Logo após deixar a Fazenda Santo Henrique na manhã de ontem, os acampados se dirigiram para o escritório do Incra, localizado no Jardim América, zona sul de Bauru. Eles vieram em uma excursão formada por cinco ônibus e em carros particulares e deixaram o imóvel somente por volta das 19h.
A ocupação do Instituto Biodinâmico (IBS) foi realizada de forma pacífica por aproximadamente 200 assentados de todo o Estado que estavam na fazenda onde está instalada a Cutrale. Durante o expediente, os funcionários do escritório permaneceram trabalhando no local.
Os assentados exigiam uma reunião com a superintendência do Incra de São Paulo. “Estamos aqui novamente pedindo uma audiência com a superintendência do Incra para que nos informe o que de concreto está sendo feito para a arrecadação das terras públicas do Núcleo Monções (leia mais abaixo), dentre elas a Cutrale”, explicou uma das coordenadoras do movimento, Ana Carolina Mazin.
Por volta das 14h30, o superintendente do Incra de São Paulo, Wellington Diniz Monteiro, veio da Capital para conversar com os líderes de cada acampamento. A reunião demorou cerca de quatro horas e foi realizada a portas fechadas.
Enquanto isso, manifestantes bloqueavam a rua e desviavam carros que tentavam passar pela via. Alguns cantavam e dançavam pedindo urgência na reforma agrária.
O MST informou que, logo após a reunião, seria realizada uma assembleia para expor o que foi discutido e que a imprensa poderia estar presente nesse momento. Contudo, após o JC esperar por mais de três horas, a reportagem foi impedida pelos manifestantes de participar da assembleia.
Ao fim da conversa, eles decidiram desocupar o escritório do Incra em Bauru e foram embora para suas respectivas cidades, ainda ontem. A reportagem tentou localizar a pessoa indicada como a porta-voz logo que a assembleia acabou, contudo, ela foi embora sem conceder entrevistas.
Área pública
No começo da noite de ontem, após a reunião com os líderes do movimento, o superintendente Wellington Monteiro afirmou que a área invadida esta semana em Borebi realmente é pública. “A Cutrale está usufruindo da Fazenda Santo Henrique, que é uma área pública. Ela está ocupando esse território de maneira irregular”, aponta.
Questionado sobre a lentidão do processo, ele afirma que houve alguns questionamentos sobre a legitimidade do Incra em reivindicar essas áreas, o que atrasou o processo. Porém, o superintendente alega que a pendência está sendo resolvido na Justiça.
“As conversas estão adiantadas. Vale lembrar que, em 2007, houve um acordo de permuta (a Cutrale ficaria no local e cederia uma propriedade com as mesmas proporções para a reforma agrária) que foi descumprido pela Cutrale”, destaca Diniz.
Ele, porém, não dá prazos para que a situação seja resolvida, porém promete que “a área da Santo Henrique é a prioridade atual do Incra. É uma área que daria para assentar muitas famílias”.
Em nota, o instituto complementou que reivindica a Santo Henrique desde agosto de 2006. Em relação ao acordo citado pelo superintendente, o Incra afirmou também que seu cumprimento estava adiantado, porém foi abandonado pela Cutrale assim que os advogados da empresa conseguiram a “cassação da liminar de imissão de posse”.
Por conta do adiantado da hora, não foi possível acionar a Cutrale para comentar as declarações do Incra. Contudo, em outras ocasiões, a empresa já declarou ao JC que possui a documentação da área e que é “altamente produtiva”.
Segunda invasão de 2013
Esta é a segunda vez neste ano que o MST ocupa o escritório do Incra em Bauru. Em março, foi realizada outra ocupação também pacífica do mesmo IBS. A manifestação ocorreu em função do Dia Internacional da Mulher e culminou com a expulsão dos funcionários do imóvel.
Ontem, todos puderam continuar trabalhando normalmente. Entretanto, alguns funcionários, que pediram para não serem identificados, relataram terem ficado tensos com a situação.
Pauta estadual
O superintendente do Incra de São Paulo, Wellington Diniz Monteiro, relatou ter ficado surpreso ao se inteirar da pauta que guiou a reunião ontem com os líderes do MST. “Acreditava que era uma pauta regional, porém eram reinvindicações estaduais. Havia realmente representantes de várias partes do Estado aqui”, disse.
Monteiro explica que, assim como foi a discussão sobre a legitimidade do Núcleo Monção, a grande parte das reinvindicações dos líderes foi realmente sobre questão territorial. “A reunião foi tranquila e definiu uma série de encaminhamentos”, disse o superintendente.
A reportagem apurou que havia realmente assentados de muitas localidades. Alguns chegaram a viajar 600 quilômetros até Bauru.
Núcleo Monção
A Fazenda Santo Henrique era uma das propriedades do Núcleo Colonial Monção, projeto de colonização do governo federal iniciado em 1910 e destinado a imigrantes de várias nacionalidades.
No total, esse território somava cerca de 40 mil hectares, abrangendo os municípios de Agudos, Lençóis Paulista, Borebi, Iaras e Águas de Santa Bárbara. “Ao todo, o Incra já ajuizou mais de 50 ações judiciais que totalizam aproximadamente 17 mil hectares a serem retomados para a União”, afirmou o instituto, em nota.