Seus olhos castanhos aguçados captavam cada movimento, o suor escorria por sua testa, apenas o resultado de seu trabalho, de seu esforço. Os pés doíam graças à longa caminhada, mas aquela dor era irrelevante. A máscara sobre a boca não era para manter o anonimato, era apenas para se proteger da injustiça impregnada no ar. Sua garganta dolorida não iria impedi-la de continuar gritando, em busca de seus direitos, da terra prometida, da revolução. A bandeira do Brasil nas costas mostrava que finalmente tinha orgulho de seu país.
Nunca fora uma garota patriota, nem uma rebelde. Era comum, com um sonho no coração, uma revolução na mente, e uma necessidade de liberdade na alma. Apesar da constante vontade de mudança, nunca pensara que um dia viveria aquele momento. A faixa em mãos, os dizeres em negro. Queria respeito. Seria pedir muito? Os homens fardados encaravam-na, ela e muitos outros que queriam mudanças, as armas em riste, os escudos protegendo-os, enquanto ecoava pelas ruas a necessidade da geração atual, que berrava a plenos pulmões: "Sem violência".
Vira seu pai morrer em um corredor de hospital, esperando em uma fila enormemente grande por um mero quarto. Sentira a vontade da mãe de que sua vida fosse diferente, com somente um salario mínimo nas mãos e uma carga horária quase escrava. Não, não era apenas por vinte centavos, era pela vontade de ter um mundo melhor, de um país melhor. Ouviu os disparos, viu a fumaça branca invadir o ar e impregnar seu corpo, sentiu a opressão, o quanto temiam aquela revolta e correu juntamente de outros.
Mas correu apenas por hora. Agora a população sabia seu poder, entendia o que podia fazer. Agora, ninguém poderia detê-los. O Brasil finalmente estava acordado, e todos entenderiam como "verás que o filho teu não foge a luta".
Milena Aparecida de Almeida - aluna do 1º ano do Ensino Médio - Escola Sesi de Pederneiras