Em magnífico trabalho denominado Cérebro - Agente ou Gerente do Espírito?, Richard Simonetti faz referência ao reflexo condicionado como parte do processo evolutivo da alma.
Dirigindo-se aos contestadores da tese evolutiva, que a consideram inútil por não nos recordarmos perfeitamente do passado, argumenta que a ausência de lembranças não impede nosso aprimoramento.
Espírito que no passado abusou do sexo - exemplifica - poderá ter depressão, frigidez sexual, esterilidade ou doenças relacionadas com seus órgãos de reprodução. Com o sofrimento, o Espírito vai aprender, por reflexo condicionado, que a promiscuidade sexual não é interessante. Vai reexaminar seus procedimentos.
Mesmo sem se lembrar dos erros cometidos, o indivíduo que sofre tem a intuição de que as dores têm uma causa justa. Ocorre algo semelhante àquele machista ditado que diz: mulher de malandro não sabe por que está apanhando, mas sabe que merece.
O papel do condicionamento na psicologia do comportamento (reflexo condicionado) foi estudado pelo fisiólogo russo Ivan Petrovich Pavlov (1849/1936). É clássica a história do cão que, acostumado a ouvir uma sineta antes de suas refeições, salivava toda vez que ouvia tal som, independentemente de sua ração ser servida ou não.
Pavlov descobriu que algumas respostas comportamentais são inatas, enquanto outras podem ser aprendidas, criadas ou removidas, em seres humanos e animais. A expressão gato escaldado tem medo de água fria mostra bem como nosso comportamento muda quando passamos por uma situação traumatizante.
A esse respeito há uma curiosa história contada por Simonetti: Um sacristão não gostava de gatos. Mas não conseguia se livrar deles, porque o padre os considerava criaturas de Deus.
Engendrou um plano para livrar-se deles. Toda vez que ia alimentá-los, usava a expressão: " - Deus seja louvado", acompanhada de chibatadas que os punha a correr.
Quando os bichanos estavam bem condicionados, escondeu as chibatas e chamou o padre: " - Senhor padre, precisamos nos livrar desses gatos. Eles têm parte com o diabo."
Diante da incredulidade do padre, desta vez sem usar os chicotes, reuniu os gatos e passou a gritar: " - Deus seja louvado."
É claro que os gatinhos fugiram espavoridos, convencendo o sacerdote de que eles realmente abominavam o nome de Deus.
Reflexo condicionado de Pavlov!
A dor oriunda dos desvios morais e espirituais sinaliza a necessidade de mudança de comportamento do indivíduo. Ela nos relembra, a fim de não repetirmos os mesmos erros cometidos no passado.
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A conservação da ordem social também passa pelo mesmo princípio enunciado por Pavlov.
Através do direito que tem de punir, quando surge o delito, o Estado pretende evitar novos crimes através da psicologia do comportamento.
Em resumo, seria a conclusão lógica de uma coleção de premissas:
1) fulano foi punido por cometer determinado crime;
2) se eu cometer o mesmo crime, também poderei ser punido;
3) conclusão: o Estado espera que os demais cidadãos não cometam o mesmo crime.
E é esse caminho que o jus puniendi (o direito que o Estado tem de punir) tem alcançado? Ameaçar com a pena, aplicá-la e executá-la tem alcançado seus objetivos?
Recentes estudos e pesquisas realizados por especialistas penais dão conta de que a psicologia de comportamento do candidato ao crime mudou.
Partindo das dificuldades que o Estado tem para elucidar crimes, deter o criminoso, aplicar-lhe as penas devidas e executá-las - o que geralmente é abrandado por penas alternativas ou reduções -, o indivíduo estaria fazendo mentalmente um balanço de custo/benefício e estaria chegando a uma triste conclusão social: o crime compensa!
A esse respeito, vale a pena lembrar a história de um homem que, chegando a um posto para abastecer seu carro, viu um cão deitado sobre uma tábua, gemendo.
- O que tem esse cão? - perguntou ao frentista.
- Sabe doutor, ele está deitado em cima de um prego, por isso geme...
- Ué, porque ele não se levanta dali?
Com simplicidade, mas ao mesmo tempo com sabedoria, o frentista respondeu:
- É que não está doendo o suficiente...
Será que o reflexo de Pavlov não está funcionando o suficiente para desestimular os detratores da ordem social?
Será que a banalização dos crimes está sendo estimulada por nossa omissão social?
Talvez tenha chegado o exato momento de a sociedade fazer uma reflexão definitiva em torno do assunto.
O autor, Sidney Francese Fernandes, é advogado, escritor, conferencista e colaborador da Coluna Opinião