Como era de se esperar em uma unidade da magnitude do Centrinho, uma conjunção de fatores – e não apenas um único – desencadeou a queda da produção do hospital. Entre os motivos, inclusive, está a aposentadoria de José Alberto de Souza Freitas, o tio Gastão, que tinha grande poder de comando após 45 anos atuando como superintendente do hospital, além de trânsito político dentro do Estado.
Segundo a nova superintendente, Regina Célia Bortoleto Amantini, adequações a questões legais foram os principais fatores que influenciaram no saldo. Em 2012, para se alinhar às normas da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e da Universidade de São Paulo (USP), o Centrinho teve de modificar 41 contratos de trabalho de profissionais de nível superior, entre médicos, dentistas e fonoaudiólogos.
“Eles trabalhavam por produção e passaram a ter jornada de trabalho fixa. Antes, só eram chamados ao hospital quando tinham atendimento. Agora, têm de cumprir um horário fixo, sem, necessariamente, estar atendendo o público. Eles não podem mais trabalhar fora do horário”, considera.
De acordo com fontes ligadas ao Centrinho, o comentário é de que estes profissionais, insatisfeitos com a mudança, teriam reduzido o ritmo de trabalho dentro da unidade, o que não foi confirmado pela classe. “Mas, quando o profissional sabe que receberá o mesmo salário se atender um caso ou dez, o que você acha que vai acontecer? O número de pessoas beneficiadas vai cair”, pondera o vereador Raul Gonçalves de Paula (PV), que também é médico.
Perdas
Outra mudança refere-se à alteração da jornada de trabalho de várias funções, determinada pela própria USP também em cumprimento à legislação. Assim, médicos e dentistas que trabalhavam até 40 horas semanais foram proibidos de cumprir jornada superior a 24 horas semanais, o que impactou de forma intensa no tempo em que estes profissionais permanecem no Centrinho para atender o público.
“Além disso, em 2012, o hospital perdeu três médicos, sendo dois cirurgiões plásticos e um otorrinolaringologista, por motivo de falecimento, aposentadoria e mudança para o Exterior. Para nós, é um número significativo”, pondera.
Por conta de processos burocráticos, Regina explica que a contratação de três novos profissionais via concurso público só foi autorizada recentemente, mais de um ano depois dos desligamentos. Para a diretora do Sindicato dos Trabalhadores da USP (SintUSP), Neli Wada, a instituição de uma central reguladora de vagas na área de saúde auditiva, há cerca de cinco anos, também ajudou a represar o volume de atendimentos.
“Todo deficiente auditivo, para ser atendido, precisa do encaminhamento da Secretaria de Estado da Saúde ou do Departamento Regional de Saúde (DRS-6) para conseguir atendimento. E pacientes que vêm de outros estados acabam enfrentando dificuldades para passar por todo este trâmite burocrático”, argumenta. Regina Amantini, no entanto, discorda da afirmação. “Desde 2008, aumentamos muito a quantidade de casos novos”, pondera.
Vocação universitária
Segundo fontes vinculadas ao Centrinho, na realidade o aumento no volume de atendimentos não é o objetivo do hospital. Por estar vinculado a uma universidade, tem, por vocação precípua, o ensino e a pesquisa.
A extensão, que é o atendimento à comunidade, embora também importante, acaba sendo uma consequência necessária. Não há, no entanto, foco no aspecto quantitativo, mas sim na qualidade do atendimento prestado, o que colabora, inclusive, para a boa formação de seus alunos, profissionais e pesquisadores.
Desta forma, ainda de acordo com estas fontes, a redução nos índices de produção não seria uma grande preocupação para o instituto. Por meio de nota, a assessoria do Centrinho confirmou, em partes, essa tese.
“Nesse processo de adequação de jornada de trabalho, a garantia da segurança e bem-estar do paciente está em primeiro plano. Portanto, nesse processo, é priorizado não só o aspecto quantitativo, mas também a qualidade do atendimento. A variação nos indicadores está dentro de um padrão de normalidade, considerando a necessária adaptação frente aos fatores e processos apontados”, reforça.
Funcraf
O caso Funcraf, na opinião de Neli e do vereador Raul Gonçalves de Paula (PV), também mantém relação direta com a redução no volume de atendimentos prestados pelo Centrinho. Por exigência da Justiça do Trabalho, a pedido do Ministério Público do Trabalho (MPT), funcionários da Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Craniofaciais (Funcraf) que trabalhavam para o hospital começaram a ser desligados da unidade em 2011 por não terem sido contratados por meio de concurso público, mas apenas entrevista e avaliação de currículo. Dos 465 profissionais que atuavam naquela época, atualmente permanecem 208.
Novas contratações foram feitas pelo Centrinho dentro das regras exigidas, mas, de acordo com Neli e Gonçalves de Paula, o ritmo de produção não foi mantido e a qualidade do atendimento também foi afetada. “A iminência da demissão está gerando insegurança em quem ficou. Nesse ambiente, ninguém consegue atender bem o paciente. E também não se sentem estimulados a ensinar para os novos funcionários como fazer o trabalho dos colegas que foram mandados embora”, detalha Neli.
A afirmação, no entanto, é rebatida pela superintendente Regina Amantini, já que, de acordo com ela, grande parte dos profissionais contratados pela Funcraf trabalhava em áreas administrativas. “Na área de cirurgia plástica, por exemplo, nenhum profissional tinha vínculo na fundação”, frisa.