A desoneração de impostos sobre as folhas de salário que tem favorecido principalmente o setor industrial exportador provocou algumas críticas indevidas porque se esperava da medida que resultasse no aumento do nível de emprego, o que não vem acontecendo. O objetivo principal de estimular as exportações tem sido alcançado e, se não mostrou nenhum resultado expressivo na oferta de trabalho, com certeza manteve os empregos nas empresas que voltaram a exportar seus produtos.
As desonerações produzem uma espécie de desvalorização implícita do dólar: para uma empresa exportadora o salário em dólares cai, baixando o preço para os produtos exportados, o que é compensado por uma correção dos preços, internamente. Quando se iniciou o processo de desoneração, o dólar estava a 2,04/2,05 e logo se notou uma revivescência do estímulo no setor exportador. O que é possível afirmar é que além de ser interessante porque está mudando um pouco a estrutura do sistema tributário, a desoneração das folhas permitiu evitar que acontecesse o desemprego que ameaçava os trabalhadores principalmente naquelas indústrias.
Houve uma acomodação porque as empresas vinham evitando demitir seus trabalhadores a despeito de ter caído a produção, por não contar com as vendas externas. Desempregar tem um custo muito alto para as empresas, além do que a indústria investe na cultura de seu trabalhador. Ele aprende no seu trabalho e ganha habilidade na execução dos projetos. É por isso que o empresário só dispensa em último caso, quando já não tem esperança de que vai haver uma melhora na demanda. Essas medidas de desoneração aumentaram a esperança numa melhoria da demanda, por isso a empresa procura manter os empregos. Se acontecer a dispensa, ela desempregou menos do que teria feito se não existisse a medida e se sente bem em manter o nível do emprego. Há muitas críticas infundadas a respeito das desonerações tributárias que foram estendidas a outras áreas da indústria, mas todas as medidas somadas certamente vêm contribuindo para manter níveis de emprego civilizados, em claro contraste com a calamidade do desemprego que só aumenta na Europa.
O fato da presidente Dilma "comemorar" a criação de quatro milhões de novos empregos, com carteira assinada, desde o início de seu governo até o final do mês de abril, foi considerado um "exagero" pela crítica, como se isso não representasse um importante diferencial na atual conjuntura mundial.
Os números relativos ao mês de maio sobre a situação do emprego na Comunidade Europeia, por exemplo, confirmam que o desemprego continua crescendo na maioria dos dezessete países da zona do Euro, com detalhes sinistros de concentração das maiores taxas entre a população jovem: ao entrar no sexto semestre de recessão, a taxa de desemprego subiu mais alguns pontos, para 12,2% da força de trabalho (média em toda a região) atingindo 27% dos jovens espanhóis, quase incríveis 40% na Itália e ultrapassou 36% na Grécia.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC