Tribuna do Leitor

Eu, você, o pastor e o padre excomungado


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O título do artigo pode até parecer que envolve gente demais, todavia, o que engloba milhões de cidadãos brasileiros - e do mundo ? são as atitudes que cada um toma a partir do nível de pensamento, de discernimento, de clareza e de poder que se possui. Tenho visto e lido muitas reações diversas sobre assuntos complexos que envolvem, principalmente, a relação entre orientação sexual e religião, tema esse que, na maioria das vezes, gera preconceito, promove perseguição e afasta amigos e familiares que se amam apenas porque divergem quanto à linha pessoal e íntima de raciocínio e de práxis.

Dividindo o mesmo lado da moeda, temos um pastor e deputado federal que prega que o homossexualismo é passível de cura, tratando seres humanos - iguais a ele e que acreditam no mesmo Deus - como doentes. Aliado a ele, embora em frentes religiosas diferentes, há os jurássicos conceitos da igreja católica que excomunga um padre de opinião divergente, como fez, no passado, com Martinho Lutero. O resultado épico dessa questão, católicos e evangélicos devem compreender bem. Por onde anda o direito de expressão? Penso nos pecados milenares que estão ocultos sob poderes, ternos e batinas, como, por exemplo, a pedofilia.

De anticoncepcionais a preservativos, fiéis de todos os lados e de todos os tempos parecem ter se esquecido do que pregam os ?detentores das chaves do céu?. Pecados menos importantes? Será por isso que não são abordados, discutidos, declarados? Parece que cutucar as próprias feridas está fora de questão, desde sempre e eternamente, pelo visto. As chagas de Cristo, cada vez mais, parecem perder seus propósitos quando se pune, se maltrata, se amaldiçoa em nome de Deus. Como católico, professo uma fé sem fronteiras que respeita, que agrega, que acredita que o Senhor prospera através do amor e não por meio do julgamento falho dos homens.

Perante a intemperança que se vê e desce do alto dos altares sagrados, os direitos humanos parecem também estar se esmorecendo diante de uma nova Idade Média, de uma nova caça às bruxas, diante de um ideal retrógrado que de tão nefasto só pode ser obra do próprio demônio ou dos seus prepostos aqui na terra, que andam por aí, ao nosso lado. Valha-me Desatadora dos Nós! As pessoas têm que ter assegurados os seus direitos básicos. É legal! É legítimo! É constitucional! E a lei ? querida leitora, estimado leitor ? não pode fazer ressalvas e diferenciações a qualquer pessoa, independente do que ela é ou em que ela acredita e isso, verdadeiramente, também deveria ser o princípio básico de qualquer instituição religiosa que diz operar a fé em nome do Senhor.

Dia desses, além dos preconceitos que se multiplicam sobre meus ombros, nesta triste época de discursos tão inflamados quanto torpes, fui questionado sobre a imagem de Nossa Senhora. Ali, com aquela indagação que discuti com respeito, paciência e educação, tive a prova cabal de que o Estado Laico é quase uma mentira sob o manto de uma quase verdade. Essas reflexões sempre trazem ao transbordo do meu coração, um refrão de uma canção que vira e mexe cantarolo por aí, A Luz de Tieta, de Caetano Veloso: "Toda noite é a mesma noite / A vida é tão estreita / Nada de novo ao luar / Todo mundo quer saber com quem você se deita / Nada pode prosperar...". Pensamento da semana: Meu coração já foi apunhalado muitas vezes. Entretanto, como eu mesmo, ele insiste em resistir.

O autor, Anderson Prado de Lima, é vereador (PV) de Lençóis Paulista, delegado municipal do Conselho Federal Parlamentar, diretor-secretário da Associação Comercial e Industrial de Lençóis Paulista, diretor da Revista O Comércio, formado em Letras e Marketing de Varejo

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