Flertar e chegar junto, logo de cara, não é fácil para muita gente. Artimanhas, como os “mutirões” de amigos que tentam o primeiro contato com a pessoa pretendida, presentinhos “despretensiosos” ou os bilhetinhos do “bom e velho” correio elegante, são formas de amenizar o “choque inicial” e, até mesmo, minimizar os efeitos de um eventual “fora”.
E a antiga paquera dos recadinhos, muito comum principalmente em época de festejos juninos, está de volta e de forma repaginada, moderna.
Através da Internet, o correio elegante deixa os pedaços de papel em mal traçadas xavecos e garranchos para ganhar as redes sociais, principalmente o Facebook, através dos spotteds (“marcados”, em Inglês), mensagens postadas nas fanpages e compartilhadas instantaneamente.
Os maiores adeptos desta “nova velha” forma de chamar a atenção por meio dos pretendentes chegou ao Brasil com maior força dentro das universidades. Encontrar aquela gata que deu mole no corredor, mas depois “sumiu do mapa” ou um rapaz boa pinta que cruzou olhares, mas também deu área sem ao menos falar o nome agora é tarefa mais fácil, garantem os entusiastas das páginas.
Em Bauru, o Spotted Unesp é a página mais popular do gênero no Facebook. No ar há menos de três meses, a fanpage tem mais de 2,5 mil curtidas dos usuários.
Bem-humorados, ousados e até mesmo apaixonados. Os recados diários, segundo os criadores da página, já chegaram a 50. Agora, de acordo com uma integrante da equipe que desenvolveu o Spotted Unesp, que pediu para não ser identificada, esfriaram um pouco: “Está na média de 30 mensagens por dia”, contabiliza.
A quantidade, não diminui a intensidade dos torpedos, visto os suspiros virtuais derramados por um estudante que, sem ao menos saber o nome da pretendida, se declara através da mídia social, terreno perfeito também para o bom humor.
“Faz tempo que eu reparo numa moça de cabelo preto, liso e comprido, não muito alta e com uma risada contagiante. Sei que ela faz jornal diurno, mas não sei se é bixete ou veterana Já a vi muitas vezes no bosque e já ouvi algumas conversas dela com os amigos porque eles falam muito alto. Moça, não sei seu nome, mas obrigado por existir, sua risada é como um raio de sol na minha vida”, declama.
Outras marcações são mais diretas e pretendem que o “jogo” flua na mesma velocidade da Internet:
“Quem é o gato que está de calça preta, camisa branca e tênis e tem uma ‘tatoo’ no braço direito andando aqui na cantina da FEB? Para de desfilar na FEB e vem desfilar na minha cama, seu lindo”, “intima” a pessoa pretendente.
Avalanche
Integrante da equipe de criadores da página, uma estudante de Jornalismo, de 23 anos, admite que desenvolveu a iniciativa espelhada em fanpages semelhantes de outras universidades (na região, unespianos de Botucatu também já entraram na onda do correio elegante virtual). Ela sabia que o perfil se tornaria um viral. Contudo, admite a surpresa pela moda ter sobrevivido mais do que esperava.
“Achava que a vida útil da página não ultrapassaria um mês”, confessa ela, que prefere ter a identidade mantida em sigilo para evitar receber mensagens, em sua página pessoal, de gente que, eventualmente, “não saiba brincar”.
O site tem regras, garante. “Quem se sentir ofendido ou alguém que eventualmente se arrependa das mensagens postadas, tem a garantia de que o recado ou imagem é deletado”, assegura.
Modismo?
Como todo viral de Internet, que rapidamente vira hit na web, a moda virtual tem prazo de validade que expira com a mesma velocidade com que se tornou fenômeno. Contudo, o correio elegante eletrônico, admite a própria estudante que ajudou a desenvolver a página em Bauru, até que dura mais que o previsto.
Com regras de uso e respeito a quem, eventualmente, sinta-se lesado com algum tipo de mensagem ou imagem, o site, entretanto, distingue-se de alguns que usam a mesma tática do desprendimento, mas sem freios.
É contra esse mecanismo que Paulo Milreu, diretor da Associação Centro-Oeste Paulista de Agências Digitais (Acopadi), chama a atenção. Para ele, iniciativas que abusam, principalmente da exposição de terceiros, estão fadadas ao modismo passageiro. “Há também o problema da falta de credibilidade”, opina.
Cupido virtual deve ser (só) primeiro passo
Levar um fora virtualmente, sem estar cara a cara com a pessoa, é menos dolorido. Esta é uma das razões pela maior coragem em se tomar a iniciativa na frente do computador ou com o tablet na palma da mão. E não há problema em utilizar meios para “minimizar” o impacto de uma eventual investida mal sucedida, considera a psicóloga Maria Regina Corrêa Lopes Vanin.
Especialista em relacionamentos, a terapeuta, contudo, ressalva. O correio elegante, seja na versão antiga ou repaginada, deve ser utilizado apenas como primeiro passo. “Depender apenas do meio eletrônico para se relacionar é sinal de problema de autoestima”, alerta. “A tecnologia deve ser usada para facilitar a comunicação entre as pessoas e não para dificultá-la”, diferencia.
A maior dificuldade na hora da paquera, observa a psicóloga, é o medo do “não”. “Algumas pessoas reagem melhor diante de respostas negativas em comparação a outras. “A rejeição ‘virtual’ é apenas lida, são simplesmente palavras. Já uma resposta negativa olho no olho revela muito, pois o corpo ‘fala’ 90%. A boca fica apenas com 10%”, acentua.
Somente ler um “tenho namorado” ou “não posso, infelizmente sou comprometido”, de fato, é mais fácil do que encarar um sorriso irônico, mesmo que involuntário, ou um olhar de lado ao estilo “quem essa aí pensa que é para tentar algo comigo?”. “Tem a voz, o olhar. Nossa linguagem corporal ‘diz’ muito mais que a forma verbal. Frente a frente é mais difícil o eventual ‘não’”, reitera.
Por outro lado, o “som do sim” ao vivo também é mais significativo. A partir da resposta positiva virtual, reforça a especialista, o melhor a fazer é partir para o “contato analógico”. “Após o primeiro contato, é preciso ultrapassar o estágio virtual, marcar um encontro pessoalmente. Caso falte coragem, mesmo após resposta positiva pelo meio virtual, a pessoa exige certa atenção, terapia mesmo”, analisa.
Diversão com regras
A ideia do Spotted é descontrair e facilitar o flerte. “Pegou alguém em uma festa e não lembra o nome? Trocou olhares na cantina mas não teve coragem de chegar. Nunca mais encontrou a bonitinha da academia? Mande sua mensagem privada e a publicaremos anonimamente”, convidam os idealizadores da brincadeira em Bauru.
Contudo, asseguram, por mais divertida que seja a ideia, limites são respeitados. Na própria página, está claro que o usuário que envia mensagem, compulsoriamente, autoriza a divulgação do conteúdo e cede direitos autorais.
No entanto, frisam os idealizadores, textos ofensivos, com qualquer tipo de preconceito ou intenção de denegrir a imagem de alguém não são publicados. “Caso alguma pessoa se sinta lesada ou ofendida por alguma postagem o conteúdo é excluído imediatamente”, asseguram.