Num momento em que vive uma série de transições internas simultâneas, o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP), conhecido como Centrinho, viu despencar o volume de atendimentos e procedimentos realizados. Em alguns casos, a produção da unidade sofreu queda de até 90% no ano passado, em comparação com o volume registrado em 2011.
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João Rosan |
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Centrinho tem menos atendimentos e encara desafio de manter excelência |
Hospital de excelência reconhecida na América Latina e motivo de orgulho para a cidade, a unidade experimenta um momento desafiador, entre outros motivos, por conta da atuação do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da saída de José Alberto de Souza Freitas, o tio Gastão, que se aposentou em junho do ano passado, após permanecer à frente da unidade por 45 anos.
Toda a dinâmica que decorreu dessas e outras mudanças pode explicar, em partes, a queda drástica na produção do Centrinho, que possui uma lista de espera de pacientes que ultrapassa 30 mil pessoas. Mesmo com elevada demanda reprimida, aproximadamente 70% dos procedimentos sofreram redução entre 2011 e 2012, conforme documento divulgado nesta semana pelo vereador Raul Gonçalves de Paula (PV).
Em alguns casos, a queda chegou a 90%, como é o caso de atendimentos a pacientes que usam aparelhos ortodônticos. Ainda na área odontológica, a mesma redução foi verificada na instalação de próteses. Já o atendimento a pacientes com implantes caiu 70%.
Os atendimentos médicos em pediatria e clínica geral caíram pela metade, as sessões de fisioterapia sofreram queda de 80% e os serviços de nutrição, 90% em relação ao montante de 2011. Um dos carros-chefes da unidade, as cirurgias plásticas foram reduzidas em 30%. Exames laboratoriais caíram 20% e internações em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) para pacientes adultos, 60%.
Entre os motivos para explicar a enorme variação num curto período, a superintendente do Centrinho, Regina Célia Bortoleto Amantini, destaca a redução de jornada de trabalho de vários profissionais, entre médicos, dentistas e fonoaudiólogos, como forma de se adequar às normas da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Pelo mesmo motivo, 41 profissionais de saúde de nível superior que recebiam por produção passaram a ter contrato com salário fixo, o que também impactou na produção diária da unidade.
Desaceleração
Nos bastidores, a informação é de que eles, ganhando menos, teriam propositadamente reduzido o ritmo de trabalho, mas nenhum representante entre os médicos foi encontrado para comentar o assunto.
Já o vereador Raul Gonçalves de Paula (PV), que suscitou o debate sobre o momento delicado vivido pelo Centrinho, pondera que os números também são consequência das demissões de funcionários da Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Craniofaciais (Funcraf) que trabalhavam para o hospital.
Por exigência do MPT, eles começaram a ser desligados da unidade em 2011 por não terem sido contratados por meio de concurso público. Novas contratações foram feitas pelo Centrinho dentro das regras exigidas, mas, de acordo com Gonçalves de Paula, o ritmo de produção não foi mantido.
Compartilha da mesma opinião a diretora do Sindicato dos Trabalhadores da USP (SintUSP), Nely Wada. Para ela, além de os novos contratados não possuírem a mesma experiência e conhecimento na área de anomalias que têm os profissionais da Funcraf (a maioria deles com mais de 15 anos de atuação no Centrinho), os trabalhadores vinculados à fundação que ainda permanecem no hospital também não se sentem estimulados para o trabalho diante da iminência de uma demissão.
Na contramão das baixas
Embora grande parte da produção do Centrinho tenha sofrido queda em 2011, cerca de 30% dos procedimentos tiveram aumento, principalmente na área odontológica, como é o caso de atendimentos em dentística, endodontia, odontopediatria e periodontia. Segundo a superintendente do hospital, Regina Célia Bortoleto Amantini, o aumento pode ser explicado pelo elevado número de alunos e residentes da área, que têm uma grande carga horária prática sob supervisão no currículo.
“Na fonoaudiologia, também registramos aumento em alguns tipos de atendimento, até por conta da realização de mutirões para suprir a demanda reprimida”, frisa. Em 2012, a Divisão de Odontologia do Centrinho contou com três turmas de residência multiprofissional, além de alunos de especialização, totalizando cerca de 150 residentes.
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