Dedicação, arte, vontade e superação de obstáculos são palavras de ordem que inspiram todos os envolvidos no projeto “Arte Superação – Dançando Para Simplesmente Ser”. Com apoio da Lei Municipal de Estímulo à Cultura, o trabalho – coordenado pela arte-educadora e coreógrafa Nadja Goes Axcar – envolve deficientes auditivos e outros interessados em “Dançar Para Simplesmente Ser”.
O resultado do trabalho de quase um ano culminou no espetáculo “Ubuntu”, uma dança contemporânea de raízes afro-indígenas. A apresentação está marcada para acontecer no dia 9 de junho, às 15h, no Teatro Municipal. A entrada é gratuita.
Nadja explica que “Ubuntu” foi baseado em um trabalho anterior, que perdurou dos anos de 1988 a 1992, com o elenco da Cia. D.A. Corpore, em uma apresentação em que deficientes e não deficientes têm as mesmas performances provocando o público, que leva a se perguntar: “Onde está a diferença”?. O grupo de dança pertencia ao Cedalvi da Universidade de São Paulo (USP) de Bauru.
“O sucesso do trabalho, na época, foi tão abrangente que apareceu no Fantástico, da Globo. Neste grupo participaram 30 deficientes auditivos, uma deficiente de linguagem, uma deficiente física em cadeira de rodas e oito ouvintes”, explica a coreógrafa.
Após o resultado e repercussão deste trabalho, nasceu assim uma “semente” para que, mais adiante, Nadja criasse outro projeto com a participação de pessoas com necessidades especiais. Em 2011, a profissional conta que decidiu inscrever a mesma proposta na Lei Municipal de Estímulo à Cultura. “Agora, o projeto acontece de forma independente, sem vínculos com nenhuma instituição, levando o portador de deficiência auditiva e outros interessados a subir no palco e mostrar seus dons artísticos”, ressalta.
“Os ensaios aconteceram no auditório da Secretaria Municipal de Cultura, que nos acolheu e proporcionou tranquilidade de trabalho”, alegou a arte-educadora, que também é diretora da Cia Teatral Maria Flor. São apoiadores da iniciativa: Felippe Imóveis, Funcraf, Jornal da Cidade e Phonak Bauru.
Ubuntu: uma pequena história
Um antropólogo que estudava os usos e costumes de uma tribo africana propôs uma brincadeira inofensiva às crianças. Encheu um pote com doces e guloseimas e colocou-o debaixo de uma árvore. Depois, chamou as crianças e combinou que, quando desse o sinal, elas corriam para o pote e quem chegasse primeiro ficava com todos os doces que estavam lá dentro.
As crianças posicionaram-se na linha de partida que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando deu o sinal, todas as crianças deram as mãos e começaram a correr em direção à árvore onde estava o pote. Quando lá chegaram, distribuíram os doces entre si e começaram a comê-los.
O antropólogo perguntou por qual razão tinham ido todos juntos quando, o primeiro a chegar, ficaria com tudo que havia no pote e, assim, comeria muito mais doces. As crianças responderam: “Ubuntu, tio. Como poderia um de nós ficar feliz se todos os outros estivessem tristes?”
Ele ficou desconcertado! Meses e meses a trabalhar, estudando a tribo, e não tinha compreendido, de verdade, a essência daquele povo. Ou jamais teria proposto a competição. Ubuntu significa: “Eu sou quem sou, porque somos todos nós!”
Coreografia da união e da paz
Com maquiagem e adereços tribais em um cenário vivo de África e Brasil, ao som de ritmos vigorosos e cativantes, a dança afro-indígena contemporânea Ubuntu tem a proposta de relacionar gestos e movimentos à paz e união entre todos os povos. Nadja trabalha com 25 integrantes que sobem ao palco.
Desses, 13 são pessoas com deficiência auditiva e um deficiente visual. Participam jovens e adultos. O grupo atual ainda conta com dois integrantes da primeira formação do D.A Corpore. São eles: Edmerson Alexandre Henrique e Sergio Santos (hoje com 40 anos de idade).
A arte-educadora considera uma grande realização o trabalho com pessoas portadoras de necessidades especiais. “O intuito é mostrar que qualquer um pode dançar”. A coreógrafa ainda enfatiza que escolheu trabalhar com a dança contemporânea afro-indígena em homenagem à Mercedes Baptista, a primeira bailarina negra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, considerada a principal precursora da dança afro-brasileira.
No início da década de 1950, ela voltou-se para o estudo dos movimentos ritualísticos do candomblé e danças folclóricas. Suas criações permanecem até hoje identificadas como repertório da dança afro.