Quem passa pela Estação Sorocabana de Agudos tem uma surpresa. O ‘paredão’ pichado e sujo de antigamente agora exibe obra de arte de rua. A street art foi adotada para contar a história do município e estampar as aves e animais que podem ser encontradas em toda a região.
Éder Azevedo |
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Garroux conta que chegou a sofrer preconceito no início da carreira |
O autor dos desenhos é Fernando Garroux, que não nasceu em Agudos, mas “adotou” a cidade para colocar em prática sua paixão pelo desenho. Autodidata, o jovem, que já foi pichador, diz que “nasceu desenhando”.
“Desenhar é minha paixão. Quando criança desenhava heróis das revistas em quadrinhos, copiava. Eu me saía muito bem nas aulas de Educação Artística. Com 15 anos minha família mudou para Agudos e eu comecei a desenhar por aqui. Cheguei a pichar, mas foi um período bem curto. Adotei a grafitagem para me expressar.”
No começo as dificuldades eram muitas. “Eu não tinha acesso a Internet e os sites de grafite eram raros. Eu comecei a comprar uma revista, mas era caro e eu só conseguia adquiri-la em São Paulo.”
As pesquisas feitas nas publicações deixaram o autodidata mais focado no assunto. “Fiquei obcecado por grafite. Eu queria espaço para desenhar. Só tinha o papel... Como tinha um amigo que é dono de uma empresa de caçambas, ele permitiu que eu grafitasse algumas delas. Um belo dia eu estava desenhando na caçamba quando uma pessoa acionou a polícia. Ainda bem que eles entenderam o meu trabalho, mas cheguei a ligar para o meu amigo explicar para os policiais.”
Ele comenta que para ganhar dinheiro trabalha em uma empresa de web há sete anos. “Eu já fiz muitas ilustrações e desenhos gráficos. Meu sonho é viver de street art. Surgiu a oportunidade de pintar o muro da estação e eu abracei a causa. Foram três projetos, três anos seguidos para conseguir começar a pintar.”
A experiência de retratar Agudos, que não é sua cidade natal, através do seu desenho deixa Garroux orgulhoso. “Estou orgulhoso de mim, porque eu sempre quis ser artista plástico, apesar de trabalhar com design gráfico. Eu gosto de ilustração digital também. Trabalho com o maior amor, sempre quis mexer com tinta. Vender telas, viver de arte.”
Para ele, o momento é esse. “Eu quero que dê certo. As pessoas estão consumindo mais arte. Eu acho que as pessoas estão se ligando mais na arte de rua. Eu quero ter um pedaço da rua dentro da minha casa. É interessante ter uma tela que usa a mesma técnica da rua, um spray.”
Garroux confessa que nunca frequentou escola de arte. “Eu não sei nada de arte, não estudei para isso. Nasci com o dom de desenhar. Não quero escola de arte. Street art é o meu interesse. O grafite nasceu em Nova York, lugar que quero conhecer, assim como outras localidades onde a arte de rua já está enraizada. O grafite alemão é sensacional. Los Angeles tem vários brasileiros que estão pintando lá. Em Miami tem exposições. Queria conhecer o pessoal de São Paulo e com eles aprender. Conheci só um grafiteiro famoso. Mas estou numa cidade pequena, onde tudo é muito diferente.”
Persistência garantiu obra no prédio
Paredão da Estação Sorocabana foi transformado em um grande painel com a arte do grafiteiro Fernando Garroux
A antiga Estação Sorocabana de Agudos, que durante décadas foi sinônimo de glamour, passou anos em situação de abandono. Há dois anos a estação foi restaurada e o local urbanizado, comenta o turismólogo Flaviano José Garcia.
“O pátio da estação era ocupado por viciados que sentavam à beira da linha do trem para o consumo de drogas. Após a restauração e a urbanização, a frequência melhorou muito. Resolvemos transformar o ‘paredão’ em painel, um resgate da identidade. A ideia é transformar as pichações em grafite. Pretendemos convidar os pichadores e explicar que existe o grafite e que ele é uma arte de rua bem aceita.”
Ele quer explorar vários temas através da grafitagem. “Podemos fazer outras parcerias com outras pessoas do município que tenham interesse em pintar muros, por exemplo. Transformar o pichador em grafiteiro é um trabalho de inclusão”, avalia Garcia.
Os painéis da história de Agudos são resultado de uma parceria da prefeitura com o grafiteiro Fernando Garroux. “A prefeitura compra as tintas e ele monta projeto e executa. A gente valoriza o trabalho e o artista. Ele é um profissional.”
A ideia vinha sendo gerada há três anos. “O Fernando desenvolveu três projetos, e somente o último foi aceito. Eu apresento o tema, ele desenvolve o desenho no computador e só depois de aprovado é que ele começa a realmente pintar.”
Oito painéis
Garroux explica que tirou várias fotos antes de conceber os desenhos. “Eu tiro fotos do ‘paredão’ e coloco o desenho nela, digitalmente. Trago para ele e ele aprova. Como a tinta vem de são Paulo e demora um tempo por conta da compra que é feita pela prefeitura, eu peço as tintas para cada desenho. Primeiro eu risco o contorno e depois preencho com as cores. As sobras de tintas, uso no próximo desenho”, detalha o artista.
Ao todo serão oito painéis com aproximadamente oito metros de altura por 10 metros de largura, exceto o desenho da locomotiva que tem 14 metros de largura. Nos espaços entre um desenho e outro serão colocadas figuras menores das aves e animais que viviam na cidade e região.
A primeira imagem a ser estampada foi a da colheita de café. “Foi feito em dois dias. Do primeiro para o segundo desenho houve um espaço de quatro meses. O carro de boi e a locomotiva foram confeccionados em dois dias. Na sequência vêm os imigrantes, a colheita de algodão, os negros e os índios.”
Grafiteiro ou pichador?
O grafiteiro é um pichador evoluído, na opinião de Fernando Garroux. “Rola um respeito entre o pichador e o grafiteiro. Eles sabem que dá muito trabalho fazer um desenho. Nunca picharam um grafite meu. Eles usam espaços ao lado do desenho.”
O grafiteiro lembra que já teve um de seus desenhos destruído. “Certa vez eu pintei um anjinho próximo de uma igreja. Uma mulher, que não sei quem é, tratou de pintar por cima. Um amigo meu estava passando pelo local e me avisou, mas eu não tive o que fazer. Acho que ela não entendeu.”
No início da carreira de grafiteiro, Garroux sofreu com o preconceito, até mesmo da família. “Eles nunca foram contra eu mexer com arte, mas arte de rua, ainda mais em uma cidade de pequeno porte onde todos se conhecem, eles não aprovavam muito. Eles achavam que eu ia perder tempo com o spray na mão. Hoje é tudo diferente. Eles entenderam a street art.”
Em várias situações o grafiteiro sentiu na pele o preconceito dos moradores. “Já fui xingado. Tem gente que passa de carro e diz que vai chamar a polícia. A polícia já foi chamada para me levar preso. Certa vez eu fazia um grafite em uma caçamba, com a permissão do dono da empresa que é meu amigo, quando a polícia chegou. Pediu documento e resistiu quando eu expliquei que o dono tinha permitido. A situação foi desfeita quando ele se lembrou do grafite da Estação Sorocabana.”
Prefeitura quer ampliar o trabalho de grafiteiros
O prefeito de Agudos, Everton Octaviani, quer que os atos de vandalismo se transformem em arte. “Queremos incentivar os pichadores a fazer arte. Estamos buscando novos espaços para a grafitagem, paredes, muros que possam receber desenhos, figuras dando um novo layout à cidade.”
Segundo ele, utilizar o trabalho com grafitagem foi uma iniciativa voltada ao turismo e uma forma de conter as pichações. “Nós respeitamos os grafiteiros como artistas. Buscamos através desse trabalho incentivar aqueles que picham a se tornarem grafiteiros. A equipe da prefeitura de comunicação e turismo, junto com o Fernando Garroux que é profissional da área, desenvolveu uma oficina e incentivou os participantes a fazer arte ao invés de vandalismo”, diz Octaviani.
Os painéis que estão sendo feitos no ‘paredão’ da Estação Sorocabana deverão ficar prontos até o final do ano. “Queremos ampliar a ideia. Mesmo na estação tem espaço. Vamos buscar outros.”
Spray tem filtro solar
Quem pensa que para pintar os painéis é usado um spray comum, daqueles comprados em loja de material de construção, está enganado. Para o trabalho profissional, as tintas usadas precisam ter outra composição. Do contrário, desbotam, avisa o grafiteiro Fernando Garroux.
De acordo com ele, o spray utilizado nas paredes do galpão é importado de Barcelona. “Ela tem uma válvula desenvolvida para grafite e permite controlar a pressão para definir o traço. A válvula é melhor. Estou usando um spray de baixa pressão. Ele não escorre e tem tinta grossa com filtro solar para durar muitos anos sem desbotar. Ela foi desenvolvida para grafite.”
Moradores precisam conhecer origens
Resgatar a história do município é uma busca que não sai da agenda do turismólogo da prefeitura municipal de Agudos, Flaviano José Garcia. Para ele, os moradores e visitantes precisam conhecer as origens da cidade.
A parede do galpão estava toda pichada, descascada e com uma aparência horrível, enquanto a estação construída em 1903 estava restaurada e bonita. “Não combinava, porque o turista vinha conhecer a estação e o fundo estava depredado. Pensei em corrigir a parede e fazer painéis. Foi aí que nasceu a ideia de contar a história através do grafite.”
Para tirar do papel e passar para a parede, o turismólogo estudou alguns fatos para fazer uma sequência histórica. “Os índios, os escravos, os imigrantes, a ferrovia até chegar aos dias atuais. É interessante porque temos um projeto de turismo pedagógico que se chama ‘Agudos, é preciso conhecer para Amar’, desenvolvido com a rede municipal, que tem o mesmo objetivo. O projeto foi batizado pela historiadora de Agudos Lya de Rosa.”
A estação acolhe atualmente a diretoria de comunicação e turismo. A sede do Comtur, a Casa do Artesão e parte da secretaria de agricultura e meio ambiente. “Vamos ter um acervo ferroviário e estamos programando uma exposição temporária de peças da ferrovia. Vamos trazer as escolas e a comunidade para conhecer essa realidade.”
Vagão levava maçãs para a cidade
Painéis grafitados nos muros da antiga estação contam a história de Agudos com muitas cores e sensibilidade apurada
Maria Helena Napoleone Cardia nasceu em Agudos e lembra com saudade da chegada do trem na Estação Sorocabana. “Tinha um portão de ferro na frente, aliás, um portão muito bonito que nem sei o que foi feito dele. A chegada do trem era uma festa para os agudenses, que esperavam com ansiedade a hora de poder comprar maçãs. Era o único lugar que vendia a fruta. Quem trazia era o vagão restaurante. Eles vendiam as frutas que sobravam.”
Ela comenta que o trem vinha de Bauru e seguia para a Capital, passando em Lençóis Paulista e Botucatu. “O barracão que hoje abriga uma incubadora de empresas era na época um depósito de arroz e feijão. Depois ficou por um tempo abandonado”, lembra Maria Helena.
Atualmente, na opinião da moradora, o local é motivo de admiração dos moradores e visitantes. “A estação foi revitalizada, o local urbanizado e está bem frequentado. A história estampada através do grafite embelezou a cidade.”
Segundo Maria Helena, muitos moradores não conhecem a história da cidade em que moram. “Em Agudos temos um projeto que mostra a época do plantio de café, da chegada dos imigrantes, da estrada de ferro em 1903. Há anos mantemos o museu com peças e documentos histórico para manter viva a história.”
Ela acredita que educando as crianças, aos poucos, todo agudense vai conhecer a história da cidade. “Tem um projeto com as crianças da Emeis. Eles levam até os seus familiares as informações. A tendência é expandir com a fomentação do turismo. Temos uma historiadora, a Lya de Rosa, que está escrevendo sobre a Rua 13 de Maio, importante via de comércio. Temos registros das fazendas cafeeiras que deram origem à cidade e tantas outras informações gravadas em documentos.”
‘Agudos, é preciso conhecer para Amar’
O projeto ‘Agudos, é preciso conhecer para Amar’ busca mostrar a história do município para os moradores, especialmente para as crianças, que são agentes multiplicadores na opinião do turismólogo Flaviano José Garcia.
“O projeto já tem sete anos e é dividido em duas partes. É uma parceria da prefeitura com os atrativos turísticos. Na primeira, as crianças, uma vez por ano, saem da sala de aula para conhecer os pontos turísticos, através de city tour. São transportadas por um ônibus com um guia que vai explicando cada ponto a ser mostrado. Elas ficam sabendo a história das praças, do comércio, da era cafeeira. Visitam o museu, Espaço Histórico Plínio Machado Cardia onde está o acervo histórico de Agudos. Ali há fotos e documentos.”
Na segunda etapa, as crianças visitam uma antiga fazenda cafeeira. “Onde elas recebem informações sobre a era do café no município. Ficam sabendo como eram os coronéis e o que isso significou para Agudos.”
Garcia comenta que a prefeitura pretende ampliar o projeto. “Para que os moradores comecem a identificar os prédios históricos, as praças como algo que faz parte do espaço que elas também ocupam identificar o que foi ali. Os painéis históricos vão ajudar nesse resgate.”