Economia & Negócios

Fim do IOF para renda fixa deve elevar reservas

Ricardo Leopoldo
| Tempo de leitura: 6 min

Câmbio com menos pressões para depreciação e balanço de pagamentos com uma folga um pouco maior neste ano devem ser os principais resultados da redução de 6% para zero do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para aplicações de recursos estrangeiros em ativos de renda fixa, apontaram especialistas ouvidos pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado.

Com a medida, o fluxo de capitais estrangeiros para renda fixa deve saltar de US$ 5,1 bilhões no ano passado para US$ 10 bilhões neste ano, estima a economista do Itaú Unibanco, Gabriela Fernandes. Em função desse fato, ela acredita que a acumulação de reservas cambiais deve subir de US$ 9 bilhões para US$ 13 bilhões em 2013.

De acordo com Gabriela, o ingresso de investimentos estrangeiros em renda fixa atingiu a média de US$ 600 milhões por mês entre maio de 2012 e abril de 2013. Com a isenção do IOF pelo governo neste tipo de aplicação, ela pondera que tal ingresso de recursos pode subir para um patamar mensal bem maior, que até poderia atingir um pico de US$ 2,5 bilhões.

“Como a entrada de capitais neste segmento atingiu US$ 3 bilhões de janeiro a abril, é possível avaliar que pode alcançar um patamar de US$ 10 bilhões no total do ano”, destacou. E esse número tem relevância para o balanço de pagamentos, pois foi negativo em US$ 100 milhões em 2011, ficou positivo em US$ 5,1 bilhões no ano passado e deve dobrar neste ano.

“Contudo, acredito que este patamar de US$ 10 bilhões deve ser mais ou menos mantido no próximo ano, pois há uma tendência estrutural de reversão de fluxo de capitais dos países emergentes para os EUA, especialmente devido ao processo de normalização da política monetária naquele país”, apontou.

Na avaliação de Carlos Kawall, ex-secretário do Tesouro Nacional e economista-chefe do banco J. Safra, a decisão de retirada do IOF sobre aplicações internacionais em renda fixa deve gerar um ambiente mais favorável para o balanço de pagamentos do País. Ele ressaltou que no ano passado, a conta de capitais ficou praticamente equilibrada em relação ao déficit de transações correntes, que atingiu US$ 54,2 bilhões.

Déficit

Para ele, se fosse mantido o imposto sobre operações financeiras de 6% para tal categoria de investimentos estrangeiros em ativos de renda fixa no Brasil, poderia até ser possível que a conta de capitais ficaria inferior ao déficit de transações correntes em 2013. E isso ocorreria dentro do contexto internacional de retorno de dólares para os EUA, com a perspectiva de gradual retirada da política de afrouxamento quantitativo adotada pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos).

Agora, com a medida do governo de fim da cobrança daquele IOF, ele considera que provavelmente a conta de capitais ficará em harmonia com transações correntes neste ano.

O maior ingresso de recursos pela conta de capitais no Brasil neste ano deve ocorrer por um fato adicional: a taxa de juro real no Brasil é positiva, ao contrário do que ocorre nos países avançados, e agora tende a ficar um pouco mais atraente, pois na semana passada o Banco Central acelerou pela primeira vez o ritmo de aperto monetário na administração Dilma Rousseff.

Quando é analisada em detalhes a conta de capitais, os especialistas apontam quais serão as categorias que tem mais chances de receber recursos com o fim do IOF para investimentos estrangeiros em renda fixa. De acordo com Felipe Salto, economista da consultoria Tendências, um dos candidatos é o segmento capitais de curto prazo e demais, que registrou saldo positivo de US$ 10,28 bilhões em 2012.

Ele prevê que neste ano tal conta deve ter um superávit de US$ 10 bilhões. “Mas agora esse patamar pode até subir de forma marginal e atingir US$ 11 bilhões neste ano”, ponderou. Uma outra porta de entrada estaria relacionada a uma parcela dos investimentos diretos estrangeiros (IED), com destaque para o financiamentos de empresas com debêntures de infraestrutura. No ano passado, o IED alcançou US$ 65,3 bilhões e ele esperava que esse volume cairia para US$ 64 bilhões em 2013. Contudo, ele agora pondera que o montante pode subir e atingir US$ 65,5 bilhões.

 

Cotação do câmbio

Mas como fica a cotação do câmbio em função desse ambiente pouco mais favorável para o ingresso de capitais no País? Os especialistas, em geral, apresentam certa reserva para dizer que a cotação do real deve se apreciar no decorrer do ano. Ao contrário. Há dois fatores que influenciam essa avaliação.

“O primeiro deles é a redescoberta dos EUA como porto seguro dos investimentos globais”, destacou o economista-chefe de um grande banco internacional. Neste contexto, Gabriela Fernandes, do Itaú Unibanco, pondera que a atual projeção do câmbio de R$ 2,00 para o final do ano poderá ser revista em breve para um patamar mais próximo de R$ 2,10.

Um outro elemento essencial é que os fundamentos da economia brasileira não são tão saudáveis a ponto de permitir uma apreciação da moeda nacional ante à americana, ressaltou este economista da instituição estrangeira.

“O Brasil tem uma política fiscal muito expansionista, com superávit primário que está baixando bastante”, comentou. “Além disso, a conta de transações correntes deve atingir um déficit de 3% do PIB em 2013 e avançar para 4% em dois ou três anos, pois o nível de poupança interna demanda expansão dos investimentos externos”, destacou. Esse especialista espera que o câmbio atingirá R$ 2,10 ao final do ano.

 

‘Redução do imposto conserta erro’

Francisco Carlos de Assis

 

A redução do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) que incide sobre os investimentos estrangeiros em renda fixa, de 6% para zero, é uma medida que conserta um erro cometido lá trás pela equipe econômica do governo, avalia o sócio-fundador DGF Investimentos e conselheiro da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCap), Sidney Chameh.

Apesar de avaliar que a medida, combinada com a elevação da taxa básica de juros, poderá impactar o câmbio no curto de forma levar o real a se apreciar em relação ao dólar americano, Chameh diz não gostar dela. “Essa é uma medida da qual eu não gosto porque ela conserta um erro cometido lá trás. Já não gostei quando subiu o IOF porque se o câmbio é flutuante teriam que deixá-lo flutuar”, disse ao Broadcast o executivo.

Segundo o sócio da DGF Investimentos, quando o governo elevou de zero para 6% a alíquota do IOF sobre os investimentos estrangeiros em renda fixa, a argumentação era a de que havia muita liquidez no mercado internacional e que isso atrapalharia a livre flutuação do dólar.

“Agora retiram o IOF, pressionados pela alta da inflação, sob a argumentação de que sem o imposto mais dólares começarão a entrar no País, derrubando o preço da moeda norte-americana e impedindo o preço do produto nacional de subir tanto e pressione a inflação”, comenta Chameh.

“Mas o que eu realmente não gosto é o vai e vem da política porque isso dá certa insegurança, para não dizer uma baita insegurança, ao investidor. Esse hoje não tem, amanhã tem, atrapalha porque você não consegue fazer planejamento de médio e longo prazo”, critica o sócio do DGF.

O governo, segundo Chameh, advoga que isso é capital especulativo e que não tem que ter flexibilidade ou previsibilidade com capital especulativo. “Tudo bem, é um argumento válido de ser feito, mas no final do dia o que fica é a falta de condição de previsão”, critica o executivo. Para ele, claramente hoje no Brasil câmbio não é mais flutuante. “Ele oscila em bandas. Passou de certo patamar ele para de oscilar. Ele é flutuante, mas não muito”, afirma. 


 

Comentários

Comentários