“Perdoe, viva, aproveite a vida, não se preocupe com besteiras e com coisas que não te fazem bem... porque o dia de amanhã só pertence a Deus!”. Publicada nas redes sociais, foi essa epifania que Diogo Martins, 19 anos, teve após seu carro bater em uma vaca e capotar em Bauru. Com ele, estava Caroline Molina, 21, que está na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). O caso de mais um acidente provocado por animal em via pública preocupa.
A colisão ocorreu pouco após a meia-noite de ontem na quadra 28 da avenida José Vicente Aiello. No carro, um Fiat/Uno, além de Diogo e Caroline, estavam também outros dois adolescentes, com idades de 15 e 17 anos.
De acordo com o boletim de ocorrência (BO), o automóvel transitava no sentido Lago Sul-Cemitério do Ipê, quando colidiu com a vaca e capotou. Todos os ocupantes foram socorridos pela Unidade Resgate (UR) do Corpo de Bombeiros.
O motorista Diogo e os dois adolescentes tiveram, de acordo com o registro, somente ferimentos leves. Não foi o caso de Caroline Molina. Com lesões graves, ela foi internada na Hope (espécie de UTI) do Hospital de Base.
No perfil da vítima nas redes sociais, os amigos desejavam melhoras. “Logo, logo você vai estar saltitante e radiante novamente”, escreve um deles.
Ainda no começo da noite de ontem, a jovem – que fez aniversário no último dia 23 - seguia internada.
Após ser atingida pelo carro, a vaca morreu no local. O caso foi registrado na polícia como lesão corporal na direção de veículo automotor, capotamento e omissão na guarda/condução de animais.
Assim como na maioria dos casos, a dificuldade é encontrar o proprietário desses animais. No BO, os policiais que atenderam a ocorrência relatam que não foi possível localizá-lo.
O indiciamento do dono de um animal solto varia de acordo com as consequências de cada situação. De acordo com o delegado da Central de Polícia Judiciária (CPJ) Dinair da Silva, a punição pode progredir desde o crime previsto no artigo 132, que é a periclitação da vida ou saúde de outro (que resulta em três meses a um ano de prisão) ou até mesmo em penas maiores.
O delegado explica que, se houver a morte da vítima, o proprietário pode responder por homicídio culposo ou, em outros casos, com dolo eventual, por ter assumido o risco e as consequências de deixar um animal solto.
“Além das questões criminais, eles podem responder de forma civil, pagando indenizações às vítimas. Mas, sempre que acontece um caso desses, instauramos o procedimento para tentar localizar o proprietário”, completa Dinair da Silva.
Fiscalização
O delegado Dinair da Silva confirma a preocupação com esses acidentes. Ele explica que os casos envolvendo colisões com animais de grande porte soltos nas vias preocupam pela intensidade em que ocorrem. “A maioria deles resulta em fatos graves”, complementa.
E se a punição é algo difícil, é sabido ainda que o problema começa em um estágio antes: a própria prevenção precisa melhorar. Segundo o delegado, é muito importante a fiscalização do poder público para localizar esses animais soltos e tirá-los das ruas.
O acidente ocorrido na madrugada de ontem foi no perímetro urbano de Bauru. Assim, a responsabilidade é do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) da cidade. Se ocorresse em rodovias, as concessionárias ficariam com tal encargo.
No final da tarde de ontem, a reportagem do JC esteve na via onde o carro bateu na vaca e capotou. Junto com partes do automóvel, o cadáver do animal ainda estava lá.
Serviço
Se os animais estiverem soltos em perímetro urbano, denúncias podem ser feitas no CCZ, pelo telefone (14) 3103-8050. Nas rodovias, as pessoas devem ligar no 0800-0555510 ou acionar a ouvidoria do DER pelo e-mail ouvidoria@der.sp.gov.br.
Vítimas de acidente ocorrido há 30 dias estão em recuperação
Se os primeiros momentos de julho foram assustadores para o grupo de jovens, os últimos momentos de maio também foram inesquecíveis para uma família. No último dia daquele mês, cinco pessoas ficaram feridas após, no quilômetro 225 da rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (Bauru-Jaú), colidirem o Corsa em que estavam com um cavalo.
Um mês após o grave acidente, as vítimas ainda passam por recuperação. Lucas Rodrigues Bento, 6 anos, é quem trava a luta mais difícil. Após mais de 20 dias na UTI, na semana passada, ele foi para o quarto. “Ainda usa uma sonda para se alimentar. Mas, está melhorando. Já se mexe melhor”, conta o familiar José Neto, 29.
No acidente, a mãe de Lucas, Lucimara Helena Rodrigues Bento, 36 anos, teve traumatismo craniano. Fora ela, Cristiano Donizetti de Oliveira, 25, também foi socorrido em estado grave. “Graças a Deus, todos estão melhores”, relata o familiar.
Além de a causa mais uma vez ter sido um animal solto na pista, o acidente ganhou notoriedade pelo ato heroico de um dos ocupantes. Com apenas 12 anos, Benedito de Souza Rodrigues conseguiu sair das ferragens e buscou ajuda.
DER fiscaliza e cobra até o conserto de cercas
Por meio da assessoria de comunicação, o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) informa que realiza a fiscalização das rodovias sob sua administração por meio das viaturas das Unidades Básicas de Atendimento.
Em reportagem veiculada no ano passado, a Polícia Rodoviária alertava sobre o perigo das falhas em cercas de propriedades nas margens de rodovias. De acordo com o DER, todos os proprietários são alertados sobre a obrigação de manter cercas e aramados em boas condições de conservação.
“Caso seja constatada alguma irregularidade, o proprietário recebe um ofício alertando sobre a possibilidade de fuga dos animais de sua propriedade para rodovias, o que pode ocasionar acidentes. Desta forma, o DER solicita providências urgentes para a solução do problema”, destaca, em nota, o órgão.
O departamento explica também que expõe aos proprietários sobre a responsabilidade civil e criminal no caso de acidentes