Os brasileiros já estavam desacostumados com as manifestações de protesto nas ruas. Este tipo de expressão política, há mais de dez anos, estava reservada a índios. Hoje, índio não quer mais apito. Exige áreas de terras superiores ao território de muitos países, cesta básica, lugar garantido nas universidades e bolsa microondas. Os descendentes dos primeiros habitantes de Pindorama conseguem parar até construção de hidrelétrica e comboios de minérios da Vale. Causou surpresa a presença de uma nova geração de "rebeldes sem causa" e sem tangas disposta a enfrentar o cassetete da polícia, as bombas de gás lacrimogêneo, o nebulizador de pimenta e as balas de borracha. Os mesmos enfrentamentos se repetem no Rio, em Porto Alegre e outras capitais, com menor gravidade do que aqueles que ocorrem na avenida Paulista, em São Paulo.
É evidente que os manifestantes não estão nas ruas, mascarados, somente pela causa simpática de abortar os 20 centavos de aumento nas tarifas de ônibus. Existe uma conotação política e partidária mostrada pelas bandeiras de agremiações de esquerda extremada, conduzidas nos campos de batalha. Felizmente, existe no País a plena liberdade de reunião e de expressão. Pena que esse mesmo direito não tenha sido exercido para protesto contra o mais estrondoso caso de corrupção ocorrido na história política deste País - o mensalão. A notícia boa é que os segmentos mais jovens recuperaram a capacidade de reagir que parecia perdida desde o episódio dos caras-pintadas que derrubou o presidente Collor. Tivemos, é verdade, uma tentativa de repetir o sucesso do grupo Femen, da Ucrânia. Mulheres que utilizam o corpo como forma de protesto. O ativismo nu, muito mais estético, chamou a atenção do mundo para a luta pela autodeterminação sexual da mulher. No Brasil, o corpo de mulher sempre foi visto como capital no mercado de trabalho e casamento. A postura de usar o seu corpo por uma causa política foi uma ideia criativa e talvez tenha virado um deboche. Teria faltado botar fogo em ônibus?
Os movimentos são violentos porque a sociedade se sente abandonada pelo sistema político e econômico. O problema, como já foi observado, não é o valor da passagem, em si, mas o sistema excludente que obriga a população a não encontrar alternativa do que não ser a violência para ser ouvida. Acontece que as ações repressivas do Estado também têm um núcleo violento. Confirma a tese do filósofo Walter Benjamin de que a violência está presente no próprio direito. Max Weber igualmente reconhece o direito do Estado à violência. A polícia precisa defender o patrimônio público e privado, o direito de ir e vir e a ordem. Em suma: a lei. Infelizmente, na confusão perde-se a dimensão ética e os excessos acontecem atingindo inocentes. Pesquisas do Data-Folha indicam que 55% das pessoas ouvidas na amostragem estão a favor dos protestos contra a majoração das tarifas do transporte; 78% condenam os excessos e a violência.
Ninguém quer violência. Mas precisamos saber aquilo que queremos. O espírito destes movimentos é de revolta e não de revolução. São movimentos de fúria autêntica, no seu estado mais puro e, por isso mesmo "selvagem". Os bons tempos da bonança econômica e de algumas "marolinhas" se foram. O País começa a sentir os efeitos da inflação, a chamada "carestia no custo de vida", e do pibinho. Haverá problemas mais graves pela frente quando o nível de emprego ficar comprometido. A presidente Dilma compara as previsões pessimistas àquelas do "velho do Restelo", contra os altos gastos com das navegações. Trata-se de uma citação de Camões. Mas, lembra um crítico, "Os Lusíadas começam como um épico e termina como réquiem". Os reajustes de preços serão inevitáveis. O povo brasileiro pode tirar de letra essas consequências de uma crise financeira mundial desde que as lideranças apresentem um programa de mudança sociopolítica consistente. Movimentos sem programas se tornam histéricos. A tendência desses fatos é se repetirem. Para o Estado, direito de expressão não pode ser confundido com direito de rebelião. Quem defende o transporte público não deveria depredar ônibus e estações do metrô. Quem não quer estabelecer correlações entre questões sociais, econômicas e a lógica eleitoral, deve, pelo menos, reconhecer que existem fatos novos no cenário político brasileiro.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC