Após a euforia provocada por um longo período de farto acesso ao crédito, veio a ressaca. Os consumidores estão cada vez mais endividados, uma tendência já percebida no início do ano e que não tem prazo para ser superada.
Segundo dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) de Bauru, a dívida acumulada pelos consumidores no comércio somou R$ 25,983 milhões até o final de junho de 2013. O volume é 53,5% maior do que o montante acumulado até o mesmo mês do ano passado, de R$ 16,921 milhões.
João Rosan |
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Consumidores caminham pelo comércio de Bauru, que continua com grande movimento |
Já o número de pessoas com nome sujo cresceu 36% nos últimos 12 meses, variando de 26.490 para 36.040 consumidores inadimplentes, o que corresponde a mais de 10% da população da cidade. Os dados do SPC mostram que, além de o grupo de devedores ter aumentado, o valor médio devido por cada um deles também apresentou elevação – de R$ 638,80, foi para R$ 720,97 em junho passado.
Além da facilidade para fazer empréstimos, com juros baixos e longos prazos de pagamento, a popularização do uso do cartão de crédito também está entre os motivos que podem explicar o ‘enforcamento’ da população. “Hoje em dia, cerca de 90% das compras são feitas com cartão e as lojas não checam a situação do cliente no SPC, porque a garantia de pagamento é dada pelo banco”, pondera Marcelo Rodrigues Afonso, proprietário de uma loja de confecções.
Com maior limite para gastar (oferecido e cobrado com juros altíssimos pelas instituições financeiras) e facilidade para financiar, muitos consumidores perderam o freio. “Acho que a situação poderia ser ainda pior se as lojas ainda fizessem crediário. Exatamente pelo alto índice de inadimplência, quase ninguém mais trabalha com esta modalidade de pagamento”, comenta a gerente de uma loja de calçados, Onélia Nó.
Estímulo
Afonso ainda oferece a opção de pagar no crediário ou em cheque, mas diz que procura estimular os consumidores a quitar os débitos com cartão de crédito ou à vista. “No cheque, a gente parcela só em duas vezes. Mesmo assim, metade deles volta por não ter fundos. Já à vista, damos desconto e fazemos em até seis vezes no cartão.”, frisa.
E são atrativos como este que fazem com que muitas pessoas sem noções de gestão financeira sejam levadas ao impulso das compras. Muitas, aliás, acabam se descontrolando de tal maneira que nem mesmo sabem que estão endividadas.
Segundo pesquisa realizada pela empresa Boa Vista Serviços, 54,9% dos consumidores brasileiros desconhecem sua situação junto aos órgãos de proteção ao crédito (leia mais abaixo). Situação vivida até ontem pelo pedreiro autônomo Ednaldo Rodrigues Mello, 27 anos, que passou os últimos seis meses acreditando que estava com o nome negativado.
Ontem, foi à sede do SPC em Bauru e descobriu que não tinha mais nenhuma dívida pendente. “Em dezembro do ano passado, fui fazer uma compra e me disseram que eu estava com o nome sujo. Acho que a dívida deve ter caducado, mas ainda preciso consultar no Serasa”, observa ele, que pretende parcelar a compra de móveis para redecorar a casa. “Fiquei seis anos comprando somente à vista. Fiquei contente de saber que, ao menos no SPC, estou com o nome limpo”, completa.
Desconhecimento sobre débitos
Em pesquisa realizada pela empresa Boa Vista Serviços, mais da metade dos consumidores (54,9%) afirmou não ter conhecimento sobre a existência de dívida ou quem é o credor, condição indispensável para regularizar a pendência financeira. Isso ocorre apesar do envio da carta de aviso de débito no momento da inclusão da pendência na base de dados do Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC).
Os dados foram obtidos por meio de um levantamento realizado com 2,2 mil consumidores de todo o País, usuários do serviço de autoconsulta gratuita do portal www.consumidorpositivo.com.br. A enquete, realizada de 6 a 16 de junho de 2013, aponta que, quase sempre, o consumidor descobre a dívida quando vai efetuar uma compra ou quando procura o SPC já com o objetivo de fazer uma compra parcelada.
Em Bauru, uma comerciante de 47 anos, que preferiu não se identificar, foi até a sede do SPC para consultar o seu nome porque pretendia abrir um negócio em sociedade com seu filho. “Uso bastante cartão de crédito e não sei como está minha situação. Para abrir a empresa, preciso estar com o nome limpo”, pondera.
A mulher, que diz já ter ficado com o nome sujo outras vezes, estava novamente negativada, mas preferiu não revelar o montante à reportagem. Já a auxiliar de cozinha Rosana Soares da Silva, 49 anos, sabia que estava endividada e foi ao SPC para conhecer o valor exato do débito.
Saiu do prédio contente ao descobrir que o montante era menor do que imaginava. “Achava que estava com o nome sujo em duas empresas, mas é uma só e devo apenas R$ 75,00. Vou pagar já na semana que vem, quando receber o pagamento, para poder financiar um carro”, comenta.
Outra informação surpreendente obtida pelo levantamento da Boa Vista Serviços foi o fato de quase um terço dos consumidores (29%) pagar pela consulta. Vale lembrar que o acesso gratuito a essa consulta é direito do consumidor e pode ser realizado nas sedes do SPC e Serasa ou até mesmo por serviços especializados via Internet.
