Geral

Férias aumentam déficit de médicos

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 7 min

João Rosan

 Fernando Monti: “Falta de médicos para plantões

ocorre de maneira generalizada”

Assim que chega o período de recesso escolar, um problema crônico volta a afetar a população de Bauru: a falta ainda mais acentuada de médicos. Para aproveitar a época de descanso junto aos filhos, muitos profissionais da saúde também saem em férias, aumentando o déficit de especialistas para atender a população.

Para piorar, com o início do inverno, cresce o número de pessoas com problemas respiratórios, o que acaba sobrecarregando o atendimento nas unidades. Conforme o JC apurou, trata-se de uma realidade verificada tanto no sistema público quanto privado de saúde.

Somente no Departamento de Urgência e Emergência (DUE) da Secretaria Municipal de Saúde, o déficit de médicos cresce dos habituais 27% para 37% em julho. Por outro lado, a quantidade de pacientes cresce aproximadamente 13,5% na época de frio. Uma conta, obviamente, difícil de ser fechada.

Malavolta Jr.

Luiz Sabbag, do DUE: “Para preencher os ‘buracos’, muitos médicos aumentam a carga de horas extras”

Conforme dados do próprio DUE, em períodos considerados normais, a prefeitura teria de contratar mais nove profissionais para preencher as ‘janelas’ existentes nas escalas de plantão das cinco unidades de urgência e emergência – Pronto-Socorro Central (PSC), Pronto Atendimento Infantil (PAI) e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) do Mary Dota, Ipiranga e Bela Vista – e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Outros 14 precisariam ser chamados para atuar na UPA no Geisel/Redentor, que já está pronta, mas ainda não foi inaugurada (leia mais abaixo).

Atualmente, a prefeitura dispõe de 204 médicos contratados, sendo que 83 trabalham nas unidades do DUE. Segundo o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, o déficit não ocorre por falta de orçamento, mas de interesse dos especialistas.

“Na verdade, a falta de médico para fazer plantões ocorre de maneira generalizada, não apenas no setor público”, frisa. De acordo com ele, no último concurso público realizado pela prefeitura, 22 profissionais se inscreveram, mas, até agora, apenas três assumiram a função.

Estratégia

O déficit tende a se agravar no período de recesso escolar e nos finais de semana, sendo as áreas mais críticas as de pediatria e psiquiatria. Sem condições de atender a todos os pedidos de férias nesta época do ano, o diretor do DUE, Luiz Antônio Bertozo Sabbag, diz que não autoriza a saída de dois médicos que trabalhem no mesmo turno e dia, mesmo que em unidades diferentes.

“Autorizamos férias de até seis médicos ao mesmo tempo, desde que eles não trabalhem no mesmo período. Para preencher os ‘buracos’ que ficam, muitos médicos aumentam sua carga de horas extras. Quando não há esta disponibilidade, a gente fica com menos mesmo”, observa.

Ao todo, cada turno (de 6, 12 ou 24 horas) conta com 18 médicos distribuídos nas cinco unidades e no Samu. Mas locais que só contam com dois profissionais – como as UPAs do Ipiranga e do Mary Dota – não podem ficar desguarnecidas quando um deles entra em férias. Desta forma, sempre é preciso realocar especialistas de outras unidades que contam com equipe maior.

Mesmo assim, com o aumento da demanda por atendimento, os profissionais que permanecem trabalhando ficam sobrecarregados e a população fica ainda mais impaciente diante do aumento do tempo de espera. Segundo dados do DUE, nesta época do ano são realizadas cerca de 42 mil consultas por mês nas cinco unidades de urgência e emergência. O número é 13,5% maior do que o registrado em janeiro deste ano, no verão, quando foram prestados aproximadamente 37 mil atendimentos. Com o visível déficit de médicos, cada profissional tem atendido a incrível marca de 78 pacientes a cada plantão de 24 horas.

Malavolta Jr.

Aline Guarnieri esperava há mais de cinco horas para o filho, Guilherme Henrique, ser atendido


Usuários reclamam de espera no PAI

Na tarde de ontem, o ambiente era de estresse e impaciência no Pronto-Atendimento Infantil (PAI) devido à longa espera por atendimento. Mãe de Guilherme Henrique, a auxiliar de cuidadora Aline de Fátima Guarnieri, 28 anos, conta que esperava há mais de cinco horas para que o filho, de apenas 1 ano de idade, fosse atendido.

“Ele passou apenas pela pré-consulta, mas ninguém avaliou o que ele tem. Ele está há três dias com diarreia e vômito. Uma situação complicada para uma criança tão pequena e a gente tem de esperar todo esse tempo”, reclama ela, que perdeu o dia de trabalho.

Avô da pequena Ana Júlia, 3 anos, Flávio Luiz Nery, 33 anos, enfrentava a mesma situação. Aguardou por quatro horas até que a neta, que estava com febre, coriza e dor de garganta, pudesse ser atendida. “O Pronto-Atendimento ficou lotado a tarde inteira. Toda vez que venho aqui é a mesma coisa. A gente perde a paciência e os funcionários também. Tem dia que está ruim e tem dia, como hoje, que está péssimo”, lamenta.


Pediatria e psiquiatria são áreas mais críticas, segundo a secretaria

Segundo o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, pediatria e psiquiatria são, nesta ordem, as especialidades em que há maior dificuldade para contratar médicos em Bauru. Conforme o JC apurou, durante o período de recesso escolar, o déficit de pediatras chega a 50% do total necessário para atender toda a demanda das unidades de urgência e emergência da cidade. Atualmente, a prefeitura possui 20 pediatras contratados e seriam necessários outros 10 para suprir todas as escalas de trabalho.

Arquivo/Neide Carlos

Carlos Gobbo, do Cremesp: “Pediatria é uma especialidade

que vem sendo desprestigiada ao longo dos anos”

“É uma especialidade que vem sendo desprestigiada ao longo dos anos em todo o País. Não é um problema pontual de Bauru”, pondera o médico Carlos Alberto Monte Gobbo, responsável pela regional do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) em Bauru.

Em todas as especialidades, o salário inicial oferecido pela prefeitura é de R$ 3.800,00 para 20 horas semanais. Para atuar no Departamento de Urgência e Emergência (DUE), a jornada mínima exigida é de 24 horas, com salário de R$ 4.500,00.

Por cada plantão extraordinário de 12 horas, no entanto, o profissional pode acrescer mais R$ 1.350,00 aos rendimentos. Segundo o JC apurou, o salário de médicos com mais de dez anos de carreira que trabalham 36 horas semanais pode chegar a R$ 12 mil.


Metade dos médicos não possui vínculo com o sistema público

Segundo dados do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) em Bauru, a cidade possui cerca de 900 médicos, sendo que metade deles não possui nenhum vínculo com o sistema público de saúde. Considerando a população de Bauru, o índice é de 2,6 profissionais por habitante, mesma concentração da média estadual, mas bem abaixo do registrado pelos grandes centros urbanos.

Na Capital, a proporção é de 4,5 médicos por morador, segundo o estudo Demografia Médica no Brasil, elaborado pelo Cremesp em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM). Segundo Monti, a média da região está entre as piores do Estado.

“A utilização do trabalho médico aumentou muito. As pessoas fazem mais consultas, exames e procedimentos até por conta da tecnologia disponível atualmente, mas a demanda não foi acompanhada no mesmo ritmo pelo crescimento do número de profissionais. No meu ponto de vista, a base do problema, em Bauru, está na falta de um curso de medicina para formar profissionais”, opina.


Categoria usará fita preta hoje por melhores condições de trabalho

Para simbolizar o luto diante das condições em que se encontra a saúde pública do País, médicos de Bauru usarão fitas pretas sobre as mangas dos jalecos durante todo o dia de hoje. A recomendação foi feita pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), que também deverá mobilizar a classe a afixar cartazes nas principais unidades de saúde da cidade, incluindo hospitais.

O protesto ocorre simultaneamente em todo o território nacional para demonstrar a insatisfação dos profissionais frente ao projeto do governo federal de “importar” médicos estrangeiros sem a revalidação de diplomas. Eles reclamam ainda da ausência de medidas que permitam o pleno exercício da medicina e a qualificação da assistência.

“A política adotada hoje é muito deficiente e é por isso que a grande maioria dos médicos não se sente motivada a trabalhar no setor público. O salário não é atrativo e as condições de trabalho, em muitos lugares, não são seguras. É preciso investimento nas unidades e nas carreiras. Não adianta trazer médico de fora”, pondera.

Em Botucatu, na manhã de hoje, médicos, professores, residentes e estudantes da faculdade de medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) prometem, num ato simbólico, abraçar o Hospital das Clínicas. Em seguida, haverá passeata. Na Capital, a classe também caminhará em protesto rumo ao gabinete de representação da Presidência da República, na avenida Paulista.

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