Política

Falta de coletivos pode afetar 100 mil

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 7 min

A greve que retirou 100% do transporte coletivo das ruas de Bauru deve continuar hoje. O alerta é feito pelo advogado da Comissão dos Trabalhadores do Transporte Coletivo, Hudson Chaves. A alegação para a manutenção da paralisação, conforme a comissão, seria a falta da notificação do líder do movimento, Valter Dutra, que não teria sido comunicado oficialmente, até o fechamento desta edição, sobre a determinação do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), concedida na tarde da última sexta-feira.

 

Douglas Reis

Feira Livre registrou redução no número de pessoas

Conforme o JC divulgou em edições anteriores, a liminar obtida por parte da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) e da Associação das Empresas do Transporte Coletivo Urbano (Transurb), formada pelas operadoras Grande Bauru, Baurutrans e Cidade Sem Limites, determinou que os motoristas circulem com 100% da frota nos horários de pico e 80% de entrepico, sob pena de multa diária de R$ 100 mil à liderança da greve em caso de descumprimento.


As regras, entretanto, só passam a valer a partir do momento em que o líder do grupo for notificado sobre a medida cautelar, fato que não aconteceu até a noite de ontem.


Por conta da situação, ao menos 100 mil usuários podem ser afetados pela falta do transporte público nesta segunda-feira, conforme a Transurb.



“Ele não sumiu”


Durante o final de semana, um oficial da Justiça do Trabalho tentou localizar Dutra, mas sem sucesso.


“Estamos aguardando a notificação para realizar uma assembleia com todos e decidir o que será feito. O Dutra não sumiu, como estão dizendo. Ele está presente no movimento e se deslocando entre as duas sedes das empresas desde o início da greve”, defende o advogado Hudson Chaves, em entrevista concedida ontem ao JC.


No sábado e domingo, contudo, a reportagem esteve na garagem das empresas por quatro vezes à procura do líder do movimento, mas ele não foi encontrado.


O grevista também não respondeu aos chamados e mensagem postal registrados pela equipe do JC em seu celular.


Questionado sobre a situação, o advogado informou que tentaria localizá-lo e retornaria a ligação à reportagem, o que não aconteceu até o fechamento desta edição.


Motoristas presentes em frente à garagem da Baurutrans e Grande Bauru, localizada no Jardim Niceia, ontem por volta das 8h, disseram ter expectativa de que os circulares voltem para as ruas somente após um acordo que deve ser firmado ainda hoje em uma audiência marcada para as 14h no TRT em Campinas.



Na ilegalidade


Mesmo sem a validação da determinação em questão, a legalidade do movimento, dependeria do cumprimento de no mínimo 30% da frota nas ruas.


Mas a paralisação entra em seu terceiro dia consecutivo com a totalidade dos ônibus parados.


Apenas duas vans utilizadas por agendamento de consulta e atendimento às pessoas com deficiência física foram liberadas durante o período do movimento.


A associação que representa as empresas operadoras e a comissão dos motoristas, dissidentes do sindicato da categoria, o Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Coletivo (Sindtran), divergem sobre a questão.


Para a Transurb, os motoristas se recusam a obedecer à decisão, que prevê toda a frota operando nos horários de pico, assim como a exigência legal de liberação mínima de 30% dos ônibus.


“A Transurb informa que as empresas que operam o transporte coletivo na cidade estão 100% preparadas para pôr os ônibus nas ruas, em obediência à decisão do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de Campinas, em resposta às ações impetradas pelas empresas e também Emdurb, gestora do sistema. No primeiro dia da greve, os motoristas alegaram necessidade de segurança especial nos veículos, por temerem reação da população. No sábado, dia 22, e ontem, os motoristas não se apresentaram para ingresso nas empresas, apesar de devidamente transportados desde suas residências até o local de trabalho pelos coletivos “Reservados”, destinados a essa finalidade”, aponta a associação por meio de nota.


Já o advogado da comissão rebate as informações alegando que os 30% não foram mantidos por causa da recusa das empresas em se responsabilizarem pelos possíveis danos aos coletivos que circulariam com a frota mínima.


“Apresentamos uma lista com o nome dos trabalhadores que garantiriam 30% do serviço na sexta-feira, mas a Transurb recusou. Colocamos apenas a condição de garantia de responsabilidade da empresa sobre os possíveis danos dos coletivos em circulação. Na ocasião, eles disseram que receberam ligações de moradores ameaçando depredar os ônibus, caso a frota total não fosse liberada”, rebate Hudson.


Em entrevista concedida ao JC na última sexta-feira, Dutra afirmou que pretende recorrer da decisão do TRT.

 

Manifestação

Está marcada para as 8h horas de hoje uma manifestação de estudantes em frente à Câmara Municipal de Bauru. O movimento, conforme o advogado da Comissão dos Trabalhadores do Transporte Coletivo, Hudson Chaves, deve ganhar o reforço dos motoristas em greve.


“A totalidade dos condutores participará. Eles irão protestar a favor do rompimento do contrato com as três empresas e pedir para que o município assuma o transporte coletivo público, retomando a negociação com os motoristas”, explica Chaves.


O movimento, segundo ele, sairá após uma reunião entre a categoria em frente à sede da Grande Bauru e Baurutrans. Os trabalhadores prometem estar no local a partir das 5h.

 

“Greve deve afetar cofres públicos”, diz prefeito

 

A greve de 100% do transporte coletivo não afeta a população somente de forma direta, conforme o JC vem divulgando. Com a ausência dos circulares pelo terceiro dia consecutivo na cidade, diversos pontos comerciais registraram queda no consumo, o que conforme o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB), deve refletir em impacto negativo também para os cofres públicos.


 “O prejuízo acontece para todos os lados. Isso foi uma maldade por parte do movimento. Não precisava caminhar nessa direção de paralisação total. O tribunal já havia concedido audiência na segunda-feira para resolver o problema”, critica o prefeito.


Segundo Agostinho, o prejuízo ainda não pode ser contabilizado, mas a diminuição do consumo pode impactar na arrecadação municipal. “Tudo isso pode implicar no valor da tarifa, que ainda não foi fechado por conta dessa situação. Assim, como deve refletir também na diminuição da arrecadação no final do mês, já que muitas pessoas deixaram de consumir por conta da falta do transporte”, aponta o prefeito.



De carona ou na espera


Sem o transporte público, muitas pessoas que trabalhavam em plantões na noite de sábado foram encontradas em pontos de ônibus à espera de carona logo no início da manhã de ontem. “Hoje (ontem) ainda consegui que minha filha viesse, amanhã ela trabalha e se não tiver ônibus terei que voltar a pé para casa”, comenta a servente do Hospital de Base, Renilda Pereira da Silva, moradora do Jardim Ouro Verde, que estava em um ponto na rua Monsenhor Claro.


“Está complicado. Todos têm o direto de manifestar, mas tirar todos os ônibus das ruas prejudica muito os trabalhadores”, reforça a técnica de enfermagem Rosa Jupi.


No Centro da cidade, um aposentado esperava pelo circular em um ponto de ônibus na avenida Rodrigues Alves. “Eu não sabia da greve. Estou pensando em pagar um pouco a mais na passagem do Intermunicipal para chegar até a Vila Independência”, afirma o aposentado ao ser informado sobre a paralisação.

 

Movimento cai no Pronto-Socorro e até na feira

A paralisação total do transporte coletivo também trouxe transtornos para quem necessitava de atendimento médico no último final de semana e não dispunha de meios próprios para chegar até o Pronto-Socorro Central (PSC) ou Pronto-Atendimento Infantil (PAI).


Com o filho de 4 anos ardendo em febre, o pedreiro, Marcos Eugênio De La Cruz, 28 anos, precisou emprestar o carro de um vizinho para socorrer o pequeno Wesley Jeferson De La Cruz. “Por sorte, me emprestaram o carro, senão não saberia o que fazer. O Jaraguá é muito longe e não tem ônibus”, frisa.


A mesma preocupação era dividida por Alessandra Mazero, 30 anos, com a filha Lívia Mazero. “Ela estava queimando em febre. Como não tinha ônibus, pedi carona para o pastor da Igreja”, afirma a mulher.


Queda


Conforme o JC apurou extraoficialmente no PSC, a falta de coletivos resultou em uma queda superior a 50% dos atendimentos feitos pela unidade da meia-noite de sexta-feira até a meia-noite de sábado. Já no PAI, apesar da diferença ser menor, cerca de 30%, a diminuição do número médio de atendimentos também chamou a atenção.



Feira livre


Na feira livre da quadra 3 da rua Gustavo Maciel, a sensação de vazio entre os comerciantes era geral, na manhã de ontem.


“Nunca vi a feira desse jeito, vazia. Geralmente não dá nem para enxergar as barracas nesse horário. Acho que foi por causa da falta dos ônibus”, comenta Cristina Yonamine, 45 anos, feirante há pouco mais de 20 anos.


A mesma opinião era dividida entre Carlos Roberto Bartoloni, 58 anos, que comercializa peixes na feira e Richard Norato, 36 anos, que vende doces e queijos no local. “Esperamos a semana toda e, pelo jeito, o dia será parado por falta dos ônibus”, comenta Richard. “Com certeza a falta de ônibus vai reduzir nosso movimento em até 50%”, completa Carlos.

Cobertura

O JC mantém cobertura total da greve. Mais informações e a situação atualizada dos ônibus em Bauru podem ser conferidas pelo site JCnet.

 

 

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