gestantes com dores e, ao chegarmos ao local, nos deparamos com a criança já nascendo. E quando isso acontece, nós fazemos o parto. Eu mesmo já fiz vários partos no dia a dia do nosso trabalho. A emoção de ver e de ajudar uma criança nascer com saúde é uma emoção que não tem igual. Isso marca a gente para sempre. É mais uma vida que vem ao mundo”.

 

 

 

Resgate em ação 

 

Basta o Centro de Operações dos Bombeiros (Cobom) dar o alerta depois de receber uma ligação de emergência para que a equipe do resgate se posicione na viatura e “invada” as ruas para levar socorro.

 

Para retratar um pouco dessa rotina, no último dia 13 o JC acompanhou uma equipe de resgate dos Bombeiros do Centro, onde fica a sede do 12º Grupamento de Bombeiros. Entre os ingredientes da profissão, adrenalina “a mil” e determinação não faltam (leia mais abaixo). 

 

A Unidade de Resgate do Corpo de Bombeiros atende as ocorrências de traumas, como acidentes de trânsito, quedas e atropelamentos, por exemplo. E como não podia deixar de ser, a maioria dos acidentes é registrada nos horários de pico do trânsito, ou seja, pela manhã, na ida ao trabalho, no horário do almoço e também à tarde, no retorno para casa.  

 

De acordo com o tenente Cláudio Augusto Antunes Silva, há dias em que a viatura do resgate sai oito vezes, seis, duas... “Cada dia é diferente do outro, mas os horários de pico são os responsáveis pela maioria das ocorrências. O Centro, onde há grande movimentação de motoristas e pedestres apressados, costuma gerar muitos chamados”, pontua.  

 

A distância é fator de demora no atendimento, assim como as ruas de terra e buracos que também podem atrapalhar o socorro. A guarnição de resgate é composta por três homens na viatura: o motorista, o comandante e o auxiliar, além de duas motos que trabalham agregadas à viatura principal e têm condições de vencer o trânsito, chegar primeiro à ocorrência e dar todo o suporte à vítima, já que possui o mesmo material de resgate do carro, inclusive o desfibrilador automático. 

 

 

‘Resgate a postos’

 

“Resgate a postos”. Esse foi o alerta dado para o atropelamento de um ciclista faltando poucos minutos para as 18h da última segunda-feira. O acidente aconteceu sob o viaduto Casimiro Pinto Neto, no trevo da avenida Nações Unidas, que dá acesso à rodovia Marechal Rondon. Na volta do trabalho, um automóvel colidiu contra um rapaz que seguia pela mesma via, de bicicleta.

Equipe no carro, sirenes ligadas, luzes acesas e viatura “a mil”. Cena digna de cinema. Tudo para tentar salvar a vítima. No percurso feito em poucos minutos (nem mesmo o trânsito lento do horário atrapalhou) foi possível observar os olhares curiosos e assustados dos ocupantes dos veículos que abriam caminho para o resgate.

Ao chegar ao local, na “cola” da viatura dos Bombeiros, quase não deu tempo da equipe do JC nos Bairros descer do carro e os socorristas já atendiam a vítima, que aparentemente não apresentava ferimentos graves. Quando o assunto é salvar vidas, segundos fazem a diferença.

“Não dá tempo nem de saber os motivos do acidente. A gente chega atendendo as vítimas o mais rápido possível”, destaca o sargento Davi Correa de Godoy, que na ocasião trabalhou com os soldados Rogério de Oliveira Farias, Lucas Pasti Mioni, além de Luiz Carlos de Oliveira Barros Júnior e André Henrique Barbosa Breda nas motocicletas.

 

Amor à vida

“Estou no Resgate do posto do Centro há dois anos e no Corpo de Bombeiros há 27 anos. O Resgate começou em 1991 e eu fiz o curso no antigo Serviço de Resgate, em São Paulo, além de outros cursos de aperfeiçoamento. Em primeiro lugar, eu tenho amor à vida e acho que trabalhar nos Bombeiros é muito gratificante porque a gente pode trabalhar diretamente com quem precisa de ajuda. Poder salvar vidas, dar o sangue por isso é especial. As pessoas comentam sobre o nosso serviço, elogiam e eu digo que é uma profissão gratificante, da qual eu gosto muito de fazer parte. As ocorrências e as dificuldades são diárias e, apesar de estarmos preparados e habituados para atender os chamados, sempre há uma ocorrência que marca, e sempre há aquela que você não é capaz de esquecer. Quando eu trabalhava em São Paulo, fomos atender um acidente envolvendo um carro e uma carreta, e o automóvel estava em chamas com uma família inteira dentro. Socorremos a mãe e um dos filhos, mas um dos irmãos morreu carbonizado. Isso me chocou bastante, apesar de termos conseguido salvar duas vidas”.

 

 

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