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Região tem ponte construída na Alemanha

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 12 min

Pontes são construções que transpõem obstáculos. Sobre rios e mares são pontes. Sobre obstáculos secos recebem o nome de viaduto. São construídas para interligar um lugar a outro e possibilitar o trânsito de veículos ou embarcações. Podem ser construídas de diversas formas e com materiais diferentes. As maiores exigem materiais mais densos, capazes de suportar toda a carga necessária. As menores podem ser construídas em madeira.

 

Neide Carlos

Ponte Campos Salles que liga Igaraçu do Tietê a Barra Bonita

Na região, a maioria delas é construída sobre vigas, com exceção da ponte Campos Salles, que interliga a estância de Barra Bonita à cidade de Igaraçu do Tietê. Construída na Alemanha e montada no Brasil, foi inaugurada em 1915.


Sobre ela, o professor doutor especializado em estruturas metálicas e de madeira da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Carlos Eduardo Javaroni, explica que não são mais construídas pontes levadiças como a Campos Salles. “Hoje é usado um gabarito que permite a navegação fluvial. Tem um gabarito com uma altura livre entre a superfície e a parte inferior da ponte para que permita o trânsito sob ela. Outro gabarito é usado na construção de viadutos. Neste, é preciso respeitar o peso, porque sobre ele vão transitar caminhões, ônibus e veículos de modo geral.”


O estudo sobre pontes envolve várias disciplinas, explica o professor. “O engenheiro estuda a estrutura e o design da ponte, o comportamento do material, como o concreto armado, estrutura de aço, madeira. O estudo também leva em conta as condições do material para saber como ele se comporta quando carregado. Há ainda uma disciplina de pontes que trabalha a ideia do projeto”, observa.


Os engenheiros, de acordo com ele, aprendem todos os aspectos relacionados ao assunto. “Tem que envolver a durabilidade, porque há pontes que são chamadas de obra de arte. Precisa ter certa harmonia com o que ela está ligando, com o meio em que está. Se ela está no meio da mata, cidade... tem o aspecto estético envolvido. Tudo isso tem que ser pensado.”


Os cursos de engenharia têm uma disciplina que trata especificamente sobre pontes. “Outras disciplinas da área de engenharia, como o estudo das estruturas, vai orientar o profissional sobre o que ele vai ter que aplicar na ponte. Há cursos com software específico que sempre ajudam, especialmente nos cálculos. Pontes sobre rios envolvem o estudo do rio, nível máximo e mínimo, estudo de solo para ver a fundação, o tráfego de veículos. Existem várias classes de pontes, e é preciso estudar qual o carregamento a que ela está sujeita, enfim, é bastante específico.”


Javaroni entende que não há dificuldades para a construção de pontes e viadutos. O problema é o custo. “Aquelas que são construídas sobre rios e mares têm custo maior em comparação com os viadutos. As técnicas de construção evoluíram bastante. São vários processos construtivos que podem ser empregados conforme a necessidade, conforme a dificuldade que o lugar oferece.”



Ponte Campos Salles ‘pede socorro’

Estrutura quase centenária que liga Barra Bonita a Igaraçu teve trânsito proibido para veículos pesados por problemas de fundação


 

A ponte Campos Salles pede socorro. Desde a sua inauguração, há 98 anos, ela passou por reparos pontuais, mas apresenta problemas na fundação, nos pilares e em sua estrutura metálica. Por conta disso, sobre a ponte está proibido o tráfego de veículos pesados, só podem passar carros de passeio, motos e pedestres.


O custo da recuperação da ponte é alto e o município não tem condições de arcar sozinho com a obra, alega o chefe de gabinete da Prefeitura de Barra Bonita, Márcio Salvi. “O custo é muito alto, e sozinho o município não tem o que fazer. Por hora, o que realizamos são manutenções pontuais e preventivas e que não são de caráter estrutural. Ou seja, não resolvem, efetivamente, o problema.”


De acordo com ele, o prefeito Guilherme Belarmino fez várias solicitações nas esferas estadual e federal para que a ponte seja restaurada e recuperada. “Nós temos alguns problemas estruturais na fundação, nos pilares e na estrutura metálica. Apenas com o orçamento do município é impossível fazer essa recuperação. Atualmente existe uma busca por recursos federais e estaduais.”


Para a prefeitura de Barra Bonita e para o município vizinho de Igaraçu do Tietê, a responsabilidade pela recuperação da ponte é do governo estadual. “Afinal, trata-se de uma construção centenária, ela faz parte não só da história de Barra Bonita, como também do Estado de São Paulo. Mesmo assim, além de cobrar o apoio do governo estadual, temos conversado com o governo federal para encontrar recursos.”


Como não existe o comprometimento formal dos governos estadual e federal, a prefeitura não tem como estipular um prazo para que os problemas da ponte Campos Salles sejam resolvidos. Ainda não existe o comprometimento formal por meio de convênio, ou através de contrato para que a restauração ocorra. “Nosso interesse sempre existiu e estamos cobrando de forma até incisiva que isso aconteça o mais rapidamente possível. A gente acredita muito na possibilidade de isso acontecer, mas não é possível determinar um prazo.”



Concreto, aço ou madeira?

Pontes de concreto, aço ou madeira são construídas para cada tipo de local e situação, segundo explica o professor Carlos Eduardo Javaroni, da Unesp de Bauru. “As confeccionadas em madeira são mais frágeis e usadas em vãos menores. Recentemente, a USP de São Carlos, no câmpus II, tem pontes de madeira feita lá.”


A concepção e construção das pontes da USP foi um estudo feito pela equipe do laboratório de estruturas de madeira da escola. “Eles construíram, instrumentaram. Tem o aspecto de pesquisa vinculado. São pontes de menores vãos. A partir de certas dimensões de vãos é possível usar madeira. Em vãos maiores não compensa, tem que partir para outras estruturas como o concreto armado ou protendido, ou mesmo a estrutura metálica em aço.”

 

Tombamento está em estudo

 

O processo de tombamento da ponte Campos Salles foi transformado em um projeto, que continua aguardando parecer técnico da historiadora Elisabete Mitiko Watanabe, do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.


Segundo o diretor do Departamento de Cultura e Turismo da cidade, Marcos Gava, há uma reunião agendada para os próximos dias para que ele saiba como está a situação do tombamento. Atualmente só é permitida a travessia de veículos de passeio sobre a ponte, sendo proibido o trânsito de caminhões e ônibus. Os dois municípios, Barra Bonita e Igaraçu do Tietê, reivindicam uma restauração completa na estrutura da ponte e aguardam investimentos do governo do Estado.

 

Implantação do Sistema Paraná

Em 1973, o ‘alçapão’ da ponte Campos Salles passou por meticuloso trabalho de restauração, a fim de testar sua segurança na passagem de embarcações de cargas e turismo tendo em vista a implantação parcial do Sistema Tietê-Paraná, oficializado com a inauguração da eclusa em novembro do mesmo ano.


 A “operação-reabertura” foi um sucesso, mas constatou-se que as diminutas distâncias entre os pilares da ponte, sobre os quais estava montado o alçapão, não possibilitaria - se fosse necessário - a passagem de lanchas, navios, chatas e outros tipos de embarcações de grande calado e largura. Com a inauguração da “Hidrovia do Álcool” em 21 de agosto de 1980, dinamizou-se o tráfego fluvial e o assunto voltou a preocupar as autoridades pelos riscos e possibilidade de acidentes na passagem sob o mesmo, dando origem a uma série de rumores e comentários. Entre eles os de mudança de local e de alterações no projeto original da Ponte Campos Salles, o que causou apreensão entre os barra-bonitenses.


Felizmente, uma decisão entre Estado e município colocou ponto final no assunto este patrimônio histórico foi preservado em sua totalidade com a construção, pelo governo estadual, na margem esquerda do Rio Tietê em 1989, do Canal de Navegação de Igaraçu do Tietê e uma nova ponte.


Marco na história de Barra Bonita

 

A ponte Campos Salles é um marco na história da Estância de Barra Bonita. Foi encomendada pelo então presidente da república, Campos Salles, construída na Alemanha e montada no Brasil. Foi inaugurada no dia 5 de março de 1915, servindo como principal meio de acesso às regiões que realizavam operações comerciais com Barra Bonita.


Na época, apenas carros de boi atravessavam sua estrutura. Atualmente ela é parte do patrimônio da cidade, mas sua largura é insuficiente para o tráfego de dois carros simultaneamente.


A inauguração da grande ponte metálica sobre o Rio Tietê contou com presenças ilustres. Entre elas o secretário da Agricultura Paulo de Moraes Barros, senadores Pádua Salles e coronel Virgílio Rodrigues Alves, e do ministro do Tribunal de Justiça Augusto Meirelles Reis, dentre outros. Os convidados chegaram em um trem especial da Sorocabana Railway.


A partir de sua inauguração, a ponte sobre o Rio Tietê começou a ser chamada de “Ponte Campos Salles”. E a oficialização ocorreu com a colocação das placas em 7 de janeiro de 1918. O desenvolvimento do Distrito de Paz de Barra Bonita atraía moradores e proprietários de terras localizadas na “outra margem do rio”, cujo território pertencia a São Manuel, inclusive a área do atual município de Igaraçu do Tietê.


A balsa e os barcos que efetuavam o transporte de passageiros e mercadorias entre as duas margens não mais atendiam às necessidades do intenso tráfego que, constantemente, era interrompido por problemas mecânicos da balsa ou pelas enchentes do Rio Tietê. Tais dificuldades somente seriam superadas com a construção de uma ponte.


Não foram poucas as iniciativas nesse sentido. Os políticos locais, que tinham no Dr. Campos Salles seu grande líder, fizeram-no representante dessa justa reivindicação nas altas esferas dos governos do Estado e da União. Ninguém melhor do que ele, como ex-presidente da República (1898-1902), ex-presidente do Estado de São Paulo (1896) e proprietário de fazendas de café “na Barra Bonita”, para atestar a importância e os benefícios que tal obra ocasionaria para toda região, principalmente como fator de progresso e abertura de novos mercados aos produtos agrícolas.


Em 21 de maio de 1911 foi publicada a concorrência pública para a “construção de uma ponte metálica no Rio Tietê”. Em outubro de 1911 foi assinado o contrato com a empresa alemã Maschinen Frabrik Angsburg Nurnberg, vencedora que iniciou as obras, através de seus prepostos no Brasil: Bromberg Hacker & Company, de São Paulo, no princípio do ano de 1912.


Os engenheiros e técnicos alemães que vieram para montar a ponte, também de fabricação alemã, encontraram aqui o conterrâneo, próspero comerciante, químico industrial no ramo de cervejas e refrigerantes Germano Güther, que atuou como tradutor e intérprete junto aos demais técnicos e operários.

 

Terra movediça dificultou a construção

Os engenheiros e técnicos tiveram muitas dificuldades para a perfuração de lajes no leito do Rio Tietê para a construção da ponte Campos Salles, pois nele foi encontrada muita terra movediça. Vários acidentes e as constantes cheias do Tietê atrasaram os trabalhos. Numa dessas enchentes, todos os fundamentos no leito do rio foram, literalmente, por água abaixo, tendo como consequência a total paralisação dos serviços.


O reinício das obras só ocorreu em abril de 1913, após muitas críticas, reclamações e descontentamento popular. Contudo, somente a partir de maio de 1914, com a intervenção da diretoria de obras públicas e designação pela empresa alemã de novos engenheiros é que os serviços foram acelerados.


A ponte tem 146,6 metros de comprimento entre os apoios extremos das duas margens. De largura, a Campos Salles tem 5,7 metros e altura livre de 4,2 metros. A superestrutura metálica (de aço doce de primeira qualidade) foi calculada para suportar com toda a segurança uma sobrecarga rolante constituída por duas filas de veículos de 11 toneladas, além de sobrecarga uniformemente distribuída de 800 quilos por metro quadrado.


 

Neide Carlos

Réplica de ponte feita por alunos; ao lado professor doutor Carlos Javaroni

Concurso de pontes de macarrão

O assunto pontes nas faculdades de engenharia merece muita atenção de alunos e professores. Com o objetivo de provocar o interesse dos estudantes, há alguns anos vem sendo realizado um concurso de construção de pontes feitas a partir de macarrão na Unesp de Bauru. O professor doutor Carlos Eduardo Javaroni explica que a competição é um trabalho extracurricular que ajuda o futuro engenheiro a entender na prática como é o processo de construção de uma ponte.


“Une a teoria à prática. A Unesp de Bauru realiza o IV Concurso EngCAD Interpontes, organizado pela Pro Junior, Empresa Júnior de Projetos e Consultoria em Engenharia da Faculdade de Engenharia. Eles fazem o projeto da ponte, e embora seja uma estrutura reduzida, os estudantes acabam aprendendo sobre o projeto estrutural, desenvolvendo o desenho, constroem e carregam. A própria equipe  vai carregando a ponte para ver o peso que ela suporta. As equipes competidoras são formadas por alunos da engenharia civil, mecânica, arquitetura, tem  a multidisciplinaridade. Os alunos gostam muito, é motivador.”


Segundo Javaroni, a partir da construção das pontes os universitários passam a ter uma noção da prática. “Eles passam a ter alguma noção, claro que o macarrão não é um material estrutural. Eles têm noção de quanto o fio de macarrão suporta. A obra pode pesar no máximo um quilo.”


Cada grupo, ao se inscrever, recebe um kit contendo os materiais necessários para a confecção de sua ponte: um pacote de macarrão n.º 7 contendo um quilo; dois tubos de PVC com 1/2” de diâmetro e 20cm de comprimento; uma barra de aço de 8mm de diâmetro e 20cm de comprimento; 10 bastões de cola para pistola quente; uma pistola de cola quente e um rolo de fio dental de 50 metros.


Todos os grupos concorreram na mesma categoria na última edição do concurso, que tem como premiação principal o valor de R$ 1.000,00 em dinheiro. Ao grupo que obteve a primeira colocação, foram três iPod Shuffle, e três pendrives de 16Gb ao terceiro colocado. É necessário que a ponte seja indivisível, de forma que não haja partes móveis ou encaixáveis. A avaliação das pontes de macarrão foi feita pela banca da comissão organizadora do concurso, que verificou a carga suportada, o peso próprio da ponte e a estimativa de peso.


A criatividade é outro item despertado no universitário ao participar do concurso. “Eles desenvolvem modelos com um metro de vão, em forma de arco, treliça e diversos sistemas estruturais”, explica.

 

 


 

 

 

 

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