Éder Azevedo |
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Baú que guarda parte da memória da cidade será aberto em 2028 |
A Semana Nacional de Museus, comemorada neste mês, impulsionou as comunidades da região a visitar esses locais e a conhecer um pouco da história de seus municípios e da população que vivia ali em épocas passadas. A maioria deles retrata a realidade das cidades e região a partir de objetos, fotos, documentos, geralmente doados pela própria população. Na região, vários municípios mantêm suas relíquias guardadas para preservar a memória de seu povo.
A Semana Nacional de Museu acontece uma vez por ano para comemorar o Dia Internacional de Museus. Nessa época do ano, os museus brasileiros desenvolvem uma programação especial para atrair o público composto de crianças, adolescentes, adultos e integrantes da 3ª idade. Este ano são 1.250 museus e organizações culturais que participam da 11ª Semana de Museus, promovendo 3.911 atividades em todo o País.
O evento, organizado pelo Instituto Brasileiro de Museus, movimenta as comunidades e leva milhares de pessoas a conhecer esses espaços. Na região, os municípios de Araçatuba, Araraquara, Avaí, Bauru, Botucatu, Duartina, Jaú, Lençóis Paulista, Lins, Santa Cruz do Rio Pardo, São Carlos, São Manuel e Tupã participam.
Em Duartina, o museu municipal foi ocupado por uma exposição e apresentações culturais e sociais do Projeto sociocultural “Espaço Crescer”, desenvolvido há 10 anos pelo município, atendendo crianças, jovens e adultos.
O Museu Alexandre Chitto em Lençóis Paulista tem 3 mil peças catalogadas, dentre elas uma cama que foi usada por D.Pedro II em uma de suas visitas pela região. Outro atrativo do local é a Igaçaba, uma urna funerária feita de argila, moldada com os dedos pelos índios artesãos que servia para enterrar crianças. Durante a Semana, eles realizaram exposição de fotos e desenvolveram palestras. A exposição foi batizada de “Assim Começou...”.
O Museu Histórico Pedagógico “Índia Vanuire”, em Tupã, reúne um acervo focado em peças de artesanato indígena e fotos de tribos que habitavam a região oeste de São Paulo. Na semana do evento foram realizadas várias oficinas.
O Museu Histórico e Pedagógico Marechal Cândido Rondon possibilita ao visitante conhecer a história de Araçatuba e região. Reúne objetos das famílias dos pioneiros. Recebe em média 500 visitantes/mês. Na semana, o museu ofereceu uma exposição composta de 32 trabalhos do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, batizada de “Esta sala é uma piada 2ª Edição”, centrada na intolerância.
O Museu Histórico e Pedagógico Padre Manoel da Nóbrega, em São Manuel, também participou do evento com uma exposição de artes plásticas da artista Rosângela Zullo. Em Avaí, o Museu Francisco Pitta ofereceu ao visitante durante o evento a exposição “Centenário Indígena”.
Em Botucatu, o Museu de Arte Contemporânea Itajahy Martins promoveu três eventos durante a Semana. Mangá para crianças e arte e transformação social. O Museu Histórico e Pedagógico Ernesto Bertoldi de Santa Cruz do Rio Pardo participou com a exposição sobre futebol. Em Lins, o Museu Histórico e Arqueológico promoveu seminário, painel e mesa redonda com o objetivo de apresentar o museu como ponto de partida para uma mudança cultural na sociedade.
Em Duartina, uma viagem no tempo
Uma batedeira manual de bolo feita de vidro com batedores de madeira da década de 10. Ferros de passar roupas que esquentavam com brasa, escovão de ferro para lustrar o assoalho da casa. Esses são alguns dos utensílios domésticos que estão expostos no Museu Municipal de Duartina. Visitar o local é uma viagem que encanta e nos faz pensar o quanto nossos antepassados sofriam para realizar as tarefas domésticas.
O museu é temático e conta um pouco da história de Duartina, especialmente da comunidade que vivia naquele município em época passadas. O museu foi fundado em 1999 e dedica salas a setores diferentes da sociedade, explica a responsável, Marisa Emília dos Santos. “São salas temáticas: sala da comunidade, imigrante, escola, prefeitura, sala de exposição, cinematográfica, saúde, religiosidade, ferrovia, cozinha e a reserva técnica, além da área de documentação. Todo acervo do museu é catalogado. Hoje temos 1.688 peças registradas e catalogadas.”
Cada sala tem um toque especial. Objetos guardados com muito carinho e conservação por moradores de décadas passadas. “O acervo foi totalmente doado pela comunidade. São peças, fotos, documentos. Uma foto mostra a cidade de Duartina toda cercada para que a comunidade se protegesse dos animais selvagens.”
Fotos
O registro de que o município nasceu com a instalação de uma estação ferroviária, o visitante poderá ver através de fotos. “Toda a região nasceu pelo trajeto da ferrovia. Era por ordem alfabética: Alba, Brasília Paulista, Cabrália e Duartina. Depois vinha: Esmeralda, Fernão e Garça.”
A religiosidade da comunidade poderá ser conhecida através de fotos, objetos e roupas expostos no museu. “O padre Jorge ficou na cidade por 43 anos. Dele temos vários objetos guardados por aqui. Ainda há moradores que veem até aqui fazer orações para ele. Temos a bata do padre Donizete, de Tambaú, e também os pertences do padre Carlos Antônio Pessoa, que já morreu.”
Uma carteira de habilitação de carroceiro é dentre os documentos aquele que mais chama a atenção. “A carta mostra que antigamente (1946), em Duartina, para conduzir uma carroça, o carroceiro precisava ter habilitação. Temos ainda as placas de carroças e bicicletas que eram registradas pela prefeitura. Nenhum desses veículos poderia circular pelas ruas sem estar registrado”, diz Marisa.
A primeira sala do Museu Municipal de Duartina é dedicada ao Imigrante. Fotos e documentos contam a história do imigrante que se instalou na cidade. Malas, balança, telefones e máquina de costura fazem parte do cenário.
A segunda sala é da prefeitura onde se vê a escrivaninha onde o prefeito José Sebastião Pupo despachava. Coberta com notas de dinheiro que já não valem mais como moeda, mas como lembrança. Rádios, máquina de escrever, máquina de somar, talão de cheques e o primeiro telefone da prefeitura estão entre as relíquias guardadas.
Um livro de registro de animais chama a atenção. Nele, todo proprietário de animal fazia seu registro, inclusive de compra e venda. Interessante ver que no livro o cavalo de 8 anos é registrado como do sexo masculino, e não como macho. As marcas de S e C do lado direito da coxa não foram esquecidas para diferenciar o animal dos demais.
Na terceira sala, dedicada à escola, é possível conhecer as antigas carteiras em que os alunos sentavam. Dentre os livros estão os da série “Caminho Suave”, que passaram décadas ensinando nossas crianças a ler.
Na sala de exposições, o projeto Crescer. “É uma exposição temporária realizada para mostrar o projeto Crescer que já contabiliza 10 anos.”
Na sala do cinema, peças raras que encantam no olhar. Um disco de alumínio de tamanho grande de 1949, dentre outras coisas, figuram entre os que mais atraem a atenção do visitante. Rádio vitrola, discos de rotação 45, projetor, poltronas de cinema, eletrola, filmes da década de 60, amplificador de fotos e mais uma coleção de discos de cantores famosos.
Na sala/religião, um imponente órgão e um confessionário tomam conta do espaço. Há ainda um sino da igreja, roupas de padres, objetos religiosos, relíquias da igreja que leva o nome de Santa Luzia.
Na sala da saúde, uma mesa ginecológica
e um gabinete de dentista mostram um pouco de como eram os consultórios de antigamente. Em uma vitrine, a caixa de alumínio que guardava a seringa de vidro e o esterilizador das agulhas e seringas. A maleta cirúrgica do Dr. Benjamim Constante Marsiglio também faz parte do acervo.
No corredor que leva até a cozinha da casa uma exposição de fotos que mostram o ontem e o hoje da cidade. Na copa, peças da ferrovia. Um registro mostra que, de Duartina a São Paulo, a viagem demorava 12 horas.
Louças, cristaleira, buffet, chaleiras, fogão e geladeira com interior em cor de rosa tornam o cenário uma viagem no tempo. Latas de bolacha e de achocolatado estão expostas para delírio dos visitantes.
História da casa
O museu de Duartina está instalado em uma casa construída na década de 30. De arquitetura exuberante, estilo colonial português, ela tem esquadrias de madeira importada da Inglaterra. Parte de seus vitrais é de origem belga da década de 40.
“Essa casa já foi prefeitura e residência. Na época da guerra, aqui era distribuído sal e açúcar para a população. Esse prédio foi prefeitura quando o prefeito era Lindolfo Alves. A partir de 1962 o senhor Lourenço Louzano Jr. e sua esposa Maria Assunção Pereira Louzano e seus dois filhos, passaram a residir no local. Após o falecimento do casal a casa ficou fechada . No dia 6 de maio de 2005, o prefeito municipal Ênio Simão alugou o prédio para acomodar o museu municipal e a biblioteca.”
Baú do tempo
No ano de 2003, uma campanha desenvolvida entre os moradores da cidade de Duartina ‘arquivou’ por 25 anos fotos, cartas, documentos da época. O baú será aberto em 2028 e, só então, a população conhecerá como o duartinense vivia na cidade naquele tempo.
“O Projeto Baú do Tempo tem um pouco de tudo o que era realidade em 2003 na cidade. Sobre as escolas, marcas de produtos, recados etc. Lacramos com proteção para que ele seja aberto somente depois de 25 anos. Muitos moradores nos procuraram para abrir e saber o que seus familiares que já morreram deixaram registrado.”
Visitação
O Museu Municipal de Duartina funciona de terça a sexta-feira, das 7h às11h e das 13h às 17h, e aos sábados das 8h às 12h.
“Procuramos sempre interagir com a população porque um povo sem história é um povo sem memória, e sem memória é sem cultura. Promovemos exposições mostrando o trabalho dos artistas plásticos da cidade e região. Muitas vezes com o próprio acervo do museu que está guardado. Para que as crianças em idade escolar venham visitar o museu e encontrar coisas novas. Fazemos parte do roteiro Caminhos do centro Oeste Paulista. No começo deste ano participamos do evento Roda São Paulo, que trouxe muitos turistas, foi muito interessante. A intenção do prefeito é construir o museu no ecoparque para facilitar o acesso”, diz Marisa Emília dos Santos.
Pratânia tem museu de Tonico e Tinoco
A cidade de Pratânia é famosa por abrigar inúmeras lojas e fábricas de confecção em couro. É vizinha da cidade de São Manuel e na região de Bauru. O município tem raízes caipiras e mantém desde 2000 um museu dedicado à dupla caipira Tonico e Tinoco - que nasceram lá.
O acervo traz toda a discografia, além de objetos e informações sobre a trajetória dos artistas. A casa onde nasceu Tinoco que estava no bairro de Guarantã foi reconstruída ao lado do museu, dando todo o charme necessário para os visitantes interessados.
“A dupla se apresentou pela primeira vez em agosto de 1935 como profissionais na cidade de São Manuel. O acervo tem três mil peças, roupas usadas nos shows, discos, CDs, troféus,” comenta a diretora de turismo da cidade, Eliana Aparecida Leite. Segundo ela, a casa onde nasceu Tinoco faz parte do acervo.
A casinha reconstruída é a peça que mais chama a atenção do visitante, segundo a diretora. “É feita de madeira e confeccionada de maneira bem antiga. Tem fogão de lenha e peças usadas pela família quando Tinoco ainda era criança. Os móveis e utensílios domésticos, como um ferro a brasa, dão um charme à parte.”
Na 11ª Semana de Museus, de acordo com Eliana Leite, os alunos das escolas públicas municipais e estaduais visitarão o museu. “Essa semana a visitação é focadas nos alunos que conhecerão a história dos irmãos Tonico e Tinoco. Fazemos um trabalho conjunto do departamento de turismo e cultura. Promovemos roda de viola com a terceira idade.”
Aniversário
No mês de novembro, quando é comemorado o aniversário de Tinoco, os departamentos de Turismo e Cultura promovem o “Café com Tinoco”. “Quando ele era vivo, chegou a participar. Atualmente, ele é homenageado. Nessas ocasiões exibimos vídeos da dupla, tem música na casa e café da manhã com a terceira idade.”
A visitação do museu é em média de 200 pessoas durante a semana. O público dobra nos finais de semanas e feriados, especialmente durante o inverno, quando os visitantes chegam a Pratânia em busca de roupas e botas de couro. “O atrativo é a confecção em couro. O turista vem e, depois das compras, eles visitam o museu.”
As visitas são acompanhadas por agentes culturais que vão contando parte da história para os visitantes. “Eles vão mostrando e contando a trajetória da dupla caipira, desde a infância até a chegada à Capital.”
Tinoco nasceu no bairro de Guarantã, em Pratânia, e Tonico nasceu em São Manuel. A dupla contabilizou 60 anos de carreira, gravou 83 discos que foram lançados e teve 150 milhões de cópias vendidas. Durante a carreira eles fizeram mais de 40 mil shows. Tonico & Tinoco foi considerada a dupla caipira mais importante da história da música brasileira e a de maior referência.
Serviço
De segunda a sexta-feira, o horário de funcionamento é das 8h às 17h; aos sábados e domingos, das 9h às 16h. A visitação é gratuita.