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Paiva encerra ciclo de amor

Rita de Cássia Cornélio com Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 6 min

Homem culto, de simplicidade singular e que mudou a história da assistência social em Bauru, Sebastião Paiva morreu na madrugada de ontem, vítima de pneumonia. Ele estava internado no Hospital Estadual desde a última sexta-feira, no Centro de Terapia Intensiva, e foi enterrado ainda ontem, no cemitério Jardim do Ypê.

A história de Sebastião Paiva não se esgota nessas páginas, daria para escrever um livro com uma única lição: amor ao próximo. Nenhuma pessoa que bateu à sua porta saiu de mão vazia. Ele acolhia, protegia e amava todos os necessitados, os excluídos. Nos 104 anos de existência na terra, Sebastião Paiva é e sempre será uma referência no movimento espírita, segundo a diretora da União das Sociedades Espíritas Intermunicipal Bauru, Neli Delnery Prado.

“O ‘seo’ Paiva era um símbolo no movimento espírita. Uma pessoa extremamente solidária que deixou sua vida pessoal em benefício do próximo, dedicando-se profundamente a atender às pessoas que o procuravam. Pessoas carentes, principalmente financeiramente, mas a espera de amor, afeto e carinho e isso ele distribuiu muito entre as pessoas que acolheu”, diz.

A ajuda oferecida pelo Paiva ia além do material. “Além de acolher as pessoas materialmente, ele acolhia no seu amor, no seu abraço fraterno, nas suas palavras de carinho, de apoio a todos. Uma pessoa que viveu plenamente o que a doutrina nos ensina e que é exatamente o amor que Jesus também nos ensinou a vivenciar. Referência no trabalho filantrópico.”

Simplicidade

A simplicidade e humildade de Sebastião Paiva eram características que sempre saltaram aos olhos de todos os que o conheciam e, durante o velório, chamou a atenção dos presentes. Sônia Berriel, que acompanha há anos o trabalho dele, simplificou: “Ele deixou um legado. Sempre trabalhou com o ecumenismo, chamando as pessoas de todas as religiões a ajudar o próximo. Eu sou católica e entendo que ele foi para o céu. Para os espíritas, ele está num lugar maravilhoso. A lição que ele deixou para mim foi a caridade. O caixão em que ele foi enterrado, uma urna de mais baixo custo, mostra quem era Sebastião Paiva. Ele sempre nos convidou a doar. Era um ser elevado.”

Para ela, ‘seo’ Paiva era um santo. “Em seus discursos, ele falava sobre a vida, sobre Deus e adotava uma hierarquia de valores nunca vista. Ele nos ensinava o que Jesus nos ensinou, desapego e amor ao próximo.”

Para João Carlos Previdello, que viveu ao lado de Sebastião Paiva desde criança, ele era um missionário. “Conhecia a doutrina espírita como ninguém e a aplicava como ninguém. Tinha algo a mais. Era um grande estudioso, lia muito, tinha uma cultura invejável, mas a filosofia de vida dele é que era algo especial. Morreu num quarto simples, como sempre viveu. Pessoa humilde, sempre atendendo as pessoas, até de madrugada. Nunca saiu de dentro da instituição. Pode ser comparado com Madre Tereza de Calcutá.”


Praticar a doação

João Carlos Previdello teve o privilégio de crescer junto com ‘seo’ Paiva. “Meu pai trabalhava com ele na entidade em 1945, época que nasci. Convivi todo esse período com ele. Mas foi como colaborador da entidade, onde fiquei por mais de 10 anos, que aprendi as melhores lições.”

Na rotina da entidade, Previdello aprendeu que instituição de caridade não é uma empresa e que doar era o ato mais importante no dia a dia. “Muitas vezes eu chegava para colocar um problema da instituição para ele e ouvia: ‘Você está em uma instituição de caridade e não em uma empresa. Calma. Aqui é diferente, nosso ingrediente principal é a doação’. Ele tinha uma maneira de pensar totalmente diferente. Tratava as coisas e pessoas com respeito. A gente pensava que sabia algo, mas quando chegava para ele, ele tinha outra solução.”

Era com os necessitados que Sebastião Paiva fazia toda a diferença. “Ele usava uma psicologia diferenciada com as pessoas que o procuravam. Ele atendia com amor e sempre teve uma palavra amiga. A pessoa carente saía da entidade com outra postura, outra maneira de ver a situação que vivia. Eu aprendi muito com ele, ele incentivava, dava oportunidade para as pessoas. Ele aplicou o ensinamento de Jesus: amar o próximo.”


Um verdadeiro pai

Para a técnica em enfermagem Clenira Ferreira da Silva, 45 anos, ‘seo’ Paiva foi um verdadeiro pai. “Minha mãe e três filhos, um deles era eu, chegamos de Pirajuí. Estávamos doentes e vivíamos nas ruas da cidade. Uma perua do Paiva passou e nos levou para a entidade. Ele nos recebeu de braços abertos.”

A partir daí, a história de Clenira mudou. “Ele nos deu suporte. Cuidou de nós. Não conseguia ir dormir sem pegar um por um no colo. Sempre nos tratou com muito carinho. Fomos morar em uma casa que ele emprestou. Ele conseguiu um benefício para o meu irmão que é deficiente. Acompanhou todos nós durante a vida. Eu casei e tive dificuldade para construir minha casa. Ele pagou para cobrir a casa. Quando meu ex-marido sofreu um acidente, ‘seo’ Paiva apoiou de novo. Eu sou muita grata a ele. Vim me despedir”.


Prefeito decreta luto oficial

O prefeito Rodrigo Agostinho classificou a morte de Sebastião Paiva como uma perda inestimável.  “Ele dedicou a vida toda à caridade, a fazer o bem. A cidade perde um dos grandes nomes da área social. Um exemplo a ser seguido”, frisa. O prefeito decretou luto oficial de três dias, a partir de hoje, em Bauru.

Para a titular da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo, a perda de Sebastião Paiva é algo irreparável em Bauru. Justamente pelo fato de o benemérito ser referência na área de assistência social, ela afirma que a cidade perde um exemplo de como as “coisas deviam ser feitas”.

“Ele era realmente um exemplo de trabalho, de continuidade e, principalmente, de caridade. Recebi a notícia logo pela madrugada e fiquei totalmente consternada”, contou a secretária.

Ela, contudo, destaca que tanto o legado deixado por Paiva quanto o exemplo de suas atitudes caridosas vão continuar. Para Darlene, é isso que “dá esperanças na área da assistência social”.

“Tudo que ele deixou vai permanecer. Acredito também que o exemplo dele servirá de modelo para outros que atuam no bem-estar social. Mas, a morte dele, repito, é um dano irreparável no poder de caridade de Bauru”.

A titular da Sebes ainda ressalta que o “modo de fazer solidariedade” de Sebastião Paiva não é um molde que deveria se limitar somente a Bauru. “Pela trajetória de vida, é um exemplo de referência na área de assistência a ser seguido em todo o Brasil. O ‘andar de cima’ ganhou uma pessoa incrível. A nós, resta lamentar e agradecer por uma pessoa tão especial ter vivido entre nós”, finaliza Darlene Tendolo.

 

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