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A solidariedade deixa o mundo terreno

Rita de Cássia Cornélio com Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 7 min

Sebastião Paiva começou a trabalhar aos 11 anos para ajudar no sustento de sua família composta da mãe e seus cinco irmãos. Era órfão de pai, que morreu vítima da tuberculose. O espírito solidário, segundo familiares, aflorou quando ele era um jovenzinho, morador de Dois Córregos. Ao lado de colegas, ele recolhia alimentos para ajudar as famílias carentes daquele município.

A prática de fazer o bem sem olhar a quem frutificou e, em 1942, quando foi transferido para Bauru como telegrafista da Estrada de Ferro São Paulo/Goiás, foi prestar serviços aos necessitados no Lar dos Desamparados e no Centro Espírita Amor e Caridade. Em 1945, iniciou a trajetória na filantropia de Bauru, fundando a Sociedade Beneficente Cristã. Foi nessa época que ajudou a construir moradias para as famílias carentes.

O sobrinho Laudemir Bologna lembra que Sebastião Paiva era ferroviário aposentado e o idealizador das entidades que ficaram conhecidas como Paiva. “Ele nasceu em 8 de abril de 1909, em Bebedouro. Ficou órfão aos 6 anos”, lembra.

“Ele começou dando assistência a famílias carentes. Fundou a Casa da Criança, Abrigo de Idosos, um hospital psiquiátrico e um hospital para tuberculosos. Para construir esse legado, contou inicialmente e por muitos anos com a colaboração de Roberto Previdello, que, à época, era um gerente de banco; e com Joaquim Figueiredo, proprietário de uma construtora. Claro que outros voluntários vieram para trabalhar, mas na fundação, eram os três.”

O colunista social do JC Miguel Daré revela o aprendizado da convivência. “Seo Paiva foi um missionário, benemérito e o filantropo de Bauru, tudo se resume a ele quando penso em amor ao próximo e a caridade. A maioria das pessoas que se dedicam ao próximo tem sua vida à parte,  tem sua familia, filhos, netos...Seo  Paiva teve toda sua vida dedicada a milhares de “filhos e filhas” que passaram e passam por suas obras de amor. Igual a ele só Chico Xavier, Madre Tereza de Calcutá, Irmã Dulce. Agradeço a Deus por ter convivido um pouco com um santo aqui na terra”, falou, emocionado.

Incontável

O braço direito e esquerdo dele no atendimento aos carentes era Anita Camillo, que morreu no ano passado. João Carlos Previdello frisa que Anita era sobrinha de seu pai, Roberto Previdello. “Era uma funcionária pública aposentada que dedicou sua vida ao trabalho filantrópico junto ao Paiva.”

Bologna não calcula quantas pessoas foram beneficiadas pelas ações que Sebastião Paiva desenvolveu em Bauru. “Muitos dos que passaram pelas entidades se casaram, estudaram e estão vivendo graças ao apoio que ele deu. Muitas das crianças que passaram por aqui são profissionais de destaque no mercado de trabalho. Ele começou dando assistência material, alimento principalmente. Construiu 36 casas de madeira na região da Hípica e deixava os carentes morarem sem pagar aluguel. Atualmente, as entidades atendem 200 idosos, 50 crianças e oferecem 200 cestas básicas.” 

Para a família, segundo o sobrinho, Paiva também era o apoio. “Sempre deu assistência de toda espécie aos familiares, ouvindo e orientando seus irmãos, sobrinhos e parentes. Sempre teve uma palavra amiga.”

Bologna, que faz parte da diretoria das entidades, explica que o trabalho continua. “O Sebastião Paiva deixou tudo pronto para prosseguirmos com o trabalho das entidades. Está tudo encaminhado, instruído. Não há impedimento algum para dar continuidade.”


Recados do mundo espiritual

Ao completar 100 anos, Sebastião Paiva lançou um livro psicografado por ele, “Histórias e Recados do Mundo Espiritual”. No último capítulo, há uma obra resumida do autor. À época, ele declarou que o segredo para a longevidade é fazer o bem para todas as pessoas.

Segundo o sobrinho Laudemir Bologna, os últimos dias de Paiva foram vividos intensamente com a calma e tranquilidade que lhe era peculiar. “Ele sabia que estava indo. Deixou tudo arrumado para a partida. Não tinha uma dor sequer. Seus exames médicos estavam todos com resultados bons para a idade dele.”

Quando completou 99 anos, Paiva declarou: “Estou no fim da vida e tenho certeza de que estarei vivo, porque a doutrina espírita me ensinou que há outra vida além dessa. Nesse outro mundo, vou reencontrar meus amigos e parentes. Minha alegria é saber que estarei vivo depois de abandonar este corpo cansado.”


Cerca de mil pessoas acompanham velório

Cerca de mil pessoas compareceram ao velório realizado no escritório da Sociedade Beneficente Cristã, ontem, para prestar as últimas homenagens a Sebastião Paiva. O local foi tomado por coroas de flores, além da comoção e consternação de representantes de vários setores da sociedade, entre eles funcionários do Paiva, famílias que foram assistidas pela entidade, representantes de instituições de assistência social de Bauru e autoridades da cidade.

Ao longo do dia, passaram pelo local o prefeito Rodrigo Agostinho; o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti; a titular da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo, o deputado estadual Pedro Tobias; a diretora técnica regional da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo (Drads) em Bauru, Maria Perroni; o juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer; o desembargador federal do Trabalho Edmundo Fraga Lopes; entre tantos outros nomes públicos. 

Por volta das 16h, o corpo de Sebastião Paiva seguiu em direção ao cemitério Jardim do Ypê acompanhado por dezenas de veículos. Toda a mobilização dava a dimensão do respeito e admiração que ele conquistou ao longo de uma vida toda dedicada à benemerência.

Maria Perroni, diretora técnica regional da Drads, conta que acompanhou de perto o trabalho de ‘seo’ Paiva, durante os dez anos em que ela trabalhou como voluntária na Sociedade Beneficente Cristã. “Ele foi um símbolo de filantropia e humildade. Sempre foi uma pessoa iluminada e é uma grande perda para Bauru, mas sua grande obra será perpetuada nas mãos das pessoas que ele preparou antes de sua partida”, comenta.

Fundadora da Associação de Apoio a Pessoa com Aids de Bauru (Sapab), Mafalda Sparapan lembra que as ações de Sebastião Paiva, por diversas vezes, transcenderam os muros das entidades que fundou. Foi ele, por exemplo, quem doou o imóvel que, hoje, abriga as atividades da Sapab, no Parque Jaraguá.

“Isso foi em 1991. No ano seguinte, a casa começou a funcionar. É incontável o número de pessoas assistidas desde então. O lugar do seo Paiva já está reservado no céu. Nós, aqui na Terra, ainda temos de lutar muito e, nem assim, chegaremos perto de tudo o que ele fez”, destaca Mafalda.


‘Bauru perde seu Chico Xavier’, diz deputado

Outra autoridade que lamentou muito a morte de Sebastião Paiva foi o deputado estadual Pedro Tobias (PSDB). Ele destacou que o benemérito era uma figura inigualável na área da solidariedade em Bauru e acredita que a morte dele é a “perda do símbolo de solidariedade”.

O deputado relembra que a caridade do ‘seo’ Paiva era algo impressionante. “Igual ao Paiva, aparece, com sorte, um ou dois em cada século. Ele era uma pessoa sem igual. Vai ter que passar muitas gerações para aparecer alguém parecido a ele”, disse Tobias. “Para mim, Bauru perde seu Chico Xavier”, complementa.

O deputado, que foi até o velório na tarde de ontem, ainda fez questão de apontar que a caridade de Sebastião Paiva “não era algo artificial”. “Ele não tinha pretensão de ser político ou coisa alguma desse tipo. Tudo que fazia era de coração. Ele chegava a sair da própria cama e deixar para os mais pobres dormirem lá”.

Emocionado, Pedro Tobias ainda disse que Paiva deve estar, agora, no “melhor lugar que existir”. “Se existe porta do céu, ele entrou direto”, conclui o deputado.

Para a presidente da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Bauru, Olga Bicudo, a cidade perdeu uma pessoa cristã. “Uma pessoa benemérita. Ele não deixou de atender nenhuma pessoa que bateu à sua porta. Tenho certeza de que o céu está muito feliz e em festa com a chegada dele. Perdemos um grande amigo, irmão fraterno, mas também acredito que chegou a hora dele. Ele cumpriu a missão dele na terra com dignidade, com a presença de Deus na vida dele.”

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