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Médicos de exportação

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O governo de Cuba conseguiu transformar seus médicos em petróleo. Os irmãos Castro demonstram uma inusitada e criativa readaptação econômica levados pela "necessidade, a mãe de todas as invenções". Desde os embargos impostos pelo governo norte-americano nos anos 1960 os cubanos tiveram que descobrir mecanismos que os permitissem sobreviver. Venderam açúcar a preços superiores às cotações de mercado em troca de petróleo subsidiado da antiga União Soviética. Até o dia em que o regime comunista entrou em colapso, em 1991, e aderiu ao pragmatismo das leis de mercado. Durante mais de 50 anos, Cuba tem intercambiado assistência médica internacional em troca de ajuda econômica, créditos e vantagens comerciais. Na última década, a aliança com a Venezuela desempenha papel fundamental na expansão da diplomacia médica cubana e no sustento da economia da Ilha. Agora, morto Hugo Chávez, seu grande aliado, Havana propõe diversificar seus mercados; enviar uns 6.000 médicos ao Brasil, é parte desse objetivo.

Nada contra. Se o Brasil exporta jogadores de futebol, Cuba também deve ter o direito de vender o passe dos seus médicos, embora não tenhamos notícia de nenhum Neymar nesse time. Médicos portugueses e espanhóis também querem vir. O Conselho Federal de Medicina apenas exige que os candidatos passem por um exame de qualificação. Uma vez aprovados, que se submetam aos mesmos honorários oferecidos aos médicos brasileiros para o trabalho na selva amazônica: R$ 2 por consulta ambulatorial e cerca de R$ 10 por consulta especializada. No Estado de São Paulo ainda há municípios sem nenhum profissional da área. Há cidades em que o único médico é a ambulância. Na região os prefeitos já se utilizam de ônibus para despejar pacientes na porta dos hospitais de Bauru. As razões para isso são muitas: empregos mal remunerados e sem estabilidade; falta de equipamentos e medicamentos; dificuldade de exames laboratoriais. Aqui, o diretor do Pronto Socorro passa horas ao telefone implorando vaga na UTI para paciente grave que agoniza na sua frente. O mesmo acontece com o chefe do Samu. Imagine um médico cubano a reclamar falta de suporte no jargão espanhol. Carajo!

Fico pensando como deve ser prática da medicina na Venezuela, país que ameaça voltar à era do sabugo embora exista a promessa de que "la revolución bolivariana importará 50 millones de rollos de papel higiênico". A última vez que Hugo Chávez se referiu ao tema da medicina ? vivo e ainda não transmutado em passarinho ? havia 44.804 médicos, terapeutas e enfermeiros na Venezuela. Custam ao redor de 5 bilhões de dólares ao governo bolivariano. Vinte por cento do contingente é formado pela polícia secreta de Havana, para impedir as deserções. Mesmo assim, 5.000 médicos já deram no pé e foram parar na Flórida, nos últimos dez anos. Cuba se vê forçada a graduar médicos em tempo recorde para suprir as necessidades de reposição dos quadros e de novas exportações. Essas missões são um negócio altamente lucrativo. Rende de 2 mil a 3 mil dólares por serviços de cada médico. Pagos com 101 mil barris diários de petróleo a preços abaixo dos praticados no mercado internacional. Para os médicos sobram de 250 a 300 dólares ? "quando são pagos", segundo a oposição que protesta contra essa "forma moderna de escravidão".

A questão comporta reflexões sobre as nossas mazelas na área. "Não se faz medicina sem médicos". É verdade. Pena que não estejam presentes em todos os grotões do país, embora tenhamos mais que o dobro desses profissionais, segundo o preconizado pela Organização Mundial da Saúde. Seriam 400 mil. Antes de importar médicos, independente da nacionalidade, o governo precisa criar programas de interiorização e oferecer as condições mínimas de trabalho, começando por resolver o ridículo subfinanciamento do Sistema Único de Saúde (SUS). Nos Estados Unidos e em diferentes países da Europa é comum encontrarmos médicos de diferentes nacionalidades. Gozam de excelente prestígio. Conheci brasileiros chefiando serviços de importantes universidades americanas. Claro que todos submetidos a rigorosos critérios para atuação profissional.

Precisamos primeiro, dar conta das nossas deficiências. O sistema de saúde não consegue organização, nem para enviar os pacientes corretamente aos especialistas. Pacientes com apendicite são enviados para o ortopedista. Um paciente com câncer de pulmão esperou três meses para ser atendido por um cirurgião proctologista, para depois ser reenviado ao médico correto. Muito tarde.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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