Política

Protestos: o que move estes jovens de Bauru?

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Aceituno Jr. 

Manifestação em Bauru reuniu mais de mil pessoas

Na composição de 1987, os Titãs já cantavam que “a gente não quer só comida”. É com esse caráter não uníssono que o grupo de mais de mil pessoas que marchou pelas ruas de Bauru anteontem - e que pretende repetir o ato amanhã - articula suas ações. Para os organizadores, conquistar a redução da tarifa do transporte público é o pontapé para buscar soluções para a cidade.

Prometendo não criar líderes e nem exaltar partidarismos, os manifestantes definiram ontem que o nome do movimento será Bauru Acordou.

Um dos organizadores, o estudante e programador Igor Fernandes, 27, declara que todo e qualquer apoio é importante e ainda explica realmente as causas do movimento. Confira:

JC  - Vocês têm alguma liderança?

Igor - Após o ato, estamos com 35 pessoas na organização. Mas não há líderes. Não queremos algo individual. Não queremos que uma pessoa só leve o mérito por 2 mil pessoas que saíram pelas ruas. Nosso desejo é manter esse coletivo.

JC  - Um dos pontos que não ficou claro é pelo que vocês lutam. Qual a causa real?

Igor - Trata-se de um movimento indignado. Indignado com saúde, educação, transporte e outras coisas. Nós (Movimento contra Aumento da Tarifa em Bauru) queremos mesmo diminuir a tarifa. Esse é nosso objetivo. Mas a intenção do protesto é que não pare aí. Caso consigamos a mudança da tarifa no transporte público, o objetivo é que esse grupo lute pela saúde e assim por diante. Por isso, o grupo foi batizado de “Bauru Acordou”.

JC - No meio da manifestação, foi jogada a questão da CEI (da tarifa do transporte público) no primeiro ato e isso guiou o protesto. O que vocês pensam disso? 

Igor - A CEI já era um dos temas que estávamos acompanhando e que seria pauta da reunião. Mas a CEI não é o único ponto. Ela é uma entre várias outras questões. Queremos questionar coisas que ela não contempla, como o fato de os ônibus não terem cobradores, horários, itinerários e lotação, por exemplo.

JC - E a questão do cerco na Câmara. Cercear o direito dos vereadores de ir e vir foi visto como?

Igor - No começo, realmente nós pensávamos que eles (parlamentares) só sairiam do prédio se assinassem a abertura da CEI. Depois, entendemos que não podíamos obrigá-los. Só queríamos que eles se explicassem. Queríamos que eles dissessem o que não concordam na CEI. 

JC - Mas você não disse que a CEI não é o único ponto...

Igor - Isso mesmo. Foi o que ficou mais forte naquele momento. Mas temos várias outras questões que queremos melhorar no transporte.

JC - Algo criticado por alguns manifestantes foi a participação de muitas pessoas despolitizadas. Acha que a crítica procede?

Igor - Acho que todo e qualquer apoio é importante. Acredito que ir ao ato já desperta algo. Faz as pessoas pensarem. Se a pessoa é despolitizada, não significa que ela vai continuar assim para sempre. Se essas pessoas não andam de coletivo, mas estão lá gritando por quem anda, acho que é positivo.

JC - Com isso, não corre o risco de perder o perfil do movimento?

Igor - Realmente acho que não. Não vejo nenhum dano na participação dessas pessoas despolitizadas. Vejo que elas estão saindo do comodismo. Acho que é realmente o momento dessas pessoas se interessarem e perceberem que podem deixar de ser despolitizadas.

JC - Como aproximar esses atos de rua com a política realmente? Como fazer essa aproximação com essas pessoas?

Igor - Acho que essa inserção só vai ocorrer por meio de articulação. Como eu disse, estamos agora lutando pela tarifa. Tem gente no movimento que está bastante engajada com a questão da saúde. Por isso, acredito que, depois da tarifa, os próximos protestos em Bauru serão sobre a saúde. Mas essa inserção só ocorre com articulação e argumentação. Estamos tentando evitar agir no impulso para conseguir essa aproximação.

Foco do próximo ato deve ser a prefeitura

Na noite de ontem, um grupo de manifestantes realizou uma reunião para se organizar sobre o próximo ato, que deverá começar amanhã às 16h. O ponto de partida será novamente a praça Rui Barbosa e o destino deve ser a Prefeitura de Bauru.

“Queremos realmente nos articular melhor. Não definimos o trajeto, mas devemos rumar até a Praça das Cerejeiras, onde está a prefeitura, revelou Altair Pereira.

Esta opção de trajeto ganha força após a Câmara Municipal ter jogado a responsabilidade da redução da tarifa para o prefeito Rodrigo Agostinho. Ontem, os parlamentares atribuíram ao chefe do Executivo a função de reavaliar os valores.

No grupo do ato no Facebook, contudo, foi feita uma enquete. Até a noite de ontem, o trajeto até a praça das Cerejeiras era a opção menos votada.

Movimento deve ser apartidário

No primeiro ato da manifestação, várias pessoas estavam com camisetas e bandeiras de partidos políticos. ‘Acho isso péssimo’, crava Igor Fernandes, um dos organizadores. ‘A palavra partido já dá a intenção de divisão. Não é isso que queremos’, complementa.

O mesmo afirma outro organizador do movimento, Altair Pereira, 23 anos. ‘Nossa intenção é mesmo despartidarizar. Pedimos que as pessoas não levem identificações de partidos’, reafirma.

Nas redes sociais, entretanto, alguns manifestantes reclamavam da postura, alegando falta de liberdade de levar acessórios de partidos.

O que você está achando?

'Achei o primeiro ato positivo. Foi uma manifestação pacífica. Os próprios manifestantes não deixaram ter violência.' - Flávio Reis

'Não é só pelo transporte. Bauru está decadente em um monte de coisas. Hospital está uma vergonha.' - Thiago Lopes

'Tem que ter mais cartazes, apitos, bandeiras, câmeras, megafones, pessoal pintado.' - Julia Miedes

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